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Slam Maré Cheia Realiza Batalha de Poesia Itinerante na Favela da Maré

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A batalha de poesia do Complexo da Maré, Slam Maré Cheia, realizou no último domingo, 30 de junho, sua terceira edição na Praça do Skate do Parque União. O primeiro a chegar e se inscrever para a batalha daquela tarde foi o morador da Nova Holanda, Sillas Alves Nascimento, conhecido no rap como SL MC. “Sempre tive vontade de fazer slam devido a letra ser mais valorizada”, contou Sillas, “No rap, os outros prestam atenção na letra, mas procuram mais a batida perfeita.”

Aos poucos, o público também foi chegando e ocupando o banco da praça. Karoline Rodrigues, moradora da Vila do João, contou que era a primeira vez que ia à Praça do Skate e que aquela era a segunda competição de slam que assistia na Maré: “Eu sempre vou no Slam das Minas, gosto muito. E aí, quando vi essa iniciativa aqui na Maré eu disse: ‘Tenho que ir, tenho que ir!’” Karoline lembrou que devido a uma reunião acabou não podendo ir na primeira edição do Slam Maré Cheia, realizada em março deste ano na Nova Holanda, mas assistiu a segunda edição que ocorreu na Vila do Pinheiro, em abril. “Geralmente, as coisas acontecem na Nova Holanda e lá no Pinheiro nunca tem nada. Eu falei, ‘cara a gente tem que ocupar esse espaço mesmo’”, lembra Karoline. “Então, eu achei muito legal essa iniciativa do slam de percorrer a Maré inteira”, disse ela.

O logotipo do evento criado por Matheus de Araújo, poeta e idealizador do Slam Maré Cheia, traz a imagem do mapa do conjunto de favelas da Maré. “Eu tentei buscar algo que fosse representativo para os 140.000 habitantes”, contou Matheus. “Pensei em algo que lembrasse uma palafita que é como a Maré surgiu, mas eu queria algo mais atual. Aí veio a ideia do mapa da Maré que é muito emblemático. A Maré é um ponto estratégico na cidade do Rio, quem entra e sai [do Rio] tem que passar pela Maré”. 

Na programação do dia estava também o lançamento do jornal Literatura Comunica! em comemoração aos seis anos do projeto, que leva o mesmo nome. O jornal literário destaca as rodas de leitura realizadas em torno das obras da escritora Carolina de Jesus e reúne artigos e depoimentos, sobretudo, de moradores da Maré, Cerro Corá e Vila Autódromo que participaram de atividades do projeto.

Gabrielle Alves, moradora da Vila do Pinheiro, contou como foi escrever o artigo Educação e racismo em Carolina Maria de Jesus que faz parte deste primeiro número: “Esse foi meu primeiro artigo [publicado]. Então, quando comecei foi um grande desafio, uma grande batalha porque eu não estou acostumada. Eu tinha escrito esse texto há uns dois anos e quando fui reler para publicar, eu senti que poderia ter escrito de outra forma. Achei isso interessante porque pensava que eu não tinha evoluído, não tinha mudado muito. Mas percebi que evolui bastante, consegui ter outros tipos de percepções e me expressar de outra forma que eu não conseguia me expressar antes”, lembra Gabrielle. “Aí, eu escrevi a segunda vez e me senti muito mais preparada na hora de montar o texto. O entrosamento que eu tive com o livro de Carolina de Jesus ajudou. Eu acho que ficou mais simples, mais fácil, até porque a linguagem dela inspira nossa linguagem também.”

Gabriel da Matta, professor do Pré-vestibular Machado de Assis, no Morro da Providência, falou sobre a experiência das rodas de leitura que realizou com mais duas professoras em escolas ocupadas do Rio de Janeiro, em 2016: “Rever as fotos e relembrar os eventos que aconteceram, as escolas por onde a gente passou… no Rio, Niterói, São Gonçalo… Embora não tenha sido há muito tempo, foi um exercício de memória também, foi bem interessante”.

Após a distribuição do jornal, os slammasters do Maré Cheia, Rejane Barcelos e Matheus de Araújo, iniciaram a apresentação dos competidores da terceira edição: SL MC e Profeta MC, ambos moradores da Maré. Na primeira edição, a vencedora da batalha foi a poeta Valentine, moradora de Caxias, e na segunda, foi Dudu Neves da Cidade de Deus

“Em busca da paz, quebrando barreiras, SLAM MARÉ CHEIA!” – Rejane Barcelos puxou o grito do slam junto à plateia

O vencedor da batalha foi SL MC que ganhou o livro de poesia Maré Cheia, de Matheus de Araújo e uma vaga para a final do Slam Maré Cheia em setembro, na Lona Cultural da Maré. Desta batalha final, sairá o representante do Maré Cheia para a competição estadual do Rio de Janeiro, Slam RJ.

No Rio de Janeiro, as competições de slam tiveram início em 2013 e ganharam força em 2014 quando a Festa Literária das Periferias (FLUP) realizou a primeira edição do Rio Poetry Slam sob curadoria de Roberta Estrela D’Alva. Em 2008, após um intercâmbio nos Estados Unidos)—onde conheceu as batalhas de poesia de lá denominadas “slam”)—Roberta Estrela D’Alva fundou o primeiro slam do Brasil, o ZAP! (Zona Autônoma da Palavra), no bairro de Pompeia, em São Paulo. A partir daí, o slam foi se espalhando pelo país. A modalidade literária-competitiva foi criada pelo norte-americano Marc Smith num bairro branco e operário de Chicago, como Roberta Estrela D’Alva conta no documentário Slam: Voz de Levante, de 2017.

A Maré entrou para o circuito dos slams em 24 de março de 2019 pelas mãos do mareense Matheus de Araújo: “Eu idealizei, mas não faço ele sozinho. Têm a Thais Ayomine, Isadora Gran e Rejane Camelô também. E o Patrick Mendes que tem fotografado pra gente as edições”. 

A Rainha do Verso , Rejane Barcelos, nasceu em Itaperuna e mora há um ano e meio na Vila do Pinheiro, na Maré. Descobriu-se poeta desde que foi alfabetizada, faz parte da antologia Brutas flores, já lançou vários zines e Reza forte, seu mais novo zine, será lançado na FLIP deste ano. “Eu sou mulher preta. Então, mulher preta não tem como se dedicar a uma coisa só. Eu faço várias coisas: sou faxineira, sou camelô, faço faculdade de letras-árabe na UFRJ e o que aparecer, gosto de mergulhar”, nos contou Rejane, uma das organizadoras do Slam Maré Cheia.

Rejane anunciou que organizou um curso de poesia de rua, uma oficina baseada na metodologia do slam. O curso está com inscrições abertas e vai ser realizado no Centro de Referência de Mulheres da Maré (CRMM), na Vila do João, duas vezes por semana. As inscrições podem ser feitas diretamente no CRMM ou com a própria Rejane em suas redes sociais.

Matheus de Araújo, cria da Rubens Vaz, na Maré, também é estudante de letras na UFRJ, mas sua relação com a literatura é muito anterior à universidade. Matheus afirma que ela vem da rua, dos saraus literários, dos slams. Ele participou da FLUP Pensa 2016 e em janeiro de 2018, lançou seu primeiro livro de poesia, Maré Cheia, no Centro de Artes da Maré (CAM). “Foi bem no meu processo de autoconhecimento sobre as questões sociais e raciais”, disse Matheus de Araújo. “Lancei o livro, no CAM, aqui na Maré e não poderia ser diferente, foi aqui que nasci e é daqui que eu falo, sempre que carrego minha palavra para todos os lugares. Então, nada mais justo do que meu primeiro passo ser aqui também.”

Depois do lançamento na Maré, Matheus lançou a obra em outras favelas e também na FLIP de 2018, em Paraty. O livro tem prefácio da slammer Mel Duarte e foi publicado pela editora Multifoco. “Maré Cheia surgiu para o livro, mas carrega um conceito, nós devemos ser maré cheia, superar os aterros da sociedade. É uma relação metafórica, eu quis levar isso para o slam também”, disse Matheus.

A Praça do Skate do Parque União também é palco de outra atividade: a Roda Cultural do Parque União que movimenta o local há dois anos. André Luiz Vasconcelos, um dos organizadores da Roda Cultural, também assistiu a competição do Slam Maré Cheia: “Pra mim é uma honra ver isso aqui na Maré”, disse André. “O Matheus eu conheço de muito tempo. Cheguei a estudar na mesma escola que ele, e ver ele também se aprofundar no conhecimento da poesia é uma honra”, disse ele.

A Roda Cultural do Parque União ocorria toda sexta-feira, mas desde que ficaram sem equipamento de som, ela ficou suspensa. O grupo, no entanto, continua em ação, promovendo aos sábados e domingos ações comunitárias para revitalização da praça. O Slam Maré Cheia também está sem equipamento de som e é realizado no gogó, ou seja, usando toda a potência da voz sem microfone e caixa de som. Quem quiser conhecer mais os projetos e colaborar, pode entrar em contato diretamente com eles pelas redes sociais: Slam Maré Cheia, aqui e da Roda Cultural do Parque União, aqui.

Miriane Peregrino é pesquisadora, jornalista comunitária e educadora, especialista e mestre em Literatura pela UERJ. Criou o projeto de incentivo à leitura “Literatura Comunica!” que atua em escolas, bibliotecas comunitárias e equipamentos culturais há seis anos. Nascida no interior do Rio, atua na Maré desde 2013.