Últimas Notícias

Se Reconectando Aos ‘Sentidos, Sabores e Saberes’ da Serra da Misericórdia

Click Here for English

No dia 29 de junho, o Verdejar, uma organização socioambiental do Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro, realizou um evento para celebrar o meio ambiente da Serra da Misericórdia (o maior fragmento de floresta remanescente na densamente povoada Zona Norte do Rio) com comida, música, curtas-metragens e jogos para envolver os sentidos. As festividades do dia exibiram os resultados da mais recente fase de trabalho ecológico do Verdejar, que começou em 2014.

Algumas das festividades do dia aconteceram no Ponto de Cultura Luiz Poeta, no Engenho da Rainha, em homenagem ao falecido Luiz ‘Poeta’ Euz, fundador do Verdejar. Luiz Poeta começou a plantar árvores na década de 1980 e por fim reflorestou a área circundante e fundou o Verdejar, em 1997. Desde então, o grupo tem se dedicado a manter a Serra da Misericórdia reflorestada, elevando a consciência ecológica entre os moradores e lutando para fortalecer políticas de proteção ambiental da prefeitura.

A Serra da Misericórdia abrange 27 bairros da Zona Norte e, graças aos esforços do Verdejar, já foi designada para se tornar um parque urbano público com trilhas, pátios e ciclovias para educação ambiental. A Prefeitura do Rio abandonou o projeto em 2014, pois o então Prefeito Eduardo Paes, a pessoa que havia assinado o projeto quatro anos antes, descartou os planos e retirou milhões destinados aos investimentos. Um parque de bicicleta solitário que mede 2,5 hectares da área é tudo o que resta, do que teria se tornado o parque urbano da Leopoldina.

A designação da Serra como Área de Proteção Ambiental e Recuperação Urbana (APARU) em 2000 não impede que pedreiras operem na região, e os organizadores do evento relatam que a dinamite é detonada a menos de 1.000 metros de distância dos moradores. As explosões têm criado nuvens de poeira cobrindo vários bairros, levando alergias e problemas respiratórios às comunidades. A destruição de nascentes e outros corpos de água também gerou uma grande ilha de calor.

Foi nesse contexto de degradação ambiental que, desde 2014, o Verdejar busca focar na participação e educação de jovens na preservação da memória do território, apresentando fotos e vídeos de projetos em andamento. Fotos tiradas anos atrás para a exposição “Olhares da Misericórdia” foram mostradas, bem como dois curtas-metragens de alunos, “Verdejantes” e “Caixa Limpa”, produzidos com o apoio do Cineserra e o CIEP Frederico Fellini.


As atividades foram realizadas ao ar livre, com tendas dedicadas à conscientização ambiental. Em uma tenda os participantes aprenderam a criar flores e outras decorações a partir de garrafas plásticas (acima). Em outra (abaixo) os participantes foram orientados, de olhos vendados e descalços, a pisarem sobre folhas e terra antes de enfiarem os pés em poças de água, enquanto estavam sendo ventilados por uma folha de palmeira grande. Ao expor os participantes ao seu ambiente natural e envolvê-los com o meio ambiente, os organizadores do evento esperavam reconstruir um sentimento de pertencimento à comunidade local.

Um professor do curso de Teatro Ambiental e Memória do Verdejar atuou em outra área do evento, mostrando aos participantes como criar colares com uma pequena garrafa com pedaços de rocha, terra e planta dentro. Para o professor, os colares ajudaram a manter os usuários conscientes do ambiente ao seu redor, “carregando um pouco de terra com você o tempo todo”.

As comidas e bebidas do dia, foram produzidas no local. Os organizadores do evento serviram um cardápio sem carne, com pão de banana, molho picante de manga e salada maluca, todos temperados com um senso de importância ambiental e cultural.

Os cariocas não foram os únicos presentes neste evento—Susana Soledad Alegria Sepulveda, uma artista de tapeçaria chilena que se mudou para o Engenho da Rainha há alguns anos, chegou em busca de ideias para seus próprios projetos ambientais. Susana, que viveu e trabalhou em uma comunidade artística do Rio por vários anos, está atualmente trabalhando em uma tapeçaria que retrata a história da favela da Rocinha, localizada na Zona Sul da cidade.

Contra um cenário nacional de desmatamento na Amazônia, recorrentes desastres de mineração e uma tendência implacável de desastres ambientais em toda a cidade do Rio de Janeiro, eventos como este oferecem esperança. O Verdejar tem estado ativo desde que a prefeitura abandonou o projeto do Parque da Misericórdia, em 2014, e mostra que o legado de Luiz Poeta, no Rio, continua vivo, incentivando todos nós a nos movermos com a coreografia do nosso ambiente natural e de forma positiva.