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Pedala Queimados: Pedalando para ‘Mudar o CEP da Oportunidade’ #RedeFavelaSustentável [PERFIL]

Perfil da Rede Favela Sustentável*

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Iniciativa: Pedala Queimados
Contato: Facebook | InstagramE-mail
Ano de Fundação: 2016
Comunidade: Queimados (Baixada Fluminense)
Missão: Estimular o uso da bicicleta como meio de transporte, democratizar o uso da terra, integrar movimentos de luta pelo transporte ativo e sustentável, debater e propor políticas públicas para melhorar a qualidade da mobilidade urbana.
Eventos Públicos: Pedala Queimados realiza passeios de bicicleta, palestras frequentes e participa de eventos importantes no Grande Rio. Confira na página do Pedala Queimados, no Facebook, para mais informações.
Como Contribuir: Participe de eventos, seja voluntário e apoie financeiramente a iniciativa.

Carlos Leandro de Oliveira viveu sua vida inteira em Queimados, uma cidade de aproximadamente 150.000 habitantes localizada a 50km ao norte do Centro do Rio de Janeiro, na Baixada Fluminense. Ele estava lá antes da inauguração oficial da cidade em 1990. Ele estava lá antes das estradas serem pavimentadas e os canos de esgoto serem instalados na terra. Ele estava lá antes de milhares migrarem para Queimados nas décadas de 2000 e 2010, como resultado do deslocamento e suposta oportunidade econômica. Ele estava lá antes da cidade receber o título sombrio que tem hoje: o município mais violento de todo o Brasil—registrando a mais alta taxa de homicídio do país, de acordo com o Atlas da Violência de 2018.

Alguém poderia dizer que viver em uma favela em Queimados é viver na periferia da periferia urbana. À luz das amplas disparidades econômicas regionais e da falta de integração da área metropolitana, muitos moradores do Grande Rio viajam muitas horas diárias todos os dias—para os três milhões de moradores da região, a média da viagem diária é de 2 horas e 21 minutos—para áreas comercialmente ativas como a Zona Sul e o Centro do Rio. Desemprego, pobreza, violência, analfabetismo, desigualdade, falta de serviços públicos e habitação adequada estão entre os problemas e obstáculos que eles enfrentam.

Crescendo nessa situação de pobreza, Carlos deixou sua educação de lado para dar apoio a sua família desde cedo. “Com sete anos de idade eu era camelô de trem enquanto minha mãe e avó vendiam doces em frente ao banco”, diz Carlos. O trabalho fez com que ele só conseguisse se formar no ensino fundamental com mais de 20 anos.

Perto dos 30 anos, Carlos terminou o ensino médio e se matriculou em um curso de gestão ambiental de dois anos na universidade local. Trabalhando simultaneamente, ele levou cinco anos para completar o curso. Nesse período, ele estava trabalhando na GlaxoSmithKline Pharmaceuticals em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, e precisava acordar às 2 da manhã para conseguir chegar no horário e se preparar para a aula mais tarde.

No meio do curso, Carlos foi escolhido para um estágio num processo seletivo rigoroso e se viu ensinando sobre educação ambiental em Japeri, município adjacente a sua cidade natal, Queimados. Lá, ele começou a ver o valor do conhecimento acadêmico que tinha adquirido na universidade e também o impacto positivo que iniciativas baseadas localmente podem ter em uma comunidade.

Quando Carlos terminou seu curso de gestão ambiental em 2014, seu estágio também acabou. Faltando vários meses para seu diploma ser processado, Carlos viu-se sem uma fonte de renda. Incapaz de arcar com o transporte público intermunicipal custoso, ele descreve: “Eu peguei minha bicicleta e saí pedalando para o Rio de Janeiro. 50 ou 55 quilômetros, quatro horas pra chegar na capital. Deixei minha bicicleta lá, voltei de trem, desci [para o Rio] de trem, e voltei de bike. Até eu começar a fazer isso todo dia”. Apoiado por sua família e amigos, ele fez isso para mostrar para as pessoas de Queimados que havia modos alternativos de transporte digno a preço acessível. “Muita gente aqui não considera bicicleta como meio de transporte, só [considera] lazer ou brinquedo”.

Foi durante esse período que Carlos conheceu Ricardo Martins. Ricardo tinha terminado recentemente de pedalar pela América do Sul em uma bicicleta que ele mesmo fizera com bambu. Ele deu para Carlos seu livro, Roda América, sobre sua experiência e filosofia. Depois de ler o livro, Carlos conta: “Eu pensei: ‘Se esse cara fez [toda] América do Sul com um salário mínimo da época, que era R$385, então, eu posso pedalar para São Paulo!” Carlos fez uma viagem de cinco dias e 400km até São Paulo, e depois muitas outras viagens se seguiram. Devagar, ele ganhou reconhecimento por seu ativismo, ficou conhecido carinhosamente como “Carlos GreenBike”, por defender a causa socioambiental. Ricardo agora é o diretor das relações institucionais do Pedala Queimados.

Em 2016, “muitas coisas ficaram ruins [em Queimados]”, Carlos admite. A cidade recebeu milhares de pessoas deslocadas devido à preparação da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos. “Essas pessoas foram retiradas do seu território, sua cultura, das suas famílias, seus amigos e foram jogadas em Queimados”. Consequentemente, veio a milícia e o conflito intenso entre os membros da milícia e os traficantes de drogas. Em resposta a essa nova realidade, Carlos organizou um seminário. “Nós fizemos um seminário. Juntei todas as pessoas. Falamos sobre onde queremos estar daqui a 25 anos. Daquele seminário veio a ideia de Queimados pedalar para o futuro, para uma cidade mais humana.” Mais tarde, Carlos lançaria essa ideia como “Pedalando para o Futuro”. Pedala Queimados é a realização dessa ideia.

Desde então, Pedala Queimados cresceu de uma iniciativa de um homem só para uma iniciativa com cerca de vinte membros centrais. Além de se juntar e apoiar Carlos em seus empreendimentos sobre rodas, muitos membros do Pedala Queimados ensinam e auxiliam em um curso de bicicleta de bambu ministrado pelo artesão holandês Klaus Volkmann, de Art Bike Bamboo, que tem sua sede na cidade de Porto Alegre, no sul do Brasil. Esse curso é organizado com o apoio financeiro do programa CASA Cidades, o Fundo CASA Socioambiental, e o Dutch Cycling Embassy, e é organizado em parceria com diversas organizações, incluindo AmeCiclo, Transporte Ativo, Bike Anjo Rio, AMPARA, e Casa Fluminense.

Durante essa oficina de nove dias, jovens selecionados da comunidade aprendem a construir suas próprias bicicletas de bambu—como Ricardo fez. Por dez horas por dia, os jovens trabalham juntos para construir seis bicicletas. “Eles cortam o bambu verde, tratam, fazem a montagem e a arquitetura da bicicleta. A bike é feita como eles desejam”, Carlos explica. “Quando a gente pegou um jovem que saiu recentemente da cadeia, e que tem liberdade para fazer qualquer coisa, e ele escolheu fazer uma bicicleta de bambu—e passa a ensinar a produzir a bike de bambu—as próprias pessoas que criminalizavam ele, vêem ele sob uma luz diferente”. Dos vinte jovens que completaram o novo programa, dezesseis participaram de forma gratuita, grande parte graças a uma organização holandesa que comprou uma das bicicletas originais por €1.500 (aproximadamente R$6.862). As notícias do sucesso do programa se espalharam: Pedala Queimados foi apresentado em uma matéria por Ricardo na edição de abril da Revista Bicicleta, uma grande revista de ciclismo nacional, e iniciativas similares estão sendo iniciadas em Porto Alegre e no Peru.

Carlos, um homem de discurso e ação prolíficos, participa e fala regularmente em conferências de sustentabilidade, liderando eventos de bicicleta por todo Grande Rio e mesmo fora. Depois de participar da Conferência Velo-City 2018 no Rio, a maior conferência sobre bicicletas e ambiente urbano do mundo, Carlos recebeu patrocínio para participar da Velo-City 2019 em Dublin, na Irlanda.

O objetivo do Pedala Queimados é “transformar nossa realidade através da bicicleta”, diz Carlos. Isso inclui desestigmatizar Queimados. “A mídia fala [que Queimados é] violenta, nos falamos violentada. Quando se fala ‘violenta’ reflete nas pessoas, e você [visitando Queimados] acabou de observar que as pessoas não são violentas”, ele diz. Carlos pretende mudar essa narrativa contando a sua história para o mundo e trazendo visitantes para Queimados. “A partir da bicicleta, principalmente a bicicleta de bambu, a gente conseguiu mudar pessoas mais fechadas, porque a bicicleta abre espaço.”

Pedala Queimados vai continuar a lutar para garantir os direitos humanos básicos para sua comunidade e melhorar a mobilidade urbana dentro da região metropolitana do Rio. “A gente quer uma cidade mais saudável, mais humana. Uma cidade onde as pessoas consigam olhar mais.”

*Pedala Queimados é um dos mais de 100 projetos comunitários mapeados pela Comunidades Catalisadoras (ComCat)—a organização que publica o RioOnWatch—como parte do nosso programa paralelo ‘Rede Favela Sustentável‘ lançado em 2017 para reconhecer, apoiar, fortalecer e expandir as qualidades sustentáveis e movimentos comunitários inerentes às favelas do Rio de Janeiro. Siga a Rede Favela Sustentável no Facebook. Leia outros perfis dos projetos da Rede Favela Sustentável aqui.