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Como Adiar o Fim do Mundo com Educação Ambiental? Mesa-Redonda Compartilha Soluções da Periferia

Mesa-Redonda Compartilha Soluções da Periferia

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Esta é a sétima matéria de uma série gerada por uma parceria, de um ano, com o Centro Behner Stiefel de Estudos Brasileiros da Universidade Estadual de San Diego na Califórnia, para produzir matérias sobre direitos humanos e justiça socioambiental em favelas para o RioOnWatch.

No sábado, 25 de janeiro, ativistas das periferias do Rio de Janeiro se uniram a acadêmicos locais e cidadãos interessados para uma mesa redonda sobre soluções ambientais. Intitulado “Como adiar o fim do mundo com educação ambiental?” (Inspirada no título do livro de 2018 do líder indígena brasileiro Ailton Krenak, Ideias para Adiar o Fim do Mundo), o seminário da tarde fazia parte do seminário anual Escola Mateira, uma oficina de educação ambiental de três dias organizada pelo Instituto Moleque Mateiro.

O trabalho de Krenak, que foca nas subjetividades de grupos periféricos brasileiros que mantiveram relações não exploradoras com a natureza, forneceu um contexto adequado para o evento, que contou com o líder quilombola Adilson Almeida e o ativista ambiental e de mobilidade da Baixada Fluminense Carlos “Greenbike” Oliveira. “Nós, educadores ambientais da cidade grande”, disse Pablo Araújo, diretor do projeto Moleque Mateiro, “precisamos ouvir essas histórias para inspirar nosso trabalho, para que não acabemos trabalhando fora dessa realidade socioambiental e de seus verdadeiros problemas”.

O evento acontece em um momento em que pioneiros das favelas e periferias do Rio de Janeiro vêm ganhando maior visibilidade por seu papel na preservação ambiental. Micro-iniciativas locais baseadas nas próprias comunidades, para criar espaços verdes em meio a ilhas de calor, embelezar espaços urbanos e implementar energia alternativa nas favelas, vêm atraindo muito interesse diante do cenário de crise climática global.

Durante o evento foram apresentados quatro projetos distintos, alinhados ao modelo de Krenak de engajamento com perspectivas alternativas e ambientalmente responsáveis. Um deles é o projeto de Adilson, presidente e fundador da Associação Cultural Quilombo do Camorim (ACUQCA), localizada na Zona Oeste do Rio. Ele enfatizou a importância da colaboração: “A gente pode começar sozinho”, disse Adilson, “mas nunca terminaremos [o trabalho] sozinho”.

O quilombo doo Camorim—uma comunidade histórica de descendentes de escravos fugitivos—vem fazendo esforços coletivos de reflorestamento e cultivo de hortas orgânicas. Quando as chuvas torrenciais destruíram a horta e multiplicaram uma vegetação rasteira que se tornou intransponível, a ACUQCA organizou, juntamente com a Rede Favela Sustentável*, um mutirão para limpar o canteiro, restaurando não só a horta, mas também o sítio arqueológico do quilombo. Adilson, que disse que a ACUQCA serve para reviver a história dos ancestrais do quilombo além de criar novos espaços de resistência, também percebeu que a ACUQCA transmite esse legado aos moradores mais jovens da comunidade. “Explicamos para as crianças o que é um quilombo”, disse ele. “Muitos adultos nem sabem [o que é]!”.

Essa percepção foi compartilhada pela poeta e professora Jade Prata Bueno, do Projeto Espasmo, que mediou a conversa durante a tarde. Jade, que usa a poesia como “uma forma de conversa que trará novos valores”, falou do trabalho do professor de ecologia Fernando Fernandez e do poeta, professor e ativista palestino Rafeef Ziadah. As soluções começam com a comunicação, segundo Jade, e envolver as crianças nessa comunicação é fundamental. Refletindo sobre o trabalho de Ziadah, Jade concluiu: “Um país com crianças sem perspectivas é um país sem futuro”.

Para Carlos “Greenbike” Oliveira, trazer perspectiva aos jovens moradores é uma questão importante que também acompanha a educação ambiental. Depois de se formar em estudos ambientais (tornando-se o primeiro da família a cursar uma faculdade) em 2014 e voltar para casa em sua cidade natal, Queimados, cidade na Baixada Fluminense conhecida por altos índices de violência, Carlos se viu de mãos e pés atados. Ainda faltando meses para que seu diploma fosse impresso e sem dinheiro para o transporte intermunicipal, ele começou a fazer todo o trajeto entre sua casa ao Centro do Rio de bicicleta. A viagem diária de quatro horas se transformou em um esforço ativista, servindo para educar os membros da comunidade sobre a questão da mobilidade urbana e os benefícios do ciclismo. Carlos depois fundou o Pedala Queimados, ensinando jovens a construir bicicletas de bambu, entre outras atividades. A bicicleta, explica Carlos, é uma “ferramenta de transformação social”.

Para o diretor de cinema Marcio Isensee e Sá, assim como para a roteirista e pesquisadora Duda Menegassi, fazer educação ambiental significou produzir sua própria iniciativa online. Sua websérie Pé no Parque, produzida em colaboração com a ONG O Eco e a plataforma WikiParques, tem breves episódios em estilo de documentário destacando as belezas dos parques nacionais brasileiros. A série, com cinco temporadas atualmente disponíveis no YouTube (cada temporada dedicada a um parque específico), leva os espectadores para uma espécie de viagem virtual. Cada episódio busca um tema diferente, do turismo à história do parque e à preservação.

A ideia é incentivar o turismo responsável nos parques, reconhecendo a importância de manter a “natureza intocada”. Duda espera que os visitantes tenham suas perspectivas de preservação ambiental transformadas: “É através da visitação que as pessoas irão se sensibilizar para o real valor da proteção da natureza”, disse ela.

Mesclando florestas, quilombos, periferias rurais e urbanas, a roda de conversa serviu de testemunho concreto ao trabalho de Ailton Krenak. Embora, como escreveu Krenak, “a modernização jogou essa gente do campo e da floresta para viver em favelas e em periferias, para virar mão de obra em centros urbanos”, eventos como esse vêm reunindo esses mesmos grupos em laços de solidariedade, unindo-os pela causa da proteção socioambiental.

*A Rede Favela Sustentável e o RioOnWatch são projetos da Comunidades Catalisadoras (ComCat).


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