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A Baixada Fluminense na Visão de Cinco de Seus Pesquisadores

O que a produção acadêmica de uma região como a Baixada Fluminense pode dizer sobre si? Que inquietações nascem dentre os jovens pesquisadores baixadenses e o que esperam trazer como legado? Para responder essas e outras perguntas, selecionamos algumas pesquisas sobre a região. O objetivo é construir uma rede de fontes que potencializem os municípios que integram a Baixada Fluminense a partir de diversos olhares e áreas do conhecimento.

As pesquisas, suas autoras e autores, foram escolhidas a partir de um critério bem democrático, que envolveu a localização dessas fontes com o auxílio de uma rede social. Incluem TCCs (Trabalhos de Conclusão de Curso), dissertações de mestrado e teses de doutorado. Essas publicações atuais e futuras, já que várias das pesquisas ainda estão em andamento, constituirão parte de uma espécie de espelho teórico sobre a Baixada, baseada em sua vida cotidiana. Confirma algumas delas abaixo:

“Nossos mortos têm mães: Uma análise sobre as mães e familiares das vítimas da violência na Baixada Fluminense”

Na pesquisa desenvolvida por Giulia Escuri, graduada em jornalismo e mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (PPGCS/UFRRJ), ela se debruça sobre o tema da violência na Baixada Fluminense, tendo como foco as trajetórias das lutas das mães e familiares de vítimas de violência letal perpetrada por agentes do Estado.

“Pretendo observar as ações manejadas por esses familiares como recurso e estratégia nas ‘lutas por justiça’ contra o Estado”, diz ela. O estudo começou com a sua monografia da graduação, quando analisou a Chacina da Baixada de 2005 através da cobertura feita pelo jornal O Globo. Um dos pontos que ela está pesquisando agora são as consequências diretas da violência extrema sobre a subjetividade de suas vítimas e as pessoas que as circundam, o que inclui a dimensão coletiva e social do luto, a fim de entender como a organização em rede, especialmente no caso da Rede de Mães e Familiares de Vítimas de Violência do Estado na Baixada Fluminense, afeta o processo da perda de um ente querido.

Giulia se mostra esperançosa com relação às contribuições que sua pesquisa pode fornecer para a região. A escolha pelo tema partiu da própria vivência como habitante do município de Nova Iguaçu. Um detalhe chama a atenção nesse sentido: ela mora a poucos metros de um dos pontos onde ocorreu a Chacina de 2005. “A partir do trabalho de campo, ao lado da Rede, busco investigar as seguintes questões: como a questão do gênero é utilizada na luta por justiça, quais são as categorias morais, afetivas e políticas que compõem a ação das mães e qual é a especificidade da atuação da Rede de Mães e Familiares na região”, explica Giulia.

“O direito na produção do espaço: a federação brasileira na formação do espaço municipal, o caso de Nova Iguaçu”

Este é o título da pesquisa desenvolvida por Raul Rosa, mestrando em Desenvolvimento Territorial e Políticas Públicas, também pela UFRRJ. Graduado em Direito pela mesma instituição e morador de Shangri-lá, periferia de Belford Roxo, Raul analisa as relações urbanas que se formam a partir da criação de novos municípios, focando nas relações entre os municípios de Nova Iguaçu e municípios mais recentes, emancipados do primeiro a partir das mudanças no desenho federativo adotado na Constituição de 1988, como Mesquita e Belford Roxo.

“Acabei percebendo como os municípios da Baixada são conectados por diversos fatores e separados por outros. Isso me levou a buscar as razões dessa organização e cheguei ao ponto de estudar como as divisões territoriais feitas pelo Estado, a partir de uma lógica federativa, influenciam no espaço vivido, percebido e concebido pela população”, explica Raul. “Com isso, eu vou me cercar de uma parte da legislação para analisar os impactos que esse redesenho territorial da Baixada teve diretamente sobre sua população e como o sistema jurídico permitiu que cidades como Nova Iguaçu fossem tão fatiadas, sem pensar com exatidão nas consequências sociais, econômicas e políticas da criação desses novos municípios”.

“Coser: proposta de coworking social de costura para mulheres de Duque de Caxias”

Vanusa Rodrigues da Silva, mestre pela escola de Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), desenvolve sua pesquisa através da dissertação onde convida a um olhar cuidadoso para o trabalho das costureiras de Duque de Caxias. A proposta é de criação de um espaço de trabalho compartilhado que possa atender grupos de mulheres dessa profissão. Vanusa, cuja primeira ocupação foi como costureira, compôs o texto a partir de narrativas desse grupo de profissionais e suas impressões a respeito das suas condições de trabalho. Você pode conferir o trabalho completo aqui.

“Embora tenha cursado Letras na graduação, minha primeira profissão foi costureira. Aprendi o ofício aos 14 anos. Aos 16 consegui meu primeiro emprego como ‘aprendiz de costureira de produção’, uma ocupação totalmente mecanizada e cansativa, com um tratamento humilhante. Eu precisava me submeter a duas revistas íntimas (nas saídas de almoço e fim do expediente). Trabalhei em várias fábricas, pois embora fosse boa tecnicamente, era questionadora e, consequentemente, inadequada para as empresas. Trilhei outros caminhos e cheguei ao mestrado com esse tema”, explica Vanusa. Ela espera, com a visibilidade da pesquisa, construir um projeto social baseado na sua pesquisa: um espaço no qual as mulheres possam se dedicar ao seu ofício a partir de uma pequena contribuição que ajude nos gastos com maquinário e estrutura.

“Mulheres que rezam e curam: narrativas e resistências em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense (RJ)”

A pesquisa desenvolvida por Geraldo Bastos, mestrando no Programa de Pós-graduação em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é sobre as resistências de rezadeiras diante de contextos de violências e intolerância. Geraldo é coordenador do curso de educação popular no terreiro Ile Ase Ogun Alakoro. Como pesquisador do Laboratório de memórias, territórios e ocupações (Labmens), realizou o primeiro encontro municipal das rezadeiras da cidade de Nova Iguaçu.

Em sua pesquisa, Geraldo busca compreender de que forma o racismo e a intolerância religiosa se articulam ao atual cenário de violência em Nova Iguaçu e principalmente como isso afeta as mulheres que rezam e curam. “Por nascer em uma família com forte influência das religiões de matriz africana pude presenciar, desde cedo, a realidade por dentro desse território de rezas, curas e saberes tradicionais e assim, de certa forma, fui me tornando comprometido com essas causas, com essas pessoas”, explica o pesquisador.

Geraldo afirma que rezas e medicinas alternativas, como o uso de remédios caseiros e simpatias, muitas vezes substituem o poder público na provisão de serviços de saúde. O ofício das senhoras rezadeiras que atuam há mais de 60 anos na região já teria curado milhares de pessoas adoecidas. Evidenciar esses processos e buscar formas de mantê-los é uma das contribuições possíveis da pesquisa.

“Gestão cultural na Baixada Fluminense: uma análise das políticas públicas no município de Duque de Caxias”

Em sua monografia, Marlon Santos analisa as discussões acerca da cultura e a forma problemática como são implementadas políticas públicas na Baixada, em especial em Duque de Caxias. Com isso, ele procura dimensionar as características do setor cultural da cidade, identificando como as instituições públicas realizam a gestão cultural e quais são os atores que participam da elaboração dessas políticas. Sua pesquisa o leva a crer que o incentivo e a integração da participação popular na formulação e implementação de políticas de cultura ainda são duas das questões fundamentais para o desenvolvimento cultural.

Marlon Santos. Foto: Arquivo pessoal

“Eu optei por essa pesquisa porque eu acabei percebendo uma dificuldade enorme no desenvolvimento dos coletivos socioculturais de Duque de Caxias, principalmente pelo distanciamento gigantesco dos órgãos públicos em relação a garantir, ao menos, a visibilidade dos grupos autônomos. Então, eu quis entender como estavam sendo implementadas as políticas públicas, principalmente aquelas relacionadas à gestão cultural do município, especialmente por ser morador da Baixada e participante das atividades culturais aqui presentes”, diz Marlon.

Além disso, o jovem afirma que queria levantar reflexões acerca da gestão cultural e contribuir para aadministração da cultura no município onde mora. “Eu enxergo um potencial turístico enorme no interior dos coletivos socioculturais e acredito que esse potencial só possa ser usufruído com políticas públicas de cultura eficazes que contenham o protagonismo de quem toca a cultura no município”, finaliza ele.

Matéria escrita por Fabio Leon e produzida por parceria entre RioOnWatch e o Fórum Grita Baixada. Fabio é jornalista e ativista dos direitos humanos e assessor de comunicação no Fórum Grita Baixada. O Fórum Grita Baixada é uma coalização de organizações e pessoas da sociedade civil articuladas em prol de iniciativas voltadas aos direitos humanos e a segurança pública, tendo na Baixada Fluminense seu olhar e seu território de ação. Siga o Fórum Grita Baixada pelo Facebook aqui.


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