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Retrospectiva 2019: Melhores e Piores Reportagens Internacionais sobre as Favelas do Rio

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Esta é a contribuição mais recente da nossa série anual de matérias analisando as Melhores e Piores Reportagens Internacionais sobre Favelas do Rio, que faz parte do debate promovido pelo RioOnWatch sobre a narrativa e as representações midiáticas acerca das favelas cariocas.


Nós temos a tendência de abrir esta coluna anual criticando os correspondentes internacionais por, ano após ano, focarem exclusivamente na violência das favelas do Rio de Janeiro. Já explicamos repetidas vezes que esse tipo de cobertura uniforme contribui para a perpetuação de estigmas injustos sobre as favelas, e que tais estigmas perpetuados pela mídia reforçam uma narrativa histórica que sustenta políticas públicas equivocadas e punitivistas que inclusive levam a violações de direitos humanos e geram violência e desigualdade ainda maiores no Rio de Janeiro. A eleição do atual governo, que assumiu em 2019, foi prova viva disso, pois foi eleito quem prometeu reforçar as ações de repressão contra as favelas.

Como resultado, em 2019 a polícia do Rio de Janeiro matou mais pessoas do que havia matado em qualquer ano anteriormente registrado. Encorajadas pela retórica do governador recém-eleito Wilson Witzel, as forças armadas no Rio de Janeiro mataram com confiança de que teriam sua impunidade quase que certamente garantida. Nesse contexto, as ondas de manchetes sanguinárias que inundaram a cobertura internacional sobre as favelas cariocas foram absolutamente necessárias: um jornalismo efetivo deve responsabilizar as autoridades do governo por suas palavras e ações. No entanto, nós do RioOnWatch continuamos insistindo que uma cobertura propositiva, focada em soluções é essencial para a desconstrução de estigmas violentos e equivocados acerca das favelas e que a realidade tóxica do Rio só será aliviada, o Rio capaz de realizar o seu potencial, pela disseminação generalizada de perspectivas que aprofundam o entendimento acerca das favelas.

O foco na violência protagonizada pelo Estado pode ter levado correspondentes a perderem alguns dos mais positivos relatos vindos de favelas cariocas no ano passado. Por esse motivo não vimos na imprensa internacional, por exemplo, notícias sobre Lucas Lima do Complexo do Alemão, que aos 24 construiu sua própria impressora 3D de baixo custo. Ou mesmo sobre o pré-vestibular Unifavela da Maré, que teve 100% de seus alunos aprovados em universidades. Ou até mesmo mais informações sobre a luta para democratizar o acesso à energia solar nas favelas do Rio. Periferias cariocas estão continuamente produzindo soluções inovadoras a desafios atuais e fazemos um desserviço ao mundo quando ignoramos a potência que esses territórios representam.

Ainda sim, os níveis inéditos de violência policial em 2019 demandaram uma atenção inédita. À luz disso, correspondentes estrangeiros e veículos internacionais exerceram um papel importante no monitoramento e no questionamento das políticas públicas de segurança do Rio.

Coberturas Importantes sobre Violência Policial

O discurso ultra-violento do governador (incluindo promessas de que a polícia atiraria “nas cabecinhas” de criminosos, insinuações de enviar um míssil para explodir a Cidade de Deus, repetidas aparições vestindo uniformes militares e um vídeo em que aparece em um helicóptero que está atirando para baixo) apareceu de forma destacada ao lado de uma sequência de registros tenebrosos de violência policial. O assassinato de Ágatha Felix, de 8 anos, o massacre no Fallet-Fogueteiro, os 257 tiros sobre o carro do músico Evaldo Santos, o assassinato do instrutor de jiu-jitsu Jean Rodrigo Aldrovande e uma série de crianças vítimas de “balas perdidas” suscitaram a produção de reportagens excelentes e significativas por correspondentes internacionais. As melhores delas incluíram falas de moradores e analisaram criticamente declarações oficiais da polícia, como:

Outros artigos temáticos acertaram ao conduzir entrevistas extensas com moradores, líderes comunitários e autoridades públicas. É exatamente o que faz esta ampla matéria da AP sobre as opiniões divergentes acerca do emprego de métodos violentos pela polícia, mencionando claramente o custo humano dessa estratégia. Alguns outros, como estas matérias detalhadas do The Financial Times e do Bloomberg, investigam extensamente um tópico cada vez mais crítico: o crescimento das milícias no Rio.

Este excelente editorial para o The Washington Post, intitulado “Outro incêndio assola o Brasil — dentro das favelas do Rio”, merece atenção especial. Também a análise da origem das balas disparadas durante tiroteitos conduzida ao longo de vários meses pelo The Intercept, em parceria com o Instituto Sou da Paz e o grupo de pesquisa suíço Small Arms Survey, foi capaz de demonstrar a dimensão internacional do conflito armado que acontece no Rio.

Embora não diretamente relacionados às favelas, diversos outras matérias tiveram sucesso em descrever o cenário político da violência carioca. Este artigo da Al-Jazeera traça a origem das estratégias policiais de 2019 a partir do legado deixado pela intervenção militar de 2018. Além disso, a ex-colaboradora do RioOnWatch Stephanie Reist situa a mistura do policiamento sanguinário e envolvimento do Estado com a milícia em um cenário necropolítico mais amplo para a Jacobin Mag de maneira eficaz.

Por último, esta matéria da edição de abril de 2019 para a revista The New Yorker talvez seja o mais detalhado apanhado sobre o Brasil de Jair Bolsonaro publicado até agora.

E ainda sim, alguns deixaram a desejar…

Uma matéria do Washington Post, por um lado brilhante, por outro se desintegrou em uma única frase quando afirmou que “a repressão [de Witzel] ao crime pode estar dando em bons resultados. A taxa de homicídio caiu em 24% nos primeiros dois meses do ano, segundo estatísticas oficiais”. A alegação infundada (mascarada pela palavra “pode”) enfraquece o propósito geral da matéria, induzindo uma relação de causa e efeito falsa de que a política de Witzel é responsável por tais resultados e amplamente questionada por especialistas em segurança pública, tanto em âmbito federal quanto estadual (veja-o aqui, aqui, aqui, aqui e aqui).

Outras matérias continuaram glorificando a polícia e elogiando tecnologias de guerra e táticas dignas de cinema, como este artigo da CBN canadense bizarramente idólatra sobre o BOPE, no qual uma equipe de jornalistas cristãos “entrou em uma favela com [o BOPE] para uma missão de treinamento – trata-se um bairro mais seguro porque eles já o limparam. Mas você pode ver o jeito tático com que eles aprendem a se mover, porque você não sabe quem são os vilões até que eles atirem em você”.

Melhores Reportagens sobre Favelas em 2019

Felizmente, no ano passado, histórias positivas não estiveram totalmente em falta. Tampouco esteve a cobertura sobre os desdobramentos do assassinato político de Marielle Franco ou sobre a negligência em termos de serviços públicos nas favelas.

As artes

Marielle, Um Ano Depois

Políticas e Serviços Públicos para Favelas

Duas matérias, uma para o Catholic Philly e outra para a revista jesuíta America Magazine, merecem ser citadas por se debruçarem sobre a história e o papel atual da Igreja Católica no serviço às favelas. O primeiro, embora tenha um título sensacionalista —”Jesus da Favela fará parte do Carnaval do Rio de Janeiro em 2020“—oferece um olhar introdutório sobre os esforços da Escola de Samba da Mangueira para ressignificar o legado de Jesus em relação ao que é propagado pela direita cristã.

Também houve uma matéria inesperada e interessante da The Scarlet and Black de Iowa cobrindo uma colaboração entre o ativista da Maré Henrique Gomes da Silva e o professor da Universidade Grinnell Nick Barnes.

Por último, ficamos admirados com este tour gastronômico notavelmente progressista liderado pelo YouTuber Mark Wiens. Utilizando um tom que varia de genuinamente curioso (ingênuo por vezes) até sinceramente grato, Mark consegue desestigmatizar sem cair na armadilha da romantização.

Os Piores

As piores matérias sobre favelas cariocas batem sempre na mesma tecla. Ao mesmo tempo em que o RioOnWatch continua a insistir que as publicações desistam de traduções malfeitas e estigmatizantes do termo “favela”, como “slum” (que implica em bairros degradados, marginais e temporários) e “shantytown” (bairro de barracos precários), as mídias tradicional e alternativa têm teimado em não abrir mão de seus padrões estilísticos de escrita. No melhor dos casos, essas traduções fazem o leitor torcer o nariz no meio de matérias que por outro lado seriam consideradas maravilhosas. No pior dos casos, são sintomas da gritante falta de familiaridade do autor com as favelas. As seguintes matérias se encaixam nessa segunda categoria, ficando entre a desonestidade intelectual e a condescendência.

Quando um turista australiano bêbado decidiu passear no Morro do Adeus dentro do Complexo do Alemão, o Daily Mail Australia se posicionou, explicando que “uma favela é um bairro degradado [slum] ou um assentamento construído de materiais precários [shantytown] marcado pelo crime no Rio de Janeiro, onde vivem 1,5 milhões de pessoas de baixa renda. As favelas ficam nas periferias da cidade e por muito tempo têm sido dominadas por facções que traficam drogas ilegais”. O texto, repleto de fotos de festa do australiano em questão, além de alguns vídeos de roubos não relacionados com o caso, faz uma série de afirmações completamente imprecisas.

Uma favela não é um assentamento de materiais precários marcado pelo crime, já que mais de 90% das habitações são feitas de alvenaria, e muitas favelas não têm nenhuma criminalidade. Outras com criminalidade não ultrapassam 1% da população diretamente envolvida com ela. E uma rápida pesquisa no Google Maps já mostraria ao autor que muitas das favelas mais conhecidas estão concentradas no coração da cidade. Favela não é sinônimo da presença de facções e a respeito de “por muito tempo” terem sido dominadas por elas, pode-se dizer que, na verdade, os principais grupos de crime organizado do Rio começaram a consolidar seu controle nas favelas só em 1980. A primeira favela nos registros oficiais, em comparação, foi estabelecida em 1897, havendo muitas que até mesmo precedem a essa data.

Matérias de viagem tendem a apresentar uma linguagem similarmente “de safari”, como é o caso desta matéria para o The Telegraph sobre as principais atrações culturais sul-americanas acessíveis via cruzeiro. Em três frases, a resenha a respeito das favelas consegue juntar praticamente tudo o que pode haver de errado numa matéria: “Favelas são os bairros degradados [slums] ou assentamentos precários [shantytowns] do Brasil. Não são o destino mais atrativo da viagem, mas os milhões que moram nos barracos as chamam de casa. As centenas de favelas do Rio já produziram o samba e outros talentos artísticos e muitas visitas turísticas são conduzidas por guias dessas comunidades”.

Sem contar o fato de que essa resenha perde a oportunidade de conectar os leitores aos tours liderados por moradores—o parágrafo menciona uma excursão “educacional” operada pela empresa de cruzeiros à Rocinha e links para um cruzeiro de £ 2500 (R$14.000,00) para Buenos Aires—é preciso questionar o porquê do autor justapor uma fala vergonhosa sobre as moradias (“Barracos”? Ele já esteve no Rio?) com uma proposta de um tour para viajantes ricos.


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