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Ativistas e Moradores de Manguinhos Debatem Suas Lutas e Resistências na Pandemia [VÍDEO]

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Esta é a nossa mais recente matéria sobre o novo coronavírus e seus impactos sobre as favelas, e parte da nossa cobertura contínua dos eventos do Julho Negro.

No dia 28 de julho, como parte da série de eventos da 5ª edição anual do Julho Negro, moradores de Manguinhos, Zona Norte, e ativistas associados às suas lutas por um tratamento justo, participaram de um debate, transmitido ao vivo no YouTube, para apresentarem a situação dos seus trabalhos e examinarem os desafios adicionais trazidos pela pandemia da Covid-19.

O debate foi moderado por Rachel Barros, ativista do Fórum Social de Manguinhos, e Ana Paula Oliveira, cofundadora do Mães de Manguinhos. Entre os palestrantes estavam Elizabeth Silva, ativista do Espaço Casa Viva e coordenadora da Rede Centro de Cooperação e Atividades Populares (RedeCCAP); o professor de geografia Gilson Alves; a professora de sociologia e profissional de saúde Ludmila Oliveira; a bióloga e servidora pública Maria das Merces Vasconcellos; e Ítalo Matheus da Silva, ativista do Levante Popular da Juventude de Manguinhos.

Os palestrantes tocaram em tópicos que incluíam a letalidade do coronavírus nas favelas, empoderamento da juventude, educação pública e mobilização comunitária. Ao destacar o profundo impacto negativo da pandemia em moradores da favela em todas as áreas de suas lutas, Elizabeth Silva disse: “Além de escancarar as desigualdades, a pandemia aprofundou o abismo”.

Os participantes apontaram que, apesar da severidade da pandemia, nenhuma das dinâmicas que ela trouxe à tona é nova—o que fica evidente pelo fato de que a pandemia se mostrou muito mais mortal em favelas do que na cidade formal.

Elizabeth disse que a Covid-19 está revelando que pessoas da classe trabalhadora como entregadores e diaristas tiveram que continuar a viajar diariamente e a trabalhar apesar da rápida propagação do vírus. Devido ao estresse financeiro, muitos moradores das favelas nunca tiveram a oportunidade de ficar em casa e se distanciar socialmente.

Nunca foi permitido às populações vulneráveis se protegerem”, argumentou. Ela classificou a situação contemporânea como uma forma de escravidão moderna, na qual os moradores de renda baixa das favelas arriscam suas vidas para trabalhar a serviço dos brasileiros ricos, por baixas remunerações. “Para quem são os direitos?”, questionou.

Gilson Alves desenvolveu essa ideia, afirmando que a situação constitui um genocídio em que “não existe política pública, nem interesse” em proteger os moradores das favelas.

A subnotificação de casos, os participantes apontaram, é ainda outra indicação da falta de interesse do governo no bem-estar dos moradores das favelas. Ludmila Oliveira, que passou um tempo trabalhando em uma clínica de saúde durante a pandemia, antes de ser acometida pelo vírus, destacou a imensa discrepância entre as estatísticas oficiais e reais. “O que a gente observava na clínica foi totalmente diferente“, ela relatou. Além disso, ela apontou que moradores das favelas, ao usarem o sistema público de saúde, não têm acesso aos mesmos tratamentos das pessoas sob o cuidado privado.

A fim de estabelecer uma remediação de longo prazo para essa situação, os palestrantes elogiaram o engajamento comunitário como um caminho frutífero. Maria das Merces, funcionária pública que trabalha dentro de Manguinhos, reforçou a importância do ponto de vista dos moradores e enfatizou que ela estava participando do evento “para ouvir mais do que falar”.

Tem que ter uma relação dialógica“, adicionou Elizabeth Silva, apontando que “quem faz para nós, somos nós mesmos“.

O invisível para a sociedade é visível para nós que vivemos e atuamos dentro da favela“, ela disse, destacando o papel insubstituível do conhecimento local para mobilizar e solucionar problemas. Ela também elogiou as abundantes organizações comunitárias que já trabalham em Manguinhos e que dão à favela o potencial de seguir um caminho construtivo em direção a uma vida melhor para todos.

Juntamente com essas linhas de pensamento, Ítalo Matheus da Silva apontou que grupos como o Levante Popular da Juventude, com o qual ele está envolvido, “tem que fazer sua parte”. Ele disse que a grande diversidade de Manguinhos, que os participantes caracterizaram como havendo “vários Manguinhos dentro de Manguinhos”, representou uma grande oportunidade para o envolvimento positivo.

Outro importante eixo potencial de melhora comunitária que tem sido atingido pela pandemia é a educação.

O acesso à tecnologia provou ser o maior obstáculo, uma vez que muitas famílias não têm acesso suficiente a smartphones ou Wi-Fi. Os palestrantes clamaram por acesso à internet como sendo um direito no mundo digital de hoje. Além dos desafios tecnológicos fundamentais, Gilson, que trabalha no sistema público de educação, apontou que o novo formato de ensino remoto tem levado muitos alunos a perderem o interesse nos estudos.

Apesar dos desafios que a Covid-19 tem trazido às favelas do Rio, os participantes conseguiram enxergar esperança por um futuro melhor. Todos observaram os atos notáveis de solidariedade entre os moradores das favelas.

Com boa vontade, a gente pode caminhar“, disse Elizabeth. “Somos protagonistas da nossa história”.

Assista ao Debate Aqui:


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