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Conexão Saúde: Fiocruz Lança Projeto Inovador de Combate à Pandemia nas Favelas [VÍDEO]

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Esta é nossa matéria mais recente sobre o novo coronavírus e seus impactos sobre as favelas e também da série LIVES Covid-19 nas Favelas.

No dia 19 de agosto foi realizada uma live para o lançamento do Conexão Saúde*, que contou com a participação do médico, cientista e escritor Drauzio Varella; da pneumologista e pesquisadora, Margareth Dalcomo, da Fiocruz; da presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima; e do chefe de gabinete da presidência da Fiocruz, Valcler Rangel Fernandes. Estiveram presentes também alguns representantes das instituições parceiras do projeto junto à Fiocruz, sendo eles: Eduardo Pádua, membro do Comitê Gestor do Movimento União Rio; Fernando Bozza, médico e responsável pelo Dados do Bem; a médica emergencista, Adriana Mallet, fundadora da ONG Saúde, Alegria nos Sertões (SAS); a diretora da Redes da Maré, Eliana Sousa Silva; e Patrícia Evangelista, do Conselho Comunitário de Manguinhos

O encontro virtual começou com Valcler Rangel Fernandes apresentando o projeto Conexão Saúde, que atua de modo a conectar organizações, voluntários, instituições e moradores no enfrentamento da pandemia. Segundo o médico, os três objetivos do projeto são: ampliar o acesso dos moradores aos serviços de saúde; desenvolver um modelo integrado de combate à Covid-19, que contemple outros âmbitos da vida cotidiana, como ação social, educação e vigilância em saúde e; por fim, que esse modelo possa ser replicado em outras localidades. O Conexão Saúde constitui-se de seis fases por onde os moradores ou pacientes podem passar em seus atendimentos:

  1. Identificação dos sintomáticos;
  2. Testagem PCR por suave nasal, com rápida divulgação de resultados (no máximo 48 horas); 
  3. Controle e gerenciamento do contato do paciente sintomático com outras pessoas;
  4. Promoção do isolamento seguro;
  5. Monitoramento do paciente através da telemedicina articulada à Estratégia Saúde da Família; e
  6. Internação quando necessário.

O tom de boa parte da conversa foi acerca da eficácia e do sucesso de projetos que se estruturem principalmente através da articulação entre as instituições envolvidas e as lideranças comunitárias locais. Drauzio Varella inclusive citou que, através do programa Todos pela Saúde, ele e a equipe de médicos financiaram vários projetos de montagem de leitos de isolamento para pessoas infectadas em diversas cidades brasileiras. Mas, segundo ele, o projeto fracassou justamente porque não houve o contato prévio das instituições com as populações locais, como a Fiocruz mantém com a Maré e Manguinhos, por exemplo. A presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, explicitou que existem outras ações de saúde coordenadas acontecendo em outras 10 cidades.

A pneumologista e pesquisadora Margareth Dalcomo colocou em pauta a sustentabilidade pós pandemia de iniciativas como Conexão Saúde, atuando na linha de frente em relação à outras doenças e comorbidades, como a hipertensão, obesidade, diabetes, dentre outras. Isso geraria não só o atendimento àqueles pacientes que precisam, mas também a produção de mais informações sobre os moradores de favelas. Eduardo Pádua, do Movimento União Rio, ressaltou que conforme o projeto vai se estruturando e demonstrado sucesso, é possível incorporar novos elementos ao longo de sua trajetória. 

Conexão Saúde e as Lideranças Comunitárias

Os articuladores comunitários perceberam, logo no início da pandemia brasileira, que os protocolos do Ministério da Saúde para a contenção da Covid-19 encontrariam desafios dentro das favelas. Desse modo, começou uma articulação entre lideranças para pensarem na construção de campanhas de segurança alimentar, geração de renda para mulheres, comunicação das redes de saúde para os moradores, dentre outros. Eliana Sousa Silva, diretora da Redes da Maré, ressaltou a quantidade de moradores que existem no complexo—mais de 140.000 habitantes—o que gera um desafio ainda maior no atendimento a população.  

Patrícia Evangelista, representante do Conselho Comunitário de Manguinhos, elencou outras dificuldades como a deficiência de água, a falta de saneamento básico e de habitação adequada, que aumenta os riscos da população. Os moradores de Manguinhos precisaram, inclusive, acionar a Defensoria Pública para conseguirem o abastecimento por caminhões-pipa e as remoções dos corpos de pessoas falecidas de dentro das casas. Houve, além disso, o agravamento de dificuldades que a população já vivia antes, como o aumento do desemprego e a precariedade do SUS. Patrícia reiterou o que havia sido dito a respeito da integração entre lideranças comunitárias e instituições, ressaltando a importância do programa Saúde da Família trabalhando conjuntamente com o Conexão Saúde

A Telemedicina no Auxílio do Controle da Pandemia

A concentração de profissionais e serviços nas grandes capitais brasileiras não é nenhuma novidade, e no que diz respeito ao âmbito da saúde, é ainda mais complexo e desafiador. Drauzio Varella pontuou, em certo momento da live, que existem cidades onde não há médicos e nunca haverá, pois elas dispõem de nenhuma outra estrutura que valide a manutenção daquele profissional na localidade. Esse é um dos motivos que demonstra a importância da telemedicina, uma ferramenta não presencial para o atendimento no âmbito da saúde e que, por conta da pandemia, já foi incorporada em muitas localidades.

A médica Adriana Mallet, criadora e responsável pela SAS, que já conta com mais de 9.000 atendimentos, afirma que em 95% dos casos é possível resolver os problemas dos pacientes sem a necessidade de ir ao posto de saúde, local que muitos estão evitando atualmente por conta da pandemia. A iniciativa preza pelo tratamento humanizado e atencioso à população que acessa o serviço e faz isso com o auxílio dos agentes comunitários de saúde. É indispensável informar que os médicos e enfermeiros do projeto também tratam outras doenças e problemas de saúde além da Covid-19. 

Todo o atendimento da SAS, realizado pela telemedicina, é registrado em parceria com o programa do SUS, da Saúde da Família. Ou seja, o prontuário eletrônico do paciente permite acesso aos dados de saúde e histórico do SUS de cada um. Os pacientes de baixo risco são atendidos por enfermeiros e os de alto risco atendidos por médicos. Além disso, para os pacientes de Covid-19 que estão oxigenando mal, com alguma dificuldade de respirar, há a possibilidade de disponibilizar oxímetros por 4 ou 5 dias, para o auxílio no controle dos familiares ou do próprio paciente em relação à sua saúde. Esse instrumento incentiva a rapidez no atendimento presencial, caso o paciente precise de uma internação. 

Já a iniciativa Dados do Bem, idealizada por Fernando Bozza, combina a tecnologia de aplicativos com a busca pela democratização da informação das testagens, tanto para os pacientes como para médicos ou governos, além de promover a agilidade no Sistema Único de Saúde. O aplicativo do Dados do Bem pode ser baixado no aparelho celular e depois de instalado, a pessoa preenche uma  ficha com seus sintomas (ou sintomas de um familiar, amigo, etc.) e, dependendo da análise desse quadro de saúde, pode ser encaminhado para a testagem posteriormente. Fernando ressalta que nem todos serão testados, justamente pela dificuldade e escassez no acesso aos testes atualmente. 

Dificuldades da Telemedicina e Modos de Superá-las

A internet é uma grande facilitadora de muitos aspectos da vida cotidiana, mas sabe-se que nem todos têm fácil acesso à ela, principalmente em algumas localidades das favelas, as áreas de sombra, como pontuou Eliana Sousa Silva. Além disso, muitos moradores possuem aparelhos antigos e que não possuem tecnologia suficiente para suportarem aplicativos mais modernos. O questionamento acerca dessas dificuldades foi colocado numa das perguntas feitas pelo público que acompanhava a live. 

Adriana Mallet, da SAS, disse que atualmente mais de 300 voluntários e voluntárias trabalham no teste de vídeo, ou seja, explicam ao paciente como é feita a consulta e em seguida ele é levado a mais de 16 especialidades médicas. E Fernando Bozza disse que o Dados do Bem conseguiu parcerias com operadoras telefônicas para que o uso do aplicativo não consumisse dados dos pacotes da população. 

Foi ressaltada a importância das parcerias das instituições com a iniciativa privada com objetivo de democratizar cada vez mais o acesso dos moradores à saúde pública. 

Telemedicina Articulada ao SUS

Nísia Trindade, da Fiocruz, coloca que o projeto já é uma parceria da sociedade civil e setor privado para o SUS e reitera a necessidade da vigilância ativa, ou seja, uma forte articulação com a população local. Nísia também pontuou que a telemedicina não é uma iniciativa fora do SUS, mas a partir dele. Já Valcler Fernandes ressalta que a Clínica da Família e as UPAs são integradas nesse processo. Além disso, o agente comunitário de saúde é ator principal desse processo, inclusive utilizando seus celulares pessoais para fazer a comunicação dos moradores com o teleatendimento. 

O tema da volta às aulas foi comentado do final da live e foi destacada a importância que se deve dar não só aos alunos, mas também aos profissionais que trabalham nas escolas. Além disso, foi debatido o papel  indispensável das escolas, creches e demais unidades de ensino principalmente dentro das favelas.

A preocupação do projeto atualmente é o fluxo contínuo de informação e comunicação, principalmente com a população, insistindo nas ações de proteção já conhecidas (máscaras, higienização, distanciamento social, etc.), mas também orientando os moradores acerca dos diversos tipos de atendimento prestados atualmente pelo projeto e que podem salvar vidas.

Assista à Live do lançamento do projeto Conexão Saúde aqui:

*O Conexão Saúde é uma parceria da Redes da Maré, Conselho Comunitário de Manguinhos, Fiocruz, Dados do Bem, SAS e Movimento União Rio com apoio da Cruz Vermelha, Estáter Instituto, Prefeitura do Rio e Todos pela Saúde.

Amanda Scofano é mestre em Geografia, doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Geografia e Meio Ambiente da PUC-Rio, e pesquisadora com ênfase em geoprocessamento e vulnerabilidades socioambientais.


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