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Morando na Favela: Minhas Experiências no Morro do Vidigal

Quando pensei em mudar para o Vidigal, a primeira e única preocupação das poucas pessoas que acharam estranho foi: e os traficantes? Como eu sabia que nesse quesito o perigo era nulo, o morro parecia um lugar inofensivo. Mas minhas pernas descobriram, pouco a pouco, que não.

O maior desafio da favela, pra mim, foi andar rápido nas escadas, sem cair. Acumulo inúmeras cicatrizes do primeiro ano aqui. Mas entre elas, tenho algumas que viraram tatuagens afetivas. São do dia seguinte à entrada do Choque no morro, em 13 de novembro de 2011, data que considero de nascimento oficial do meu site, o Vidiga!.

Escorreguei no óleo jogado pelos traficantes para impedir (com relativo sucesso) a entrada dos blindados no morro durante a ocupação. Foram quatro dias intensos de matérias, tentando desvendar o que acontecia e o que viria após a entrada deles. Adianto, quase um ano e meio depois, que nada de significativo.

Conheci o Vidigal, por fama, em 2002, quando me perguntei de onde surgiram tantos talentos anônimos para estrelarem o filme Cidade de Deus. O mundo girou, talvez de propósito, e oito anos depois lá estava eu, assessorando os mesmos talentos, que agora se reúnem na banda Melanina Carioca.

Após alguns meses com eles, em 2011 achei que não havia outra saída, senão me juntar ao morro que era, desde muito, um dos mais criativos pólos de produção cultural do Rio de Janeiro.

Talvez tenha sido uma das únicas pessoas que não vieram para cá pela vista paradisíaca (que eu nem fazia ideia que tinha, porque só vinha de noite), ou pela proximidade com as praias da Zona Sul.

Eu só queria viver a favela, e foi o que fiz.

Viver a favela foi me mudar, poucos meses depois de chegar, de uma confortável casa na parte baixa, para uma guesthouse no topo do morro, hoje a famosíssima Alto Vidigal.

Convivia diariamente com as temíveis escadas, com os homens armados que tomavam conta do mirante do Arvrão (e que não se incomodavam nem minimamente com a presença de turistas) e, semanalmente, o baile funk no Largo do Santinho, cujo som subia.

Foi o baile funk, que teve sua última edição uma semana antes da entrada da polícia, que me ensinou parte do que eu sei de mais importante. A festa mais pacífica e diversificada em que fui na vida acontecia numa curva, numa ladeira. Era comandada por homens armados, e frequentada pelo que a classe dominante considera a escória da sociedade: pobres e favelados. Gays dançavam agarradinhos até o chão. Do outro lado, você podia comprar o que desejasse usar de drogas ilegais. Mais para cá, o mais fabuloso dos drinks que já bebi na vida.

E ninguém brigava! Ninguém dava uma marretada na cabeça do outro por discordar da opção sexual. Pensei naquelas boates de meninos ricos, que vez ou outra voltam para casa arrebentados por uma discussão a toa.

A frase de um funk embalou essa época: “é o lado certo, da vida errada”.

Com a pacificação e o trabalho intenso que tenho no meu site, passei a sentir o que os moradores sentem. A ponto de ser agredida e presa por filmar a tentativa de demolição da Quadra do Alto.

Tinha vivido no morro de forma anônima até então, e passei a me deparar com cumprimentos de estranhos, que haviam me visto algemada, por uma causa deles, na TV.

Fiquei sem dinheiro e passei a ocupar uma pequena casa, sem ar e sem vista para o famoso mar. Não sei se o dia está ensolarado, a não ser que saia e suba a escadinha para olhar o céu. Dizem que quando a gente perde um dos sentidos, apura os outros. Como uma radionovela, hoje sei de tudo o que acontece, mesmo sem ver.

Sei que parou de chover quando as vozes das crianças soam alto na rua. Se a água vai acabar, fico sabendo no dia anterior, pelo comentário de alguma dona das dezenas de casa em volta, que talvez ocupem, juntas, o espaço da que eu nasci.

Da greve de ônibus, fiquei sabendo porque o parente de alguém, motorista, recebeu ordem da própria empresa para parar. Por ali também sei quando o vizinho alcoótra deu um tempo na cachaça, e ouço os conselhos que os amigos lhe dão. Das crianças, sei os nomes e as brincadeiras favoritas. Sem olhar.

Comer no restaurante, ir ao mercado ou caminhar na rua são um expediente de trabalho. Informação na veia.

Encontro a Cícera, pergunto se já arranjou local para montar a barraca de churrasco, desalojada. Para o Fabinho, dou os parabéns por seu restaurante estar cada vez mais na mídia. Passo na Move Id para descobrir se a festa daquela noite foi mesmo embargada, e volto para casa subindo as escadas, correndo: além de descer sem cair, convenci minhas articulações de que para cima os santos ajudam também.

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