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A Energia que Vem do Lixo: Biodigestor Transforma Esgoto em Biogás no Vale Encantado [VÍDEO]

Esta vídeoreportagem faz parte de uma série sobre justiça e eficiência energética nas favelas do Rio. Ela também faz parte de uma série gerada por uma parceria, com o Digital Brazil Project do Centro Behner Stiefel de Estudos Brasileiros da Universidade Estadual de San Diego na Califórnia, para produzir matérias sobre direitos humanos e justiça socioambiental nas favelas cariocas.

A falta de saneamento básico era um problema antigo no Vale Encantado, comunidade centenária localizada no Alto da Boa Vista, Zona Norte. Sem um sistema adequado, o esgoto das casas tinha como destino fossas improvisadasum buraco aberto na terra que recebe o encanamento da residência, onde os sólidos se depositam e o líquido infiltra no soloe um canal de águas pluviais que passava pelo meio das casas. Nesse pequeno córrego, o esgoto não tratado da comunidade e de edificações acima se mistura à água limpa de nascentes, desembocando na floresta e em uma cascata próxima.   

O problema da falta de saneamento básico se tornou uma questão central para a Cooperativa Vale Encantado, criada em 2007, com objetivo de gerar emprego e renda para os moradores locais. O trabalho com turismo sustentável, oferecido pela Cooperativa, via-se ameaçado pela contaminação das águas e da floresta. Presidente da Cooperativa e da Associação de Moradores, Otávio Barros começou a pesquisar formas alternativas de tratar os resíduos e esgoto da comunidade. Essa busca resultou no primeiro biodigestor do Vale Encantado, construído em 2014, que atende o restaurante da cooperativa. 

Os biodigestores funcionam como grandes vasos, onde o material orgânico depositado é consumido por bactérias e desse processo resultam, ao menos, três subprodutos: biogás, biofertilizante e adubo. O primeiro biodigestor instalado para o restaurante da cooperativa, opera com restos de alimentos, fornecendo biogás para a cozinha da cooperativa. Já o segundo biodigestor, construído em 2015, integra um biossistema para tratamento de esgoto, formado também por uma zona de raízes de plantas. Projetado para atender todas as 28 moradias, até esse momento cinco casas do Vale Encantado foram conectadas para que seus esgotos sejam canalizados para o biodigestor, que já é capaz de produz biogás para atender às demandas de gás de uma família. 

Segundo Leonardo Adler, engenheiro ambiental que atua no projeto, para cada cinco a dez famílias conectadas ao sistema, biogás será gerado para atender uma nova casa. A partir desse cálculo, a expectativa é que com a conexão de toda a comunidade o biodigestor possa produzir biogás para até cinco (das 28) residências, ou 18% da comunidade. Já a capacidade do biodigestor da cooperativa, que opera apenas com restos de alimentos, é de, aproximadamente, 50kg de material orgânico diariamente. Para o engenheiro ambiental Tito Cals, o sistema seria capaz de receber os restos de alimentos de toda a comunidade do Vale Encantado e até de parte do Alto da Boa Vista. Se operasse em sua capacidade máxima, o equivalente a um botijão de biogás poderia ser produzido a cada dois dias. 

Nascido e criado na comunidade, Otávio diz ver o Vale Encantado como uma incubadora de ideias que nascem no próprio território e, com a ajuda de amigos e parceiros, vêm se tornando realidade. Seu sonho é ver o funcionamento dos biodigestores em sua capacidade máxima, aliado aos planos da cooperativa de geração de emprego e renda para quem vive no local, além de afirmar, cada vez mais, o Vale Encantado como uma comunidade sustentável e amiga do meio ambiente.

Assista a Vídeoreportagem por Jaqueline Suarez Acima ou Aqui.

Sobre a autora/roteirista: Jaqueline Suarez é jornalista e estudante de mestrado na UFF. É também comunicadora popular e vídeo-documentarista independente. Vive na comunidade do Fallet, em Santa Teresa, Zona Central do Rio.

Arte original por Yara Santos

Arte original por Yara Santos

Sobre a artista: Yara Santos, ilustradora, estudante de design generalista pela Universidade de São Paulo, nascida e criada na periferia da Zona Sul de São Paulo, busca representar em suas artes elementos da cultura negra e periférica na qual ela está inserida. A maior parte de sua produção se concentra em técnicas digitais.

Esta matéria faz parte de uma série sobre justiça e eficiência energética nas favelas do Rio. Para contribuir com esta pauta, clique aqui.


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