Peça ‘Constituição’ Acessibiliza Debate sobre Democracia em Japeri

Atrizes que participaram da peça Constituição. Foto: Patrick Lima
Atrizes que participaram da peça Constituição. Foto: Patrick Lima

O Grupo Código, em Japeri, recebeu a segunda leitura performativa do processo de criação do texto teatral Constituição, em 22 de outubro. O espetáculo apresenta uma disputa acerca de direitos, de forma popular, porém complexa, o que foi aplaudido pelo engajadíssimo coletivo artístico da Baixada Fluminense, que conta com 17 anos de atividade.

A história começa falando de um fazendeiro que comprou uma galinha, com pagamento parcelado. Mas o animal veio com “defeito de fábrica”: só conseguia botar ovos no terreno do vizinho, cuja família estava em situação de insegurança alimentar. Eis que surge o impasse: a quem os ovos pertencem? Ao fazendeiro que arrendou o bicho ou ao vizinho, cuja terra foi onde a galinha pôs os ovos e quem mais precisa deles, já que sua família está passando fome? Um advogado tenta mediar o conflito no espetáculo.

Em Cena, a Sociedade Brasileira

Na sede do Grupo Código, em Japeri, nove atrizes de três grupos teatrais distintos realizam uma leitura dramatizada de Constituição. Natasha Corbelino, Carolina Godinho, Leona Kali, Carol França, Nil Mendonça, Débora Crusy, Emili Lemos, Marilene Oliveira e Adrielle Vieira são integrantes dos coletivos: Que Boca na Cena?, coletivo que envolve psicanálise, política e arte, em parceria com Psicanalistas Unidos pela Democracia (PUD); Coletivona, grupo artístico de mulheres que se reúnem no Complexo da Maré; e Grupo Código, de Japeri, na Baixada Fluminense.

Comemoração de aniversário do Grupo Código. Foto: Fabio Leon
Comemoração de aniversário do Grupo Código. Foto: Fabio Leon

Natasha abriu o espetáculo, a única cuja performance literária é interpretada ao invés de lida dramaticamente. Ela fez o papel da galinha. Inicia-se por uma descrição do cenário em que a história acontece, e, sobretudo, da cerca que divide os terrenos, que supostamente ofereceria segurança, mas que não impede os conflitos. Para o público, uma grande roda com cadeiras é disponibilizada, misturando os espectadores e a leitura dramatizada.

“Uma parte da terra passa a se chamar terreno quando nela se finca uma cerca. Ou então muros, câmeras, drones, portarias… As cercas foram postas pelo homem para impor limites na terra, escondendo, assim que é a terra que impõe limites ao homem”, declamou Natasha no papel de galinha.

Em seguida, o texto é lido de forma intercalada por cada uma das atrizes. De acordo com o texto, a galinha é um investimento, um projeto de autonomia econômica. Afinal de contas, tem “ótima cotação no mercado, pois bota mais de um ovo por dia”.

Entretanto, passam-se os dias e nada de ovos. Então, o dono percebe que os ovos estão sendo depositados no terreno vizinho, de uma família massacrada pela alta dos preços e que vê nos ovos uma alternativa para não morrer de fome. O dono da galinha apresenta uma série de justificativas legais para justificar que os ovos sejam seus. Mas o que seria mais justo nesse impasse?

Constituição É Crítica Social

Idealizado pela atriz Natasha Corbelino e escrito pela dramaturga Cecília Ripoll, Constituição é uma crítica à sociedade e a seu modelo econômico. Sobretudo, ao estado de coisas que desafia a concretização do que está previsto na Constituição da República Federativa do Brasil, como o direito à alimentação, evidenciando a falácia da suposta solução pela “liberdade econômica”.

Ao idealizar a constituição federal como tema, num país em que muitas pessoas não gostam de falar sobre política, as criadoras pensaram nos desafios de receptividade da história. Natasha contou à reportagem sobre o desafio de engajar o público com o enredo da peça nesse tempo de extremos:

“É tentar promover uma espécie de encantamento com a coisa política, que ao mesmo tempo causa repulsa. Acho que falar da constituição é justamente ter um desejo dessa palavra. O desafio é fazer com que essa palavra [constituição] traga encantamento para o dia a dia, para a conversa de bar.”

A atriz destacou que outro desafio enfrentado é falar sobre direitos e garantias asseguradas na constituição para a população negra, pobre e periférica, além da falta de informação. A atriz observou que essa população interage de maneira única com o espetáculo. E concluiu:

“Como falar de direitos para uma população que está sendo exterminada pelo Estado e impedida de alcançar os direitos mínimos? As falas [da plateia] foram impressionantes por justamente esses direitos serem negados a essa população. Então, são esses corpos que têm lugar de fala e de escuta [aqui]: corpos em que a constituição não incide.”

Da esquerda para a direita Carol França, Natasha Corbelino e Cecília Ripoll. Foto: Fabio Leon
Da esquerda para a direita: Carol França, Natasha Corbelino e Cecília Ripoll. Foto: Fabio Leon

“Temos um ‘microempreendedor de uma galinha só’, que encarna essa demanda de gerir seu próprio negócio e o quanto essa mentalidade pode ser muito cruel. Isso pode dar a ilusão de que podemos ter muitas ferramentas para vencer no sistema econômico. A intenção da peça é revelar essa farsa”, explicou Cecília, à autora do texto.

A Inspiração da Peça Constituição

Em abril de 2016, quando houve a votação, no Congresso Nacional, pelo impeachment da então presidenta Dilma Rousseff, Natasha assistiu tudo, talvez como milhões de brasileiros, atordoada. “Ali começou a perda de nossos direitos mais evidentes”, diz. “Sempre sob o lema: por Deus, pátria e família e contra a corrupção”.

A partir desse quadro, a atriz decidiu ser importante desenvolver projetos que tivessem como objetivo levar a constituição ao povo, sob as mais variadas formas artísticas. “Ela não pode ser uma leitura hermética, temos que falar sobre ela com propriedade todos os dias e não apenas em momentos de crise”, disse Natasha. Ações, performances e intervenções urbanas foram usadas desde então como meio de difundir a constituição.

Roda de conversa após a encenação da peça. Foto: Fabio Leon
Roda de conversa após a encenação da peça. Foto: Fabio Leon

Mas e a galinha? Como ela se encaixa nesse contexto? A dramaturga Cecília Ripoll, autora do texto, diz que as vontades da ave, como por exemplo colocar ovo no terreno do vizinho, podem ser interpretadas como uma metáfora para o processo de escrita da constituição cidadã. Seria, mais especificamente, uma alusão ao Movimento Constituinte, organizado um ano antes da promulgação da constituição, em 1988, quando numerosos debates se espalharam pelo país, com a função de realizar a participação popular no processo. Nesse processo, comitês e plenários, de forma pluripartidária, foram organizados.

“Acho, que nesse caso, pode-se afirmar que, da mesma forma que o povo brasileiro buscava autonomia e representatividade através de suas próprias leis, a galinha é o reflexo dos anseios de uma grande parcela da sociedade brasileira que queria ter o poder de decisão sobre seus próprios destinos”, explicou a autora.

Ao longo da Constituinte foram enviadas 122 emendas populares, contabilizando 15 milhões de assinaturas. Os dois maiores movimentos foram o Movimento Nacional pela Participação Popular na Constituinte e Plenário Pró-Participação Popular na Constituinte. Este tinha como lema uma frase emblemática, que marcou o momento: “Constituinte sem povo não cria nada de novo”. 

Matéria escrita por Fabio Leon e produzida em parceria entre RioOnWatch e o Fórum Grita Baixada. Fabio é jornalista e ativista de direitos humanos e assessor de comunicação no Fórum Grita Baixada. O Fórum Grita Baixada é uma coalização de organizações e pessoas da sociedade civil articuladas em prol de iniciativas voltadas aos direitos humanos e à segurança pública, tendo na Baixada Fluminense seu olhar e seu território de ação.


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