As Comunidades do Rio Tejipió no Recife Exigem Respeito e Resposta

Por um Recife mais justo!

Moradores próximos ao Rio Tejipió, em Recife, vivem uma dura realidade do descaso de programas não concluídos. Créditos: Arnaldo Sete/Marco Zero Conteúdo e Diário de Pernambuco. Montagem: RioOnWatch
Moradores próximos ao Rio Tejipió, em Recife, vivem uma dura realidade do descaso de programas não concluídos. Créditos: Arnaldo Sete/Marco Zero Conteúdo e Diário de Pernambuco. Montagem: RioOnWatch

Moradoras e moradores das margens do Rio Tejipió cobram transparência no programa ProMorar e exigem que os R$2 bilhões investidos se traduzam em soluções definitivas, moradia digna e participação popular.

As chuvas de 2022 deixaram marcas profundas no Recife. Diante da urgência de evitar novas tragédias, a Prefeitura aprovou junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) o projeto ProMorar, com um aporte de R$2 bilhões voltado para a resiliência urbana na Bacia do Rio Tejipió.

O plano prometia soluções modernas baseadas na natureza, parques alagáveis, regularização fundiária e a garantia de que as famílias não precisariam deixar seus bairros. No entanto, o que a população das comunidades do Ipsep, Jardim Uchôa, Caçote, Sapo Nu e Coqueiral têm vivenciado na prática é bem diferente das promessas no papel.

Em depoimento, Seu Jailton, morador e comerciante de Jardim Uchôa, no bairro de Areias, Recife, compartilha a sensação de desamparo e preocupação:

Uma outra moradora conta que a água chega a invadir as casas de 15 em 15 dias:

No dia 25 de julho de 2026, moradoras e moradores dessas comunidades, com apoio de lideranças comunitárias, do Fórum Popular do Rio Tejipió (FORTE), Centro Dom Helder Camara de Estudos e Ação Social (CENDHEC), Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH/PE), entre outras, ergueram a voz através de uma carta denúncia para solicitar repostas ao descumprimento das salvaguardas sociais e exigirem transparência em ato no Marco Zero, centro do Recife.

Trecho da Carta Denúncia de Moradores residentes próximos ao Rio Tejipió.
Trecho da Carta Denúncia de Moradores residentes próximos ao Rio Tejipió.

As diretrizes originais pactuadas com o BID estabeleciam critérios claros: transparência, prioridade na permanência das famílias no território, fortalecimento político das mulheres e mitigação de impactos socioambientais.

Mas o cotidiano de quem mora às margens do Rio Tejipió ainda é marcado pelo abandono:

  • Alagamentos Constantes e Insegurança: Os alagamentos continuam sendo uma constante. Além das perdas materiais recorrentes, famílias convivem com a invasão de água poluída e o risco diário de animais, como ratos, cobras e jacarés, dentro de casa.
  • Falta de Diálogo e de Transparência: Não há informações claras e antecipadas sobre quais moradias serão impactadas nem sobre os planos de regularização fundiária. O escritório social do programa não tem funcionado como um canal efetivo de escuta e de apresentação de informações completas e acessíveis.
  • Ações Superficiais de Gênero: Embora as diretrizes do BID destaquem o protagonismo e o empoderamento feminino, as iniciativas oferecidas às moradoras foram reduzidas a oficinas de estética e autocuidado, ignorando a autonomia política e econômica das mulheres da comunidade.
  • Silêncio Sobre Propostas Comunitárias: Uma rede de organizações técnicas e comunitárias elaborou o Projeto Comunitário de Habitação de Interesse Social, oferecendo uma alternativa viável e dentro do orçamento para garantir moradia digna na própria região. Apresentado à coordenação do ProMorar, o projeto continua sem qualquer resposta.

O ato público do Movimento Gota D’água deixa claro que a população não quer barrar o desenvolvimento, mas sim garantir que ele aconteça com e para as pessoas. 

As principais reivindicações do movimento incluem:

  1. Garantia de Moradia Digna no Território: Adoção real de modalidades como compra assistida, permuta e habitação de interesse social via projeto apresentado pela rede, evitando o deslocamento forçado para áreas distantes.
  2. Reassentamento com Dignidade: Remoções só devem ocorrer para unidades habitacionais definitivas, prontas para morar e em condições adequadas.
  3. Indenização Justa e Regularização Fundiária: Cumprimento do compromisso de indenização não inferior a R$ 85 mil para quem optar por essa modalidade, além da entrega de títulos de propriedade via REURB para quem estiver em áreas seguras.
  4. Obras Efetivas contra Alagamentos: Soluções estruturantes definitivas que impeçam a água de invadir as casas.
  5. Participação Real e Transparência: Escuta ativa da população, especialmente das mulheres, na tomada de decisões e veto a qualquer remoção sem consulta prévia.

A mensagem do Movimento Gota D’água é direta aos gestores e órgãos reguladores: as comunidades da Bacia do Rio Tejipió não aceitarão continuar invisíveis. 

Desenvolvimento urbano de verdade só existe quando respeita a história, o direito à moradia e a dignidade das pessoas que constroem a cidade diariamente.

Sobre os autores: Pastor Geazi e Pastor Marcos são missionários cristãos, membros dos projetos Instituto Transformar e Instituto Solidare respectivamente; Luís Emmanuel é advogado popular e coordenador do programa direito à cidade do CENDHEC. Géssica Dias é assistente social, Mestra em Desenvolvimento Urbano pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e a atua com articulação socioambiental urbana.


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