Uma Breve História dos 40 Anos de Fracassos na Segurança Pública do Estado do Rio Desde a Redemocratização, Parte 2: Velhas Políticas Que Não Garantem Soluções [2007-2026]

De 2007 a 2026, os governadores do estado do Rio de Janeiro foram Sérgio Cabral, Luiz Fernando Pezão, Wilson Witzel, Cláudio Castro e Ricardo Couto.
De 2007 a 2026, os governadores do estado do Rio de Janeiro foram Sérgio Cabral, Luiz Fernando Pezão, Wilson Witzel, Cláudio Castro e Ricardo Couto.

Esta matéria faz parte de uma série sobre as eleições de 2026, com enfoque nas perspectivas das favelas do Grande Rio. É a segunda parte de uma matéria de duas partes sobre a história dos fracassos na segurança pública do Rio de Janeiro desde a redemocratização. Leia a parte 1, cobrindo 1983-2006, aqui.

Na primeira parte da matéria, foram tratados os governos de 1982 a 2006, com foco no período da redemocratização, pós-1985, cobrindo de Brizola a Rosinha Garotinho. Agora, nesta segunda parte, serão abordados os fracassos dos últimos 20 anos de políticas de segurança dos governos estaduais, de 2007 a 2026, de Sérgio Cabral a Ricardo Couto.

Sérgio Cabral (2007-2014)

Governador Sérgio Cabral. Foto: Governo do Estado do Rio de Janeiro
Governador Sérgio Cabral. Foto: Governo do Estado do Rio de Janeiro

Sérgio Cabral assumiu o governo do Estado do Rio de Janeiro em 2007 propondo instaurar uma reforma da Polícia Militar do Rio de Janeiro com a inauguração das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), em teoria, uma polícia comunitária permanente nas favelas. Sua proposta era retirar grupos armados de determinadas favelas, instalar uma presença policial permanente e, em seguida, aproximar os serviços públicos e as políticas sociais dessas áreas.

Pareceu funcionar inicialmente. A principal estatística que apresentou redução associada à implantação das UPPs foi a de homicídios. Por outro lado, houve denúncias de diversos tipos de abusos, inclusive, com relação à cultura das favelas, com a Resolução 013, e pior: torturas, execuções extrajudiciais, militarização do cotidiano das favelas e críticas à seletividade territorial da política de segurança.

O programa das UPPs previa uma segunda etapa, a UPP Social, que iria dotar as favelas de serviços públicos de qualidade, o que nunca aconteceu. Contudo, as UPPs nunca passaram da fase inicial, com tímidas iniciativas isoladas. E, pós-olimpíadas, o programa já havia falido.

Uma das violações mais marcantes deste período aconteceu em 2013, com a tortura e morte de Amarildo Dias de Souza. Morador da Rocinha, o pedreiro foi detido por policiais da UPP e desapareceu. O corpo de Amarildo nunca foi encontrado. Os fatos ocorreram na frente de boa parte da tropa, inclusive, do comandante da unidade, Major Edson Santos. Outros policiais, que não estavam na cena, ouviram os gritos de Amarildo durante a tortura. Nas ruas, os protestos de 2013 exigiam saber: “Cabral, bandido, cadê o Amarildo?“. 15 policiais foram denunciados e 12 foram condenados pelo crime.

Outros programas colaterais do governo Cabral foram: em 2014, as Companhias Destacadas em Niterói e na Praça Seca, para garantir policiamento de proximidade e ostensivo em áreas sensíveis; o programa Segurança Presente foi criado em janeiro de 2014, estreando inicialmente como a Operação Lapa Presente na região central da capital; e, em 2015, a Companhia Integrada de Polícia de Proximidade (CIPP), apelidada de UPP do asfalto, que tinha como objetivo levar policiamento de proximidade e prevenção de crimes para as ruas de bairros comerciais e residenciais.

Em suma, em todo o Rio, Sérgio Cabral investiu na militarização e no enfrentamento. Policiais mataram 1.330 pessoas em 2007. Homens das Forças Armadas foram disponibilizados também pelo Presidente Lula e, posteriormente, pela Presidenta Dilma. Militares foram acionados no Rio em oito ocasiões, entre 2008 e 2015. Em uma delas, o Complexo da Maré ficou ocupado pelo Exército. Um período tenebroso para a vida mareense, que só terminou em 2015, já no governo do sucessor de Cabral, seu vice, Luiz Fernando Pezão.

Luiz Fernando Pezão (2014-2018)

Governador Luiz Fernando Pezão. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Governador Luiz Fernando Pezão. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Em 2014, o novo Governador Luiz Fernando Pezão, disse que não faltaria dinheiro para segurança pública. Mas, sem recursos, teve que recorrer ao Palácio do Planalto. O presidente Michel Temer assinou mais um decreto de intervenção no Rio de Janeiro.

Com a intervenção federal em 2018, o General Walter Braga Netto passou a exercer o controle operacional das polícias estaduais, enquanto as Forças Armadas participaram de diversas operações, inclusive em favelas. A justificativa oficial era o comprometimento da ordem pública diante do agravamento da violência e da incapacidade do governo estadual de responder adequadamente à crise.

Em 2018, Pezão começou a desmobilizar parcialmente as UPPs. O gabinete da intervenção sinalizou a intenção de realocar os policiais das UPPs em companhias destacadas, vinculadas aos batalhões locais, para cobrir as mesmas áreas. Acabava assim a tentativa de um policiamento de proximidade, com bases instaladas nas favelas, e retornava-se ao antigo modelo de incursões pontuais, com tropas saindo e voltando para batalhões e delegacias.

Em fevereiro de 2019, começou a tramitar na Alerj um projeto de lei que determinava a extinção completa das UPPs, que não avançou. Nos anos seguintes, o que restou do programa UPP foi desmontado pouco a pouco.

Em 29 de novembro de 2018, Pezão foi preso preventivamente, por decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), no âmbito da Operação Lava Jato. Foi o primeiro governador fluminense preso durante o exercício do mandato. O vice-governador Francisco Dornelles assumiu interinamente, por cerca de um mês, o Palácio Guanabara, até que um novo governador, eleito pelo povo, assumisse.

Wilson Witzel (2019-2020)

Governador Wilson Witzel. Foto Governo do Estado do Rio de Janeiro
Governador Wilson Witzel. Foto Governo do Estado do Rio de Janeiro

Nas eleições de 2018, um candidato a governador do Rio de Janeiro fez, assim como Moreira Franco em 1986, uma promessa de campanha ousada e polêmica. Wilson Witzel, juiz federal, até então desconhecido dos eleitores, prometeu acabar de vez com a violência, eliminando criminosos: “a polícia vai mirar na cabecinha e… fogo”. Witzel foi eleito no segundo turno das eleições, derrotando Eduardo Paes.

O governador, além de autorizar o assassinato de suspeitos, extinguiu a Secretaria de Segurança Pública, separando-a em duas pastas, Secretaria de Polícia Civil e Secretaria de Polícia Militar, o que foi alvo de muitas críticas de especialistas por dificultar ações integradas (desde o planejamento de operações, até o compartilhamento de dados de inteligência) e estimular rixas entre as duas forças policiais.

A alta letalidade policial fez com que os índices de mortes atingissem níveis recordes. Assim sendo, os movimentos de favela e de defesa dos direitos humanos foram ao Supremo Tribunal Federal (STF), que impôs restrições a operações em favelas durante a pandemia: a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF 594), mais conhecida como ADPF das Favelas.

Em agosto de 2020, Witzel foi afastado do cargo pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) por 180 dias sob acusação de chefiar esquema de corrupção na saúde durante a pandemia. E, em abril de 2021, sofreu o impeachment pela Alerj e perdeu seu mandato.

Cláudio Castro (2020-2026)

Governador Cláudio Castro. Foto: Governo do Estado do Rio de Janeiro
Governador Cláudio Castro. Foto: Governo do Estado do Rio de Janeiro

Assim sendo, o vice-governador Cláudio Castro assumiu o governo mantendo a política de segurança de Wilson Witzel em 2020. Em 2021, no início de sua gestão, ocorreu a Chacina do Jacarezinho, que deixou 28 pessoas mortas. Perto do final de seu mandato, em novembro de 2025, presidiu a operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro, deixando 121 mortos, desta vez na Chacina do Alemão e da Penha.

Essas operações foram duramente criticadas por especialistas que apontaram a falta de planejamento, o enfraquecimento das estruturas de fiscalização e a falta de inteligência efetiva.

Em janeiro de 2022, Castro inaugurou sua única política de segurança pública: Cidade Integrada. O programa repercutiu mal na mídia tradicional, que apelidou a ação de Castro de Nova UPP e UPP 2.0, pois é a velha criminalização da pobreza, dos territórios e dos moradores. Nada inovador, o programa não conquistou resultados expressivos.

Mesmo com o desastre na segurança pública, Castro foi reeleito em 2022. Em 2023, recriou a Secretaria de Segurança Pública. Em 2025, promoveu um programa chamado Barricada Zero, que consistia em grandes operações midiáticas para retirar barricadas instaladas pelas facções do tráfico de drogas nas favelas para impedir a entrada de viaturas e blindados das polícias. No entanto, é um programa bastante ineficiente, pois as facções reconstroem as barricadas assim que a polícia sai das favelas.

Em novembro de 2023, o governo federal determinou uma operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) para o emprego das Forças Armadas nos portos e aeroportos do estado até maio de 2024. O objetivo foi intensificar o combate ao tráfico de armas e drogas.

Outro momento emblemático da relação de Castro com o governo federal aconteceu em 2023, quando o ministro Flávio Dino do STF abriu inquérito na Polícia Federal para investigar o assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. A Polícia Civil fluminense estava sem avançar com relação a esclarecer Quem Mandou Matar Marielle? e as razões para o crime desde 2018. Com isso, a PF conseguiu em questão de meses revelar os mandantesos motivos, além de comprovar a cooperação de agentes do Estado do Rio em todas as fases do crime: desde o planejamento e a execução, até o acobertar e a obstrução das investigações.

Frente ao fracasso na segurança pública e às múltiplas investigações, Castro renunciou ao governo em abril de 2026. Logo em seguida, teve seu mandato cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e foi declarado inelegível. Com isso, suas aspirações de concorrer ao Senado em 2026 foram interrompidas.

Ficou conhecido como o Governador das Chacinas, deixando um legado de desorganização administrativa, falta de política pública de segurança consistente e corrupção generalizada.

Ricardo Couto (2026)

Governador Ricardo Couto. Foto: Brunno Dantas/TJ-RJ
Governador Ricardo Couto. Foto: Brunno Dantas/TJ-RJ

Com a cassação e renúncia de Cláudio Castro, que não tinha vice, e com o presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, preso por exercer a liderança do núcleo político do Comando Vermelho (CV), o presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ), Desembargador Ricardo Couto, tomou posse interinamente do governo do estado.

Isso aconteceria de maneira temporária até a eleição indireta de um novo governador entre os deputados estaduais para cumprir um mandato-tampão até janeiro de 2027. No entanto, com a descoberta da infiltração de facções criminosas na alta cúpula da Alerj, uma eleição indireta colocaria em risco o Governo do Estado. Assim sendo, o STF decidiu não decidir, ou seja, não julgou como seria a eleição-tampão e, por isso, a interinidade foi alargada até as eleições de 2026.

A gestão de Ricardo Couto tem procurado reforçar as estruturas policiais e de inteligência, fazer auditorias e integrar-se com outras forças de segurança.

O que esperar do novo governador que será eleito nas eleições de 2026? Uma ruptura com essa tradição de 40 anos, ou medidas estruturais que de fato mirem as bases dos processos sociais que causam altos índices de criminalidade?

Sobre os autores:

Carla Regina Aguiar dos Santos é jornalista comunitária, cria do Morro do Turano, que sempre prioriza o cotidiano das favelas em seu trabalho, mostrando além do que se vê nas mídias tradicionais. Já contribuiu para a Agência de Notícias das Favelas (ANF), A Pública, Portal Eu, Rio! e Terra. Recebeu os prêmios ANF de Jornalismo, na categoria cultura, e o Neuza Maria de Jornalismo.

Julio Santos Filho é editor do RioOnWatch desde 2000. Bacharel em Relações Internacionais (UFF) e mestre em Sociologia (IESP-UERJ), em 2021, editou a série premiada ‘Enraizando o Antirracismo nas Favelas’, projeto medalha de prata no The Anthem Awards na categoria Diversidade, Equidade e Inclusão, como Melhor Programa de Conscientização Local, e ganhador do Prêmio Megafone Ativismo de melhor Reportagem de Mídia Independente e de duas moções de louvor e reconhecimento da Comissão Especial de Combate ao Racismo da Câmara Municipal do Rio de Janeiro.


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