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Promessas Para Educação Tecnológica na Maré São Esquecidas Pela Prefeitura

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Em meio ao olhar social da Prefeitura e do Governo do Rio de Janeiro para a Maré, muitos projetos foram prometidos. As autoridades passaram a atuar socialmente dentro de comunidades pacificadas quando perceberam a insuficiência e incapacidade de melhora militarizando favelas, apesar do gasto de quase R$2 milhões por dia, no processo de instalação da UPP na Maré. Questões como saneamento básico, saúde, mobilidade e educação infantil e digital foram escolhidas para novos investimentos em todo o conjunto de favelas que apresenta um dos mais baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) da cidade.

Moradores da Rua Bento Ribeiro Dantas, uma das 16 favelas da Maré localizada próxima a Linha Amarela, aguardam a Nave do Conhecimento, projeto que seria inaugurado em dezembro de 2014 pela Prefeitura do Rio. No município, cinco favelas já são beneficiadas, como o Complexo do Alemão, também na Zona Norte.

A Nave do Conhecimento oferece cursos voltados para informática, cultura e tecnologia. Segundo o site do programa, todas as ações desenvolvidas têm como enfoque o olhar para a realidade, o pensar e o agir crítico, a promoção e valorização do ser humano e do território urbano das comunidades.

Gabriel trabalhando na Nave de Conhecimento em Nova Brasília. Foto: Josiane Santana

Gabriel Loiola, de 21 anos, morador e recepcionista da Nave da Nova Brasília afirma que a formação adquirida pelos alunos através dos cursos possibilita a profissionalização e, principalmente, o conhecimento para o cotidiano da favela. “O curso de fotografia é muito procurado pelos jovens. E com isso, eles não ganham só o conhecimento técnico. Afinal, saber fotografar é importante pra gente registrar a nossa história”, afirma Gabriel.

O Parque Linear da Maré, destinado para a construção da instituição de tecnologia, é conhecido pelos moradores como Ciclovia do Pinheiro. Além do espaço para andar de bicicleta, há uma quadra de futebol e brinquedos infantis. Os moradores frequentam dia e noite e nem uma placa indica que ali sofrerá mudanças. Comerciantes locais também não sabiam desta novidade. “O que sei é que temos no final de semana o parque de diversões. Vai ficar por um mês”, informou um morador. Já a ciclista Viviane Oliveira, 32 anos, utitiza a ciclovia as vezes, quando sua filha pede. “É um espaço de lazer importante, mas as autoridades e até mesmo os moradores não respeitam. Já cansei de andar por lá e passar morador de moto pela ciclovia. Sem falar nos brinquedos quebrados e nos estacionamentos. Os espaços de lazer que já são poucos se tornarão menores.” Parte da Ciclovia está sendo utilizada para a construção da segunda Clínica da Família, conclusão prevista para dezembro deste ano. A Vila do Pinheiro conta com 2.300 domicílios e cerca de 16 mil pessoas.

Aulas de fotografia são as mais procuradas por jovens no Complexo do Alemão. Foto: Thaís Cavalcante

A integração de programas é pensada no combate à desigualdade do analfabetismo digital. Todas ações promovidas são gratuitas e abertas a públicos de todas as idades. Promovem o acesso ao lazer, entretenimento, arte e novas mídias digitais. Segundo dados do Censo de 2010, a taxa de analfabetismo na Maré entre jovens de 10 a 14 anos é cerca de 5%, bem maior que a taxa do município. Moradora Lídia Félix, de 24 anos, acredita que muitas promessas são ligadas a ideia de “resgatar a cidadania” local, um discurso das mídias comerciais após a entrada das forças armadas na favela. E complementa “Mas já que prometeu, tem que cumprir. Nós moradores temos que exigir isso. Não penso só na minha sobrinha, mas em todas as crianças da Maré”, conclui.

Outra iniciativa implantada para auxiliar na educação tecnológica de crianças, jovens e adultos é o Projeto Casa Rio Digital, localizado na rua principal da comunidade. Nela, alguns pontos são trabalhados, como a democratização, integração, diversidade e o trabalho em rede. Porém, a divulgação do projeto não alcança boa parte da população.

Enquanto os moradores aguardam a realização dessa promessa e de algumas outras, a Prefeitura acredita no esquecimento de seus discursos. Leonardo Nóbrega, 20 anos, morador do Parque União, não frequenta o espaço mas acha desonesto os atrasos cometidos “Isso acontece porque eles não têm a real intenção de servir a população. E como possuem a força, fazem o que bem entendem. A partir do momento que se vive numa zona de guerra, como a população pode sentir-se no direito de cobrar?”, questiona.

A Secretaria Especial de Ciência e Tecnologia (SECT) e Secretaria Municipal de Habitação (SMH) responsável pela construção da Nave do Conhecimento na Maré, foram procuradas mas não se pronunciaram sobre o assunto.

*A correspondente comunitária Thaís Cavalcante tem 21 anos, e foi nascida e criada na Nova Holanda, uma das favelas da Maré. Ao atuar como comunicadora comunitária há 4 anos em sua comunidade, decidiu cursar jornalismo na universidade e acredita no poder da informação para mudar para melhor sua realidade.