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Visão de uma Comunicadora Popular da Maré: A Força do Jornalismo Comunitário

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Esta matéria de Thaís Cavalcante,* comunicadora comunitária da Maré, é uma de duas contribuições do RioOnWatch ao debate mundial acontecendo hoje, Blog Action Day 2015, Dia Global de Ação dos Blogueiros, cujo tema de reflexão para 2015 é: Erga a sua Voz. Leia ambas as matérias aqui.

Jovens comunicadores de favelas vivem em seu cotidiano a dor e a alegria de noticiar sua realidade, trazendo à luz uma mídia que deixou de ser mais uma necessidade e se tornou uma realidade nos territórios das favelas, expondo a vivência real e colocando o morador como personagem principal. Alguns chamam de jornalismo comunitário, alternativo ou popular. Outros só entendem o termo quando já estão envolvidos.

A cobertura de assuntos é feita de maneira cuidadosa, quando se observa criticamente e entende o que acontece. Com um caderno, caneta e celular, nossos pés percorrem becos em busca de notícia, novidade ou eventos culturais. Nosso lado é o dos direitos humanos. Nós lutamos pela vida.

A partir do conhecimento local e do trabalho de base, nos cercamos de esperanças, no lugar de nos conformar com dificuldades. Elas são um duro estímulo para questionar: se não fizermos essa comunicação, quem vai fazer? De que maneira nós, moradores, podemos mudar nossa realidade através de palavras?

Curso de comunicação comunitária, na Maré, do Jornal O Cidadão

Com inúmeras violações de direitos que acontecem dentro de nossas favelas, nós fazemos intervençãoquestionamento, e denúncia. A matéria Cracolândia na Maré: Poder Público Ausente Há Três Anos–publicada no RioOnWatch–por exemplo, apresentou o problema que existe há anos e cobrou soluções. Os usuários de drogas que vivem nesse ambiente não recebem nenhum auxílio para sua recuperação. A importância desse e de outros assuntos se dá também por sua gravidade. É natural o interesse do comunicador comunitário em expor situações tão impactantes na vida de sua favela, como é o caso dessa cracolândia.

A visibilidade e comoção local geram impacto. Na comunidade, passar por processos como esse afirma o morador como apoiador e divulgador da notícia. Já quando mídias internacionais apoiam a comunicação comunitária, a exposição do problema é máximo e sua solução facilitada.

Como o caso da matéria Maré Reclama por Saneamento Básico–publicada no Viva Favela–que expôs a realidade da comunidade, contrariando as afirmações da Prefeitura do Rio, na sua propaganda, sobre o novo sistema de coleta. A publicação desta matéria resultou na mobilização da Comlurb para um trabalho mais intenso nos lugares mais precários.

“A visibilidade e comoção local geram impacto. Na comunidade [tornar visível os pontos de vista de moradores] afirma o morador como apoiador e divulgador da notícia. Já quando mídias internacionais apoiam a comunicação comunitária, a exposição do problema é máximo e sua solução facilitada.”

Entrevista com o representante da Comlurb na Maré

Graças ao olhar mundial para a Maré por causa da ocupação militar, diversas promessas foram feitas pelas autoridades. Sendo assim, a Nave do Conhecimento também mereceu atenção. No entanto, sem a cobrança dos moradores por desconhecerem a promessa divulgada no site institucional da Prefeitura, a reclamação pela ausência da construção do espaço educativo de ciência e tecnologia só aconteceu por meio de uma matéria de jornalismo comunitário, sendo capaz de conscientizar no território, abrir muitas mentes e ser mais potente por advir da própria comunidade.

O objetivo de comunicar situações publicamente é desconstruir estereótipos, dar voz aos moradores da comunidade e falar da visão de dentro, para aqueles que desconhecem. Esse trabalho é pequeno, tem necessidades e depende da vontade e fé de que mudanças irão ocorrer seja coletivamente ou na formação pessoal, intelectual, moral ou social dos indivíduos. Informar pessoas dessa maneira é a única alternativa que jornalistas das camadas populares têm para ter liberdade nas pautas escolhidas e não confundir sua ideologia com a de grandes empresas.

Na prática, as autoridades não têm preocupações com o impacto direto dessas matérias. Mas os veículos alternativos que apoiam esse ato contribuem para que a sociedade desconstrua suas certezas e pense para além do senso comum. O Estatuto da Juventude apoia tudo isso. Ele afirma o direito dos jovens de se informarem e de se expressarem, além de definir medidas para que nossos pontos de vista sejam transmitidos.

“O objetivo de comunicar situações publicamente é desconstruir estereótipos, dar voz aos moradores da comunidade e falar da visão de dentro, para aqueles que desconhecem…Na prática, as autoridades não têm preocupações com o impacto direto dessas matérias. Mas os veículos alternativos que apoiam esse ato contribuem para que a sociedade desconstrua suas certezas e pense para além do senso comum.”

O jovem da favela não vai se calar enquanto houver meios de erguer sua voz e resistir perante a um Estado que oprime o favelado. Matérias publicadas são apenas uma parte do processo da caminhada, na luta por direitos e pela vida. Sabemos que vale a pena resistir!

*A correspondente comunitária Thaís Cavalcante tem 21 anos, e foi nascida e criada na Nova Holanda, uma das favelas da Maré. Ao atuar como comunicadora comunitária há 4 anos em sua comunidade, decidiu cursar jornalismo na universidade e acredita no poder da informação para mudar para melhor sua realidade.