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Liderança do Quilombo das Guerreiras Compartilha Memórias de Ocupação, Luta e Resistência

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A ocupação Quilombo das Guerreiras é um símbolo de resistência e organização comunitária. De 2006 a 2013 mais de cem famílias ocuparam e construíram uma comunidade em um armazém abandonado na região do Porto do Rio. Além de fornecer moradia, a ocupação havia desenvolvido uma forma de vida coletiva realizando atividades, incluindo aulas de alfabetização, jardinagem urbana agroecológica, exibição de filmes e passeios.

Os ocupantes se uniram a vários movimentos sociais para lutar pelo direito à moradia e resistir à remoção, montando uma campanha de resistência exemplar. No entanto, houve muita pressão para expulsar os ocupantes ali instalados já que a região recebeu investimentos de alta visibilidade como parte do programa de revitalização da região portuária, o Porto Maravilha. O edifício do Quilombo das Guerreiras foi então expropriado pelo governo federal no final de 2013.

O RioOnWatch se encontrou com Maria Ivanilde Moraes, uma das líderanças da ocupação, para ouvir sua história de resistência e luta como parte de uma das ocupações urbanas mais bem sucedidas e importantes do Rio de Janeiro.

Originária do Maranhão, Maria Ivanilde Moraes, conhecida como ‘Nilde,’ conta que ela vivia em uma boa casa no Rio Grande do Sul, com seu marido e três filhos: “Era casada, tinha emprego, e o meu marido trabalhava. Depois eu me separei e fui embora com os meus três filhos: de 14, 6 e 3 anos de idade.”

“Eu vim para o Rio com as crianças e sem nada e achei um lugar na favela. Muitos tiros, uma casa que não tinha nada, não tinha sofá, não tinha mesa, não tinha cama, nada. Só as paredes e um teto. Entrei lá dentro com a cara e a coragem e a ajuda da minha mãe. Eu botei os meninos em uma escola integral e consegui um trabalho de doméstica. O trabalho que apareceu, eu peguei, três vezes por semana, para pagar aluguel e levar pão e leite para casa. E eles comiam na escola porque passavam o dia inteiro lá. Fazer parte de uma ocupação urbana era a última coisa que passava pela minha cabeça até que de repente, eu perdi meu emprego. No entanto tornar parte desse grupo foi realmente a melhor coisa que poderia ter acontecido naquela situação.”

O edifício ocupado pelo Quilombo das Guerreiras

Antes de habitar o antigo armazém, um grupo de pessoas com históricos diferentes–incluindo ex-moradores de outras ocupações no Centro do Rio como Chiquinha Gonzaga e Zumbi dos Palmares—começou a se organizar através de encontros regulares.

“Eu e a minha mãe começamos a frequentar as reuniões com eles pequenininhos, todos domingos íamos para lá com eles. E depois de cinco meses de reuniões, aconteceu a primeira ocupação com as Guerreiras. Foi lá na Cinelândia, onde hoje tem uma outra ocupação, o Manoel Congo. Era um grupo organizado mas que não tinha um nome ainda. Depois de 24 horas, a polícia chegou lá e desocupou o prédio. Depois de mais seis meses de organização, reunião, e um mapeamento dos edifícios desocupados, nós fomos para um outro edifício em Vila Isabel e também com 24 horas houve desocupação. Lá em Vila Isabel foi criado o nome do Quilombo das Guerreiras, referindo-se aos membros do sexo feminino do grupo, as guerreiras.”

Nas primeiras horas da manhã de 9 de outubro de 2006, cerca de 120 famílias ocuparam um armazém que tinha sido abandonado pela Companhia Docas do Rio de Janeiro por cerca de 20 anos. A ocupação foi bem-sucedida, com as famílias estabelecendo sua comunidade e lares ao longo dos anos seguintes.

Nilde disse: “A gente conseguiu ficar lá durante oito anos. Meus filhos cresceram lá. Foi um prédio incrível, com espaços grandes e marmorizados. A gente fez muito trabalho. A gente ocupou um prédio onde não tinha luz, não tinha água… A lei diz que todo imóvel no Brasil tem que ter luz… E isso nunca foi feito.”

Nilde descreve como o Quilombo das Guerreiras era mais do que apenas um projeto habitacional: “Foi um sonho que se tornou realidade. Fizemos o nosso próprio teatro, uma sala de aula onde crianças e adultos foram ensinados a ler e escrever, oficinas de produção de chinelos e camisetas.” Tarefas comuns foram organizadas e distribuídas entre as comissões, com cada grupo responsável por uma tarefa diferente, como serviços de água e eletricidade, trabalhos na cozinha, limpeza e finanças, entre outros.

Além de fornecer um lar e comunidade para os moradores, a ocupação foi positiva para a amplamente abandonada região do Porto. De acordo com Nilde, “as taxas de homicídio e assalto na região caíram em 80%,” porque mais pessoas estavam caminhando nas ruas do bairro.

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Houve muitos momentos de tensão e repressão ao longo dos oito anos, desde cortes de energia e distribuição irregular de alimentos e água até a intimidação por parte dos seguranças do porto e a presença constante de oficiais de justiça entregando liminares de reintegração de posse do armazém para a Companhia Docas. Mas os moradores do armazém não se sentiam sozinhos em sua luta para permanecer, diz Nilde: “Todos se uniram para defender o direito à moradia. [Tivemos] grande apoio dos movimentos sociais, incluindo a Central de Movimentos Populares (CMP) e da União Nacional por Moradia Popular (UMP), bem como jovens professores e estudantes. Eles nos apoiaram desde o início. Um dia, eles bloquearam a porta para impedir a polícia de entrar, com todos os moradores dentro.”

No entanto a pressão começou a aumentar quando a prefeitura intensificou os esforços para remover as ocupações da região. Nilde explica: “Em 2012, a prefeitura, com o projeto de revitalização Porto Maravilha em mente, expulsou duas ocupações desorganizadas na área do Porto. Eles foram jogados fora como animais e colocados num armazém vazio atrás do edifício ocupado pelo Quilombo das Guerreiras. Sem água, sem luz, sem casa, sem nada. Esse foi o momento em que as coisas pioraram. Prostituição, tráfico, assassinato… um desastre. E as ameaças. Era muito perigoso. A prefeitura começou a invadir o prédio, fazendo buracos nas paredes, forçando-nos a sair… Eu fui uma das primeiras a sair. Peguei as crianças e aluguei uma casa em uma comunidade em São Cristovão.”

Após uma longa luta, em setembro de 2013, o governo federal assinou um decreto desapropriando o edifício ocupado pelo grupo ‘Guerreiras,’ juntamente com outras treze propriedades na área, facilitando o andamento dos projetos de desenvolvimento do Porto Maravilha, incluindo a Trump Towers Rio de Janeiro a ser desenvolvido onde o Quilombo das Guerreiras estava localizado.

Hoje, Nilde aluga um apartamento em Santo Cristo, na região do Porto, com seus três filhos, e se esforça para poder pagá-lo. Muitos daqueles que foram forçados a sair do Quilombo das Guerreiras se mudaram para outro local da mesma rua, o Quilombo da Gamboa, onde o contrato para iniciar a construção de 116 unidades habitacionais foi assinado em julho. Como uma das muitas lideranças que surgiram nos oito anos de ocupação do Quilombo das Guerreiras, Nilde atua como representante dos futuros moradores da cooperativa de habitação do Quilombo da Gamboa em eventos como o da assinatura do contrato. A construção do conjunto habitacional do Quilombo da Gamboa está agora para começar.