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Nemesis: Um Homem e a Batalha pelo Rio [Resenha]

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No início de Nemesis: Um Homem e a Batalha pelo Rio (Nemesis: One Man and the Battle for Rio), o jornalista Misha Glenny relembra um tour em 2007, que o levou a Rocinha, a maior favela do Rio. Durante o tour, o guia se referiu a Nem, o dono da Rocinha, como “o homem que mantém a paz por aqui”. Quatro anos depois, em novembro de 2011, no período de preparação para a pacificação da favela, Nem foi preso dramaticamente em meio aos flashes de câmeras na Zona Sul do Rio. Para os políticos responsáveis pela criação do ambicioso programa das UPPs em favelas da cidade, a prisão foi uma chamativa história de sucesso.

O último livro de Misha Glenny conta a incrível história de Nem, nascido Antônio Francisco Bonfim Lopes, do início de sua vida à sua entrada no negócio do tráfico de drogas, aos 24 anos, e seus quatro anos como chefão: um longo reinado, dado que “a esperança média de vida dos donos da Rocinha, uma vez que eles chegavam ao topo, era de aproximadamente 10 meses”. A ascensão de Nem ocorreu em paralelo a explosão do comércio de cocaína no Rio nas últimas décadas.

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Glenny passou 28 horas com Nem na prisão de alta segurança em Campo Grande na Zona Oeste do Rio e esta série de entrevistas formam a base para Nemesis. O livro também é o resultado de entrevistas com uma ampla gama de indivíduos: da família de Nem, amigos e inimigos, os moradores da Rocinha e figuras públicas, bem como policiais, políticos, jornalistas e advogados.

Esta gama permite Glenny a mostrar a história de Nem dentro de um contexto mais amplo: o da criação e a história das favelas do Rio de Janeiro. Essas comunidades permaneceram em grande parte negligenciadas pelo Estado durante décadas e, especialmente, durante o boom da cocaína quando “o Brasil estabeleceu-se como o país escolhido para o trânsito de cocaína, alimentando o crescente hábito da droga na Europa”. O comércio de drogas na Rocinha é responsável por aproximadamente 60% de toda a cocaína consumida no Rio também.

Prisão de Nem. Foto por Vitor Silva

A ausência do Estado combinado com a violenta ascensão do negócio da droga na Rocinha a partir dos anos 70 permitiu que ‘donos’ como Nem operassem o que às vezes parece ser um Estado dentro do Estado.

Glenny reflete de forma inteligente sobre o conflito que decorre de uma situação em que os traficantes de drogas usam a violência para manter o território enquanto distribuem alguns dos seus lucros dentro da comunidade: “Ao longo de minhas conversas com Nem, a minha impressão era que ele apaixonadamente queria fazer o bem, mas que era impossível conciliar essa vontade com estar no comando de um grande grupo de homens armados e uma organização criminosa ostentando um enorme volume de negócios”.

Glenny cita Nem falando sobre o primeiro “Dono do Morro”, Dênis, de uma forma similar. “O negócio das drogas ocupou o vácuo deixado pelo Estado”, disse ele, “caso contrário este teria sido um território sem lei”.

Estatísticas criminais citadas mais tarde no livro, de certa forma, corroboram com isso. A prisão de Nem (um mistério que Glenny capta de muitos ângulos diferentes) aconteceu no início do processo de pacificação da Rocinha. Glenny apresenta uma visão diferenciada do efeito da instalação da UPP na Rocinha. “A redução do número de membros armados do tráfico de drogas nas ruas significou que os homicídios nas favelas pacificadas caíram em até 75%”, observa ele. “Mas isso também significou que a função de policiamento dos traficantes também cessou. Como consequência, a violência doméstica aumentou quatro vezes, enquanto o estupro tornou-se três vezes mais comum e o roubo duas vezes mais provável”.

“Ao longo de minhas conversas com Nem, a minha impressão era que ele apaixonadamente queria fazer o bem, mas que era impossível conciliar com estar no comando de um grande grupo de homens armados e uma organização criminosa ostentando um enorme volume de negócios.”

O livro de Glenny toca em um dos pontos chaves de ruptura do programa da UPP–o assassinato e desaparecimento de Amarildo de Souza nas mãos de policiais da UPP na Rocinha e da falha percebida da segunda, fase social do programa da UPP.

O livro de Glenny não significa uma visão cor-de-rosa de traficantes de drogas como Nem. Em várias ocasiões, o autor destaca a cultura machista e misógina dos traficantes de drogas, uma cultura em que a violência contra as mulheres é comum. Nemesis mostra a violência e precariedade do negócio da droga nas favelas do Rio, mapeando as diferentes facções criminosas que disputam o poder em toda a cidade. Neste contexto, é difícil de acreditar na descrição de Glenny sobre a infância de Nem livre de violência, antes do boom de cocaína.

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O livro também fornece uma visão interessante sobre como as favelas são percebidas pelos não-residentes, dentro e fora do Brasil, insinuando que isso tem um impacto sobre sua estigmatização. A descrição de Glenny do frenesi da mídia em torno da prisão de Nem poderia levar alguns a fazer paralelos com as famosas cenas captadas por um similar enxame de mídia, em 2000 durante uma captura de reféns em um ônibus na Zona Sul do Rio. O evento foi analisado por José Padilha em 2002 no documentário Ônibus 174.

Tanto o livro de Glenny e o documentário de Padilha cumpriram uma função importante, usando os dois eventos independentes para examinar o emaranhado mais amplo de circunstâncias e contexto por trás das ações de indivíduos envolvidos no crime no Rio.

Isto, assim como a história de vida incomum de Nem, é o que faz Nemesis uma leitura fascinante.