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Fórum de Juventudes Lança o Aplicativo “Nós por Nós” para Denunciar Violência Policial

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Segunda-feira, 21 de março, o Fórum de Juventudes do Rio de Janeiro lançou o novo aplicativo, “Nós por Nós”, projetado especificamente para moradores de favelas a fim de denunciar abusos policiais em tempo real. Depois de fazer o mapeamento social de dez favelas em 2014, o Fórum de Juventudes concluiu que um aplicativo poderia ajudar a combater a violência policial e a proporcionar justiça àqueles que foram vítimas de abuso. O aplicativo tem recebido o apoio de organizações como Anistia Internacional, iBase, Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência e o Projeto Moleque. Dada a proeminência da brutalidade policial nas favelas do Rio, o Fundo Brasil de Direitos Humanos da Fundação Ford enviou financiamento para a ONG Justiça Global no intuito de doar para o Fórum de Juventudes, a fim de tornar esse aplicativo realidade. O app está disponível para Android e em breve estará acessível para os usuários de IOS.

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O nome do aplicativo vem de uma expressão popular “Nós por Nós”, e Jhenifer Raul, do Fórum da Juventude, deu início ao lançamento do app cantando “Quilombo, favela, rua” de Mano Teko: “Hoje, o quilombo vem dizer, a favela vem dizer, as ruas vêm dizer, que é nós por nós”.

Para os usuários do aplicativo, a segurança é uma grande preocupação. Por exemplo, após a divulgação do vídeo que mostrava a adulteração de provas pela polícia na Providência, após matar Eduardo Felipe Santos Victor, de 17 anos, a mulher que havia gravado o vídeo teria sido ameaçada pela Polícia Militar. Os usuários do Nós por Nós terão a opção de permanecer anônimos ao enviar vídeos, fotos ou textos em que as informações serão codificadas e enviadas para o Fórum de Juventudes. A ideia é que um pequeno grupo do Fórum de Juventudes, em seguida, passe o material para a instituição pública apropriada, como os apoiadores de direitos humanos dos escritórios do Ministério Público e Defensoria Pública, que irão analisar as imagens ou informações e prestar apoio ou agir em nome das pessoas envolvidas no incidente. O aplicativo propositalmente não engloba a polícia, devido à falta de confiança entre muitos moradores de favela e as autoridades.

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A luta contra a violência policial é global. O Fórum de Juventudes foi em parte aconselhado pela Witness, uma ONG com sede em Nova York que tem treinado ativistas a usarem vídeos para documentar violações de direitos humanos desde o início da década de 1990. A Witness recomenda que os usuários filmem diretamente através do aplicativo para garantir que o ocorrido seja guardado na nuvem caso um policial apreenda ou destrua o aparelho celular. A Witness também trabalhou com o membro do Fórum de Juventudes, Raull Santiago, a possibilidade de trazer para as favelas do Rio o CameraV, um aplicativo de gravação semelhante para abusos. A mídia social tem sido uma força poderosa no mundo, e particularmente no Brasil, na luta contra a violência do Estado.

Mas, no final das contas, a luta contra a violência policial tem de acontecer a nível local e grande parte do evento de lançamento na segunda-feira foi dedicado a agradecer e parabenizar as várias organizações que têm apoiado o Fórum de Juventudes no desenvolvimento do aplicativo e na sua luta contra a o genocídio dos moradores de favela, pobres e predominantemente negros.

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Apesar da gravidade do assunto, o lançamento do aplicativo foi recebido com grande alegria e orgulho. Aqueles que estavam presentes estavam confiantes de que o Nós por Nós seria uma ferramenta poderosa que permitirá que moradores de favelas que têm sido muitas vezes negligenciados e abusados pelo Estado, possam tomar o assunto em suas próprias mãos e lutar por seus direitos.

Para um membro da Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência do Rio de Janeiro, que recebeu um prêmio por seu apoio ao aplicativo, o app tem um tremendo potencial em corrigir a violência sistemática contra os moradores de favelas pobres e negros: “Somos vítimas desse Estado porque tivemos os nossos entes queridos, nossos filhos mortos… somos vítimas desse Estado racista, genocida em que vivemos. Somos vítimas por que? Está tudo claro, porque nós somos negros, negras e favelados. Então esse é o motivo, para esse Estado temos que morrer, temos que ter nossos direitos violados. Então, esse prêmio é um reconhecimento muito grande, porque é o reconhecimento da resistência, é o reconhecimento da luta, que estamos vivos e vamos continuar lutando”.

O evento teve seu momento mais solene e emocionante quando os presentes levantaram seus punhos e clamaram os nomes das pessoas que foram mortas pela violência policial: “Claudia [Ferreira], presente”. Claudia foi morta e arrastada pelo chão na traseira de um veículo policial há dois anos.

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Quando perguntado pelo RioOnWatch se acha que o Nós por o Nós terá muitos usuários, Cosme Fellipsem, morador da Providência e membro do Fórum de Juventudes, respondeu: “Não é uma questão de quantidade, mas de qualidade. Se conseguirmos ajudar uma família já é muita coisa”.