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Apagando a Favela da Vila Autódromo

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Na quarta-feira, 18 de maio, o Museu da Memória das Remoções foi inaugurado na Vila Autódromo, favela que se tornou mundialmente famosa pela resistência ao desenvolvimento dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro. Graças a sua forte resistência, aqueles que ainda não tinham saído de lá conquistaram recentemente um acordo histórico que permite que eles permaneçam em sua comunidade–o primeiro acordo de realocação assinado coletivamente na história das favelas cariocas. Ao mesmo tempo que suas casas serão destruídas, os moradores que permanecerem terão novas casas construídas pela Prefeitura, em tempo para as Olimpíadas. Embora a moradora e ativista, Maria da Penha, admita que o acordo não é uma “vitória completa”, ela está feliz com os termos acordados entre a Prefeitura e os moradores, já que ela terá uma nova casa na comunidade, o que ela sempre enfatizou ser um direito seu.

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O plano acordado entre moradores e a Prefeitura. Foto cortesia da página da Vila Autódromo no Facebook.

Sob o novo acordo, que está longe de ser o que os moradores queriam para a comunidade, conforme documentado no Plano Popular da Vila Autódromo, 25 novas casas serão construídas ao longo de uma rua. A igreja ficará, mas todos os outros prédios serão destruídos. Duas escolas serão construídas na comunidade, embora os moradores nunca tenham pedido nem mesmo uma, o que Maria da Penha considera um “falso legado”, sugerindo que o objetivo é simplesmente dar a impressão de que a Prefeitura está prestando serviços. Dada a falta de interesse nessas escolas, o dinheiro usado para construí-las seria provavelmente melhor utilizado para aliviar os problemas atuais da educação em todo o Estado do Rio de Janeiro.

As novas casas estão programadas para serem entregues antes dos Jogos, em 22 de julho, dando à Prefeitura pouco mais de dois meses para construir todas elas, deixando pouco espaço para erros antes da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos, em 5 de agosto. Ainda que a conclusão do projeto dentro do prazo seja uma impressionante façanha de engenharia, é mais provável que os empreiteiros façam pequenos cortes no orçamento e que as casas entregues aos moradores sejam de construção de baixa qualidade.

As novas casas serão construídas profissionalmente, colocando em questão o status de favela da Vila Autódromo (definições variam, mas favelas são em parte definidas como tal por serem auto-construídas). Tanto irá mudar que o termo renovação urbana é mais adequado como descrição do que vem acontecendo lá, do que urbanização. É como se a Prefeitura quisesse apagar tudo e começar de novo, reconstruindo a Vila Autódromo de forma que se encaixe no padrão dos condomínios dos arredores na Barra da Tijuca. De acordo com Maria da Penha, durante as negociações sobre o acordo, a Prefeitura até tentou mudar o nome de “Comunidade Vila Autódromo” para “Condomínio Vila Autódromo”. Juntamente com o novo estilo de construção, isso se encaixa com a crença de longa data dos moradores de que eles estão sendo removidos como parte de um processo de renovação urbana. Após a demolição de três casas atrás da Associação dos Moradores, em fevereiro de 2016, Maria da Penha disse que as demolições estavam acontecendo para acabar com a favela “feia” e criar o “lugar bonito” para aqueles que ficarão nas proximidades do Hotel Olímpico.

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Além disso, os moradores permanecem sem saber o que será construído na área próxima a lagoa, onde algumas casas ainda estão de pé, esperando ser demolidas. Com vista para a Lagoa de Jacarepaguá e diretamente ao lado do Parque Olímpico, a área possui alto valor imobiliário. Os moradores frequentemente dizem que não culpam (diretamente) as Olimpíadas por sua remoção. Em vez disso, os Jogos Olímpicos são usados como pretexto para removê-los e permitir a expansão imobiliária na área. Essa alegação é reforçada pela análise da lista de doadores para as campanhas eleitorais do Prefeito Eduardo Paes, que inclui grandes empresas da construção civil e do ramo imobiliário.

Dentre os destaques dessa lista está Carlos Carvalho, que não se envergonha do seu desejo de construir uma “cidade da elite”, sem espaço para os pobres na Barra da Tijuca, bairro onde está localizada a Vila Autódromo. Após os jogos, será dada a ele uma parte do terreno público onde está localizado o Parque Olímpico e ele será, portanto, responsável por assegurar o legado local dos Jogos. Suas constantes declarações para a mídia afirmando seu desejo de excluir os pobres, juntamente com suas doações consideráveis às campanhas políticas de Eduardo Paes, sugerem que ele tem planos de estender sua “cidade da elite” para o local onde está sendo desocupada a Vila Autódromo.

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“Vila Autódromo: Não somos ameaçados pela Olimpíadas, mas sim pela especulação imobiliária criminosa”

Muitos dos que não queriam deixar o local foram injustamente excluídos do acordo pela Prefeitura. Heloisa Helena Costa Berto, por exemplo, deixou sua casa quando a mesma foi separada do resto da comunidade dentro do Parque Olímpico, embora ela e seus filhos tenham retornado diariamente para checar a casa, que também era seu centro espiritual de Candomblé. Durante esse tempo, ela começou a negociação para vender sua casa, planejando reconstruir num local mais próximo do coração da comunidade, onde ela poderia ficar. Por ela ter começado a negociar com a Prefeitura, foi deixada de fora do acordo para as novas casas. Ao excluir Heloisa e outros moradores na mesma situação, a Prefeitura foi capaz de maximizar a quantidade de terra que pôde tirar dos moradores, sob o pretexto do desenvolvimento das Olimpíadas.

Parece, no entanto, que, em face da resistência forte e apaixonada à remoção demonstrada pela Vila Autódromo, que resultou nessas últimas famílias inabaláveis, enquanto os tribunais negavam a permissão para remoções, o Prefeito Eduardo Paes e seus associados imobiliários eram obrigados a aceitar que podiam terminar ficando com um local semelhante a uma zona de guerra em agosto, se eles não construírem as casas para os moradores remanescentes.

Como resultado, o prefeito mudou para uma nova estratégia, a de construir novas habitações para limpar o local para os Jogos. A única construção que vai permanecer na comunidade é a Igreja Católica, que a prefeitura diz que “não representa um risco”. Ao remover os moradores de sua habitação tradicional na favela–que no caso da Vila Autódromo eram casas bastante grandes e bem construídas, mas que agora está cercada de escombros–a mídia e os organizadores do Comitê Olímpico Internacional (COI), que vão ocupar os edifícios dos arredores durante os Jogos Olímpicos, podem ficar sem saber que havia uma favela logo ali ao lado. Contudo, a má qualidade das casas e o espaço reduzido, aliados aos interesses da especulação imobiliária, vão continuar sendo problemas enfrentados pelos moradores por muito tempo após o fim dos Jogos.

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“Não há Rio sem a favela. O Rio começa na favela.”

Esse apagamento das favelas do Rio Olímpico é profundamente problemático. Mostrar apenas o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar e a praia de Copacabana, como a propaganda de TV dos Jogos fará, sem dúvida, irá transmitir uma visão distorcida da realidade do Rio. Como o grafite na Vila Autódromo afirma “Não há Rio sem a favela”, a manobra da Prefeitura para esconder as origens da favela Vila Autódromo revela um abandono da responsabilidade da Prefeitura de governar para todos. Como a moradora Sandra Maria disse após a destruição da Associação de Moradores, “a pobreza existe aqui e todos sabem disso. Se vocês não querem mostrar a pobreza para o mundo, acabem com a pobreza!” Seria bom se o próximo prefeito do Rio, a ser eleito em outubro, abraçasse esse slogan e desenvolvesse soluções políticas que envolvam e empoderem os moradores, para benefício de todos. Tal como está, no entanto, os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro têm sido usados pela Prefeitura para excluir e enfraquecer milhares de moradores das favelas do Rio.

Adam Talbot é um pesquisador de doutorado no Centro de Estudos de Esportes, Turismo e Lazer da Universidade de Brighton, no Reino Unido. Ele está realizando um projeto etnográfico com foco em movimentos sociais e ativismo nos Jogos Olímpicos Rios 2016.