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Um Novo Esporte Olímpico: A Limpeza Social Urbana

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Em dois meses, os olhos do mundo estarão firmemente voltados para o Rio de Janeiro, e a Prefeitura gastou os últimos sete anos e bilhões de reais preparando a cidade “para inglês ver“. De acordo com grandes organizações internacionais, como o Banco Mundial e C40, algumas dessas preparações foram bem-sucedidas e melhoraram a vida dos moradores de favelas do Rio de Janeiro. Infelizmente, isso não reflete a realidade. Ao invés de resolver muitos dos complexos problemas urbanos e sociais que existem na cidade, a Prefeitura os varreu para debaixo do tapete para não ficarem visíveis durante os 17 dias da festa Olímpica.

Por toda a cidade há projetos que enfatizam a limpeza social, desde a vila dos atletas chamada “Ilha Pura” até os desenvolvimentos da Zona Portuária (parte do projeto do legado Olímpico do Porto Maravilha) que parece uma tentativa de apagar o histórico da escravidão na região. Empresários imobiliários como Carlos Carvalho querem construir áreas inteiras unicamente para a elite nobre, enquanto a estratégia da Prefeitura na Vila Autódromo tem sido de esconder a favela em habitações recém-construídas. Guardas de segurança privada retiraram moradores de rua das áreas turísticas da cidade, levando-os para abrigos a até 80 km de distância. Em setembro, defensores públicos se juntaram a 25 outras organizações para escrever uma carta às Nações Unidas para denunciar a “apreensão irregular” de menores das ruas como forma de “‘higienização’ preparatória para as Olimpíadas”, de acordo com o R7.

A antropóloga britânica Mary Douglas, em sua obra seminal Purity and Danger (Pureza e Perigo), traça o significado histórico e social da palavra “sujeira”. Ela argumenta que a sujeira se refere não somente à terra, poeira e líquidos derramados, mas qualquer coisa considerada fora do lugar. No Rio de Janeiro, o incremento das remoções e das políticas que agilizam a gentrificação desde 2009 mostram que as populações marginalizadas como a população negra e aquelas que vivem nas favelas têm sido classificadas como “fora do lugar” pelas autoridades. Assim, usando as lentes providas por Mary Douglas, podemos afirmar que quando políticos e urbanistas dizem que querem limpar a Região Portuária, eles querem dizer que querem remover essas populações que foram consideradas fora de seus lugares em um ambiente previsto para ser exclusivo da elite. Como sempre, aqueles com o poder de definir o que está fora do lugar são os ricos e privilegiados que ocupam posições de poder simbólico e político na sociedade. É nesse sentido que a palavra limpeza assume uma conotação negativa, como quando alguém é removido de sua casa, ou no contexto de limpeza étnica. Limpar se torna um verbo sobre remoção, segregação e até mesmo violência.

Isso não é novo entre as cidades sedes de Olimpíadas. Em Atlanta, sede dos Jogos de Verão de 1996, leis foram introduzidas para auxiliar a polícia em espaços públicos, tornando ilegal estar em um estacionamento sem ter um carro estacionado lá, por exemplo. Isso tornou muito mais fácil para a polícia remover as pessoas que vivem nas ruas, dando pelo menos a impressão de uma cidade ‘limpa’ sem o problema dos sem teto. No parque centenário, construído para as Olimpíadas, cercas foram erguidas para “manter a ralé de fora“.

Em Pequim, a sede de 2008 onde o governo autoritário tinha muito menos preocupações de direitos humanos do que o Prefeito Eduardo Paes demonstra, os organizadores das Olimpíadas foram francos sobre seus planos de realocar moradores problemáticos em centros de detenção especiais durante o período das Olimpíadas, com pouca preocupação com a liberdade de ir e vir e do bem-estar.

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Em Vancouver, uma política semelhante foi exercida antes dos Jogos de Inverno de 2010, com o governo instituindo o controverso Assistance to Shelter Act  (Ato para Assistência de Proteção), que deu à polícia o poder de remover cidadãos considerados “de risco”. (Aliás, as autoridades no Rio usam uma justificativa similar para remover favelas de áreas onde eles querem construir alguma outra coisa). Apelidado de “Ato para Sequestro Olímpico” pelos ativistas, essa lei foi usada para limpar as ruas, junto com multas agressivas por jogar lixo na rua, desordem, desatenção ao atravessar a rua e andar de skate. Para a socióloga Jaqueline Kennelly, essas “estratégias de limpeza da cidade” servem para “incorporar pressões na população para que se alinhem à imagem de marketing da cidade“, o que significa que essa limpeza muda o caráter da cidade toda.

A tendência continuou em Londres em 2012, com a limpeza de inquilinos de imóveis e profissionais do sexo. Um nível mais alto de policiamento ao leste de Londres, incluindo o aumento de batidas policiais, foi utilizado para reorganizar a cidade para parecer limpa, segura e divertida enquanto o mundo assistia a festa olímpica nas telas de suas televisões. Uma política parecida pode já ser vista em Tóquio, a cidade que vai sediar os Jogos Olímpicos em 2020, onde os sem teto estão enfrentando a remoção do Parque Meiji para a construção de um estádio Olímpico.

Essas políticas envolvem a privatização de espaços antes públicos, permitindo que eles sejam policiados para assegurar a limpeza. No Rio, essa limpeza da cidade pode ser vista nas políticas de remoções forçadas e pacificação de favelas aparentemente “sujas”. José Jorge Santos de Oliveira, que morou na Vila Recreio II antes da mesma ser removida, pontuou claramente quando ele falou à Vice sobre as remoções na cidade: “Deveria ser um reassentamento, mas não é. É uma remoção. E remoção é o que você faz com o lixo”.

O Rio deve ser limpo socialmente para os Jogos Olímpicos? Ou é parte do charme do Rio a bagunça, a relaxada informalidade da cidade e a cordialidade que isso confere à população carioca? A bagunça da cidade forma parte de sua beleza e gera criatividade e uma cultura vibrante e expressiva. Seguindo a socióloga Jacqueline Kennelly, limpar a cidade dessa bagunça e apagar esse caráter vibrante e criativo seria um grave erro. No mesmo sentido, a natureza coletiva e inovadora da vida nas favelas não é errada, não é um erro a ser corrigido; é simplesmente um estilo diferente de viver em conjunto. Essa tentativa de repaginar a cidade, visto nas tentativas de remover uma grande parte do seu tecido urbano e no criticado novo Museu do Amanhã, destrói não apenas o passado, mas a própria essência do Rio de Janeiro.

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Megaeventos esportivos como as Olimpíadas e a Copa do Mundo são feitos para serem o mais similar possível em qualquer lugar do mundo em que são sediados. Para a maior parte, os eventos disputados no Rio durante agosto de 2016 serão os mesmos que foram disputados em Londres no verão de 2012 e em Pequim em 2008 antes deste. Eles vão parecer os mesmos pela TV para as pessoas assistindo de casa, com a exceção das imagens do Corcovado, do Pão de Açúcar e da praia de Copacabana utilizadas como distração entre os eventos. Apesar da oportunidade de mover o evento a cada quatro anos servir para mostrar esportes e a cultura local, o COI escolhe prescrever uma forma padronizada de um ideal limpo e higienizado–uma cidade da elite, como o empresário bilionário Carlos Carvalho coloca. Mas forçar as cidades Olímpicas a estar em conformidade faz com que se perca a oportunidade de mostrar o que há de maravilhoso e único em algumas das melhores cidades do mundo. Limpar a cidade para as Olimpíadas é arriscar perder “a paixão, a energia e a criatividade do povo brasileiro”, destacado em 2009 pelo então presidente Lula quando o Rio venceu a candidatura para sediar os Jogos.

Adam Talbot é um pesquisador de doutorado no Centro de Estudos de Esportes, Turismo e Lazer da Universidade de Brighton, no Reino Unido. Ele está realizando um projeto etnográfico com foco em movimentos sociais e ativismo nos Jogos Olímpicos Rios 2016.