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“Certificamos a Realidade que Eles Omitem”: Jornalistas de Favelas Falam no Primeiro Congresso de Comunicação Comunitária

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No dia 27 de agosto, jornalistas, estudantes e membros de organizações de mídia comunitária do Rio se reuniram no Museu da Maré para debater o papel da mídia comunitária do Rio no primeiro Congresso de Comunicação Comunitária.

O Congresso foi organizado pelos jornalistas do O Cidadão, um jornal sediado no Complexo da Maré na Zona Norte. Um público de 45 pessoas assistiu a discussão sobre tópicos que incluíam a definição de comunicação comunitária; mídia comunitária versus mídia de massa; a importância de dar apoio a idealizadores e artistas locais; práticas e desafios de produção e se a objetividade é possível, ou mesmo desejável, para os jornalistas comunitários.

O evento teve o apoio da Secretaria Municipal de Cultura, do Centro de Estudos de Ações Solidárias da Maré (CEASM), do Museu da Maré e do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC)–uma ONG que dá apoio a iniciativas de comunicação dentro dos movimentos sociaissindicatos e outros coletivos.

De acordo com os organizadores, o Congresso foi inspirado nas questões levantadas por membros da comunidade em resposta à década passada de megaeventos no Rio, que culminou com as Olimpíadas, e a repressão correspondente aos moradores de favelas e também a censura aos veículos de mídia comunitária.

A abrangência dos temas abertos para discussão incluiu formas de fortalecer a identidade da favela dentro da cidade, combater a criminalização da favela e de seus moradores na mídia, trazer mais informação útil a um público maior, promover e dar apoio aos artistas locais através da comunicação comunitária e alavancar as mídias comunitárias para expressar e refletir os interesses dos moradores das favelas no contexto pós-Olímpico e do ano de eleições municipais.

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A mídia comunitária e os megaeventos

Os participantes abordaram estas questões complexas numa série de três painéis. O primeiro, dedicado às mídias comunitárias e aos megaeventos, contou com a presença de Gizele Martins, moradora da Maré e jornalista do O Cidadão.

Gizele Martins falou de alguns dos desafios enfrentados pelos meios de comunicação nas favelas, incluindo o poder da grande mídia e da sociedade que marginalizam e estigmatizam seus moradores, contribuindo para estereotipar moradores de favela como “criminosos, violentos, marginais”.  Ela criticou também o fato da grande mídia brasileira ser dominada por apenas algumas famílias abastadas.

Gizele Martins apresentou a mídia comunitária como um modo de fazer um contraste vital às imagens e ideias racistas e discriminatórias espalhadas pelos meios de comunicação comerciais.

“A gente está falando da nossa identidade,” disse. “É muito importante que a gente seja uma fonte de informação, para cada um de nós e para os moradores das favelas. A gente precisa se auto-organizar, criar alternativas, criar nas favelas cada vez mais uma rede de comunicação comunitária. Comunicação comunitária é uma forma de mobilização, principalmente do pensamento”.

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Gizele Martins também chamou a atenção para o importante papel da mídia independente em chamar a atenção para tópicos e histórias que raramente aparecem na grande mídia, através de canais nas comunidades como por exemplo a página Maré Vive no Facebook.

“Se a gente não tivesse Maré Vive, ninguém saberia das pessoas mortas na Maré durante os megaeventos”, ela disse. “Quem vai falar do genocídio da população negra, a não ser a gente?

Desafios para a mídia comunitária

O segundo painel, sobre desafios que a mídia comunitária enfrenta, incluíam Silvia da Costa, colunista do Jornal Abaixo Assinado de Jacarepaguá; Wladimir Aguiar, jornalista da Rádio Maré; e dois representantes do coletivo de cinema de rua independente TV Tagarela, na Rocinha, Zona Sul.

Silvia da Costa chamou a atenção para a importância de tornar a mídia comunitária democrática e acessível ao público e aos contribuidores. O Jornal Abaixo, baseado em Jacarepaguá na Zona Oeste do Rio, aceita contribuições de quem quiser escrever, mesmo sem formação ou experiência jornalística.

“Se você tem opiniões e idéias, então pode escrever”, ela disse. “Nós estamos produzindo outra forma de mídia. Uma mídia comunitária pode reproduzir o que a gente entende”.

O compromisso de publicar uma variedade de contribuições pode levar a um debate interno, disse, uma vez que a equipe nem sempre concorda com o conteúdo a ser publicado, e por vezes também discorda entre si.

“Tem um lado bom e um lado ruim”, acrescentou ela, embora apontando que manter o direito à liberdade de expressão é mais importante que concordar com tudo o que é publicado.

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Wladimir Aguiar discutiu o papel da mídia comunitária em servir as necessidades do seu público e em empoderá-la para uma maior participação na vida cívica.

“A gente pode levar a comunidade a se fortalecer”, ele disse. “Os moradores de favelas vivem o que acontece lá, e a gente pode difundir essa conversa”.

Ele também apresentou uma visão panorâmica da história do desenvolvimento da rádio comunitária na Maré e em outras favelas, refletindo sobre o seu progresso, desde os dias da ditadura militar, quando essas formas de comunicação foram proibidas.

Camila Perez, da TV Tagerela, contou a história do coletivo de cinema de rua e suas mais recentes realizações, incluindo receber o primeiro Festival de Cinema de Favela em junho de 2015. Ela também apontou os desafios que o coletivo enfrenta, desde obter permissões, trabalhar na presença conflituosa e intimidante da polícia e a discriminação em geral por que passam os moradores das favelas.

“Eu não posso acreditar que isso ainda acontece hoje”, disse ela.”É tudo mais difícil quando você é de uma favela, mas a gente luta”.

A moderadora Carolina Vaz, do O Cidadão, descreveu alguns dos desafios por que passa o jornal, incluindo a falta de um espaço de trabalho estabelecido. Os jornalistas encontram-se regularmente na Maré para coordenar e discutir o seu trabalho, mas o local de encontro não tem acesso à internet e cada um tem que trabalhar sozinho.

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Silvia da Costa concluiu seu discurso, com paixão, sobre o papel político da mídia comunitária e a ilusão da objetividade.

“Não existem mídias de comunicação imparcial”, ela disse. “Qualquer mídia de comunicação–áudio, visual, TV–é parcial. Quando você toma uma decisão de ser um formatador da informação, você tem que escolher uma perspectiva. Escolher tem por consequência escolher um lado, uma parcialidade”.

“No Jornal Abaixo, nós temos uma linha editorial”, continuou, explicando que a sua posição sobre as questões reflete a visão dos moradores. “Por exemplo, a gente não entende a UPP como segurança, mas sim como repressão”, e os artigos refletem essa perspectiva.

Ela chama a atenção para a conexão entre mídia comunitária e ativismo, assim como outros palestrantes que reconhecem a natureza intrinsecamente política da mídia alternativa.

“Cada um de nós, dentro de nossos veículos de comunicação, tem de tomar uma posição e uma parcialidade, e isso é uma posição política.”

Mídia comunitária e mídia corporativa

O terceiro painel examinou os papeis das mídias comunitárias e da grande mídia, e destacou Thainã de Medeiros, membro do Coletivo Papo Reto do Complexo do Alemão, e Tatiana Lima, jornalista da ONG de comunicação, NPC.

Thainã de Medeiros falou da história do coletivo Papo Reto, criado em 2014 para compartilhar informação, dar apoio e mobilizar os moradores no Alemão.

“Papo Reto é uma troca de experiências”, ele disse. “A gente faz comunicação para mobilizar as pessoas. Não só sair a rua para fazer manifestação, mas para criar ações nas comunidades. É muito diferente sentar para conversar, de sair e fazer uma coisa além da conversa”.

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Ele descreveu os esforços dispendidos pelo coletivo para contrapôr a narrativa da grande mídia.

“A gente faz comunicação para garantir os nossos direitos”, ele disse. “Pegamos uma matéria da mídia corporativa, e fazemos a nossa versão”.

Ao discutir a imagem que a grande mídia projeta das favelas, ele fez também uma critica à apropriação mais ampla da cultura da favela por outras camadas da sociedade, desde as festas funk com preços altíssimos e frequentadas pela população branca, aos brasileiros ricos usando camisetas com a palavra “Favela”.

Tatiana Lima afirmou a importância da mídia comunitária lutar contra a apropriação do trabalho, identidade e cultura dos moradores de favelas.

“Nós estamos produzindo conteúdo para a mídia corporativa”, continuou, apontando exemplos de organizações de mídia comunitária e moradores compartilhando informação no Facebook, WhatsApp e outras redes sociais que a grande mídia depois usa para fazer suas próprias reportagens. “Esta é tecnologia da galera, a favela tem tecnologia”.

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A diferença, acrescentou, é que as organizações de mídia comunitária reportam informações ao seu público, ajudando-as no seu cotidiano, enquanto que a grande mídia usa a informação sobre operações policiais ou violência para continuar estigmatizando e criminalizando as favelas como locais de perigo.

“A gente precisa pensar sobre as nossas práticas, dialogar e se capacitar como comunicadores”, ela disse, pedindo a outros jornalistas comunitários para se orgulhar do seu trabalho e de suas publicações. “O espaço da visibilidade não é apenas da mídia corporativa, mas ela tem uma presença muito forte. Mas eu não acho que deveria ser fechado. Não podemos dar todo o espaço para a mídia corporativa.”

Ela citou ainda um discurso de Marcelo Rech, presidente da Associação Nacional de Jornais, onde ele afirma que é papel dos jornalistas “certificar a realidade”.

“Qual é o nosso papel?” Perguntou ela. “Que realidade é esta que eles [jornalistas corporativos] certificam? Nós certificamos a nossa realidade. O papel da nossa comunicação comunitária é certificar a realidade que eles omitem”.