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A Exclusão Está no Mapa

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O horror em ter sua vida excluída de um mapa oficial deixa claro como a geografia é importante na vida das pessoas. A geografia cria a percepção de lugar, de posição e mais importante, de inclusão em um conjunto.

A demonstração de incômodo de ver as favelas excluídas de um mapa turístico da cidade do Rio de Janeiro criou furor nas redes sociais e mídias da cidade, como se fosse um órgão extirpado do seu corpo. Nenhuma comparação é mais cabível já que realmente a cidade funciona como um corpo, onde cada pessoa tem a sua função, levando informações de um “órgão” a outro (locais de vivência).

Já vivemos uma era de remoção de órgãos inteiros, fisicamente, como quando arrancaram a Favela do Pinto para a construção da “Selva de Pedra” na Gávea, alocando pessoas a quilômetros de distância na Cidade de Deus ou na Cidade Alta. As consequências são até hoje percebidas: As Cidades criadas (de Deus e Alta) não se sentem, com razão, parte da cidade que ficou para trás: a Cidade Maravilhosa. Recentemente revivemos isto em nome das Olimpíadas, reproduzindo técnicas dos anos 60 e 70.

Mas a exclusão no mapa turístico não é algo novo para o Rio de Janeiro. Na realidade, os mapas turísticos sempre mostraram apenas a Cidade Maravilhosa e não aquela parte que se esforçam em esconder. O que aconteceu recentemente com algumas favelas já acontece há décadas com os subúrbios da Zona Norte e Oeste. De nada vale os 380 anos de turismo existentes na Igreja Nossa Senhora da Penha, nos bairros da Zona da Leopoldina ou o fantástico Hangar de Zepelins, que existe desde 1936 em Santa Cruz e é um dos raríssimos ainda de pé no mundo. Tudo isto não aparece no mapa e muitos cariocas sequer os visitaram.

O capítulo mais recente tratou da proposta do Clube de Regatas Flamengo ao anunciar a construção do seu Estádio de Futebol em um terreno em Manguinhos, há um quilometro da Estação de Trens do bairro e às margens da Avenida Brasil. Décadas de silêncio absoluto sobre o abandono dos pátios industriais dos bairros do entorno da Avenida Brasil desde os anos 70 foram rompidos com este anúncio, mas ao invés de se ver como oportunidade, foi tratado como temeridade: Como poderiam planejar uma atração onde sempre escondemos? Onde sempre abandonamos a própria sorte? Foram citados problemas com violência, urbanismo e até mesmo com público alvo, em mais um esforço realmente de não “desperdiçar” atenção a solução dos problemas desta relegada região.

Cada vez mais o Rio de Janeiro investe em apenas um segmento de turismo, que é aquele no qual uma certa classe hegemônica se vê, onde alguns obtém altos lucros e que não cogitam em reinventar. Gastaram muito dinheiro construindo a Cidade Maravilhosa garantindo que os que não combinam com aquela imagem devem ir para outras “cidades” dentro do município do Rio de Janeiro, onde dizem que há inclusive as próprias regras de gestão administrativa, alheia a todas as esferas de governo oficial, que agradece frente a incapacidade de tratar a todos cidadãos em seus territórios igualmente.

Será que um mapa é reflexo de outro? Será que o mapa turístico se mistura com o mapa de distribuição de renda e por isto não devemos nos identificar mais nele? Será que o mapa turístico deve representar menos de 10% da população, pegando apenas a Orla, sem a Zona Norte ou Zona Oeste e agora sem as favelas? Mostrando ao turista que até mesmo o Aeroporto Galeão é fora da cidade?

Não há mera coincidência, pois Caetano Veloso já cantava: “Narciso acha feio o que não é espelho”.

Hugo Costa tem 42 anos, formado em Geografia pela UFF, blogueiro e morador do bairro de Ramos.

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