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Indignação na Zona Norte com as Respostas de Segurança aos Arrastões: O Que Dizem #AsRedes

Milhares de cariocas encheram as praias da Zona Sul do Rio na quarta-feira 20 de novembro, Dia da Consciência Negra e feriado no Estado do Rio. Contudo, algumas pessoas que se espremeram na areia para aproveitar as temperaturas ardentes foram vítimas de roubos uma vez que ladrões oportunistas tiraram proveito da densa multidão devido ao feriado. Guardas municipais armados com cassetetes confrontaram e apreenderam vários jovens. A Polícia Militar deteu 12 pessoas.

No dia seguinte O Globo reportou sobre o incidente com a manchete: “Os arrastões estão de volta às praias cariocas”. Embora a polícia militar tenha negado que o ocorrido no dia anterior tenham sido arrastões, o aumento nos furtos nas praias das últimas semanas – outro furto em massa foi reportado no dia 15 de novembro, também um feriado público – causou um pânico sobre segurança nas praias.

Em reposta, o Secretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, anunciou, na sexta-feira 22 de novembro, novas medidas de ‘policiamento intensivo’ nas praias da Zona Sul e que os ônibus partindo da Zona Norte da cidade para os bairros de Copacabana, Ipanema e Leblon serão parados e revistados. Pode ser requerido de passageiros que se identifiquem, e crianças abaixo de 10 anos desacompanhadas de adultos serão levadas para um abrigo.

O anúncio causou indignação generalizada nas mídias sociais – a reportagem do Globo foi extensivamente compartilhada no Facebook e no Twitter. Uma das reações mais comuns à notícia tem sido aversão e descrença com vários comentários simplesmente perguntando: “Isso é serio?” ou “isso é inacreditável”.

O educador e fotógrafo comunitário Léo Lima, do Jacarezinho, escreveu no Facebook ao compartilhar a reportagem: “Não dá pra acreditar nessa notícia! Isso chama-se racismo, pra você que acha que isso acabou. Isso chama-se cidade partida, elitização do espaço público. Sem medidas para conter arrastões a policia põe a culpa no subúrbio”. A insinuação que os responsáveis pelos arrastões são da Zona Norte foi ressaltada por muitos, incluindo a Revista Absurda, que retuítou: “A tendência do verão carioca esse ano é: “Na Zona Norte só tem bandido”.

As táticas divisórias chocaram muitos comentaristas, que tuitaram a reportagem com as palavras “Apartheid Carioca”. Outros se referiram à estrategia como uma que cria guetos e consolida divisões entre o Norte e o Sul da cidade. Raull Santiago, fotógrafo, ativista e membro do coletivo Ocupa Alemão, publicou o comentário: “Aconteceu, marginalizaram toda a Zona Norte, a muralha antes invisível começa à aparecer e se consolidar!”.

Outros fizeram referência ao contexto mais amplo de políticas e ações governamentais que limitam os direitos civis enquanto a cidade se prepara para sediar a Copa de 2014 e Olimpíadas de 2016. Ao compartilhar o link, a página no Facebook da Vila Cruzeiro escreveu: “Estado de exceção, para manter a ‘segurança’ dos gringos. Moradores da Zona Norte sofrerão com mais um atentado aos seus direitos”. A Rede Contra a Violência também citou a estratégia como parte do estado de exceção, escrevendo: “Não falta mais nada para fechar o estado de exceção no Rio de Janeiro: milícias, incursões policiais, UPPs, internação compulsória, remoções arbitrárias e agora o controle da circulação dos jovens negros e pobres”. A afronta ao direito dos moradores da Zona Norte de ir e vir foi reiterado através do Facebook e Twitter.

Os arrastões e as medidas subsequentes de parar e executar buscas nos ônibus vindos da Zona Norte não são sem precedentes. Como o crime violento, em geral, furtos em massa nas praias foram mais intensos no Rio durante os anos 90, particularmente a onda de arrastões que chegou as manchetes nacionais e internacionais em 1992. A medida tomada então foi controlar o fluxo vindo dos subúrbios para a Zona Sul e executar buscas nos ônibus no Centro assim como nos pontos de embarque na Zona Norte: “Quem estiver sem documentos, camisa ou dinheiro para as passagens de ida e volta não poderá mais embarcar nos ônibus da Zona Norte e do Centro para a Zona Sul, nos fins de semana e feriados de sol”, foi relatado no Globo de 22 de outubro de 1992.

Fundir geografia e classe com criminalidade é uma concepção popular e de longa data entre moradores do Rio, principalmente para aqueles que vivem nos bairros mais ricos perto da praia. Em 1984, a primeira linha de ônibus a passar pelo Túnel Rebouças e ligar as Zonas Norte e Sul da cidade causou uma preocupação generalizada entre os moradores de elite dos bairros costeiros, que desdenhavam os novos frequentadores dos bairros – apelidados de farofeiros por causa da farofa que levavam para a praia em suas marmitasOs comentários dos moradores na época, publicados no Caderno B, uma coluna do Jornal do Brasil, incluíam: “Que gente feia”; “Estão criando um cenário de vandalismo e terror”; “A praia mudou de cor”; “A gente paga imposto tão caro para eles botarem essa pobreza na porta da gente”.

Três décadas depois, as mesmas atitudes ainda são escutadas entre moradores da Zona Sul em resistência às novas estações de metrô em Ipanema e no Leblon e ao aumento nas linhas de ônibus. Um morador de Ipanema postou no Facebook esta última quarta-feira: “Nāo dá mais para os moradores, que pagam os maiores IPTUs do país saírem às ruas ou irem à praia em paz. O cenário é aterrador. Sem nenhum preconceito, nāo é possivel ônibus a cada 15 minutos para o Morro do Alemāo”. Recebeu pelo menos 45 curtidas e 20 comentários em suporte, incluindo uma chamada para uma petição em favor de reduzirem o acesso aos transportes. Em afronta, a publicação também foi compartilhada por moradores do Alemão, incluindo Rene Silva, o redator-chefe do jornal Voz da Comunidade, que a compartilhou várias vezes. O autor mais tarde retirou a publicação.

As praias do Rio são geralmente louvadas como espaços democráticos onde todo o variado espectro da sociedade carioca se mistura e coexiste. Contudo, como a antropóloga Fernanda Pacheco da Silva argumenta no seu estudo “As praias de Ipanema: liminaridade e proxemia à beira-mar“, há tribos urbanas distintas que ocupam distintas localizações ao longo da costa da Zona Sul. Porém, embora a interação possa não alcançar a utopia democrática, o acesso à praia faz parte do direito à cidade, particularmente por causa do papel das praias cariocas como principal espaço público da cidade. Fernanda cita uma entrevista com Patrícia Farias, autora do “Pegando uma cor na praia: relações raciais e classificação de cor na Cidade do Rio de Janeiro”, que diz sobre o hábito dos moradores do Rio de irem à praia: “Isso é importante não só pelo sinal de status, não só por você estar no ócio, mas por você querer dizer alguma coisa…Você está na cidade também”.

Que alguns moradores de bairros localizados perto das praias sintam como se suas contribuições fiscais deem mais direito à acesso exclusivo à costa do Rio, e que eles tenham essa visão ratificada pelas estratégias do governo que apresentam a Zona Norte como a fonte da insegurança na praia, ameaça o direito da praia para todos. Mais além, ao distorcer a discussão, o problema de segurança da cidade toda, no qual assaltos nas ruas e roubos de carros têm aumentado, deixa de ser abordado. Um blogueiro do Comunica Tudo escreveu: “O que seria um problema de segurança pública, educação, mobilidade, lazer, distribuição de renda, acaba sendo transformado numa questão bairrista, segregacionista, racista e preconceituosa”.

O autor continua: “Existe uma diferença clara entre comprar uma casa no Leblon e comprar a praia do Leblon. Isso quer dizer que, ao comprar uma casa no Leblon, você não comprou toda a praia com ela. A sua casa é um espaço privado, mas as ruas e a praia do Leblon são espaços públicos, portanto, destinados ao uso público, seja de moradores da Zona Sul, da Zona Oeste ou Norte, de estrangeiros, de turistas e assim por diante”.

Rejeitando que o direito à praia da Zona Norte tenha sido comprometido, o Ocupa Alemão criou um evento no Facebook para o dia 08 de dezembro: “Farofaço – NÓS vamos invadir NOSSA praia!”, convidando demais moradores da Zona Norte para um dia de passeio em massa: “Como bons cariocas que somos que tal aproveitar o final de semana de descanso pra curtir uma praia heim? Afinal, também trabalhamos e pagamos impostos! E não vai ser a galera da Xona Xul nem Beltrame que vai dizer qual deve ser nossa diversão!”, seguido de uma lista clássica do que levar – “não esqueçam seus telefones celulares e máquinas fotográficas! Pois temos nossas tecnologias e garantimos: não precisamos roubar as de ninguém!” – a descrição do evento termina com um convite: “E quem mora na Xona Xul! Venham também! A praia é de todos e trabalhamos na segunda feira!”.