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Traduzindo ‘Favela’ Parte 2: Uma Viagem pela America Latina [MAPA INTERATIVO]

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Veja Parte 1 aqui Veja o final da matéria para o mapa interativo.

Refletir sobre a grande generalização que resulta por usar um só termo–slum por exemplo–para resumir todos os assentos informais do mundo, nos impulsiona à sair um pouco do Brasil, e viajar pelo mundo investigando a linguagem em diversos lugares. Examinando dados específicos em lugares diversos, descobrimos que todos têm pontos em comuns, mas o contexto sócio-político é sempre diferente, e a resposta dada à este fenômeno também. E este contexto é o que produz o termo usado em cada local para descrever os seus assentamentos informais. No caso da America Latina, o foco desta pesquisa, os nomes pelos quais são conhecidos têm um peso negativo muito forte, com algumas exceções. Vemos já através de seus nomes a marginalização inerente em cada contexto, tirando deles o direito que têm de formar parte da cidade, com todos seus direitos e deveres.

Da Patagônia ao Rio Grande é comum encontrar assentamentos informais, cada um com suas particularidades, segundo o contexto histórico e social de seus moradores, resultado de oportunidades ou carências de cada lugar, sua micro-região e do contexto político que ocupa. São estabelecidos e se desenvolvem com tempo e chegam a formar parte integrante de uma cidade, porém ficam a margem por conta da falta de direitos, já que são assentamentos estabelecidos pela falta de habitação adequada formal, em terrenos baldios, inicialmente sem título, desenvolvendo informalmente. No início são formados sem serviços públicos básicos como água, eletricidade, saúde e educação, e com tempo alguns serviços chegam, porém quase sempre de forma inadequada. Isso porque nestes assentamentos moram as vitimas diretas da marginalização, ignorância, estigma, e eufemismos…

A seguir uma viagem pela América Latina e seus assentamentos informais:

Argentina

Nome: Villa miseria, asentamientosvillas de emergencia

O nome villa miseria foi tirado do romance escrito por Bernardo Verbitsky em 1957: Villa miséria también es América, que descreve as condições precárias onde moravam os imigrantes que viam das províncias durante a Década Infame (1936-1946). Encontram-se atualmente villas misérias nas principais cidades da Argentina, como Buenos Aires, Rosário, e Córdoba. Muitas vezes as villas recebem não só provincianos, mas estrangeiros provenientes de países limítrofes.

Dados: De acordo com estimativas de 2004, existem 640 villas em torno de Buenos Aires, contando com 690,000 moradores, ou 111,000 famílias. Entre as mais conhecidas encontramos Villa 1-11-14, Villa 31, e Villa Lugano. 33% da população urbana argentina vive em villas miseria de acordo com a Population Reference Bureau.

Bolívia

Nome: Ciudadela, Asentamiento urbano

Em 2005 o Banco Mundial financiou o projeto “Barrios de Verdad” em La Paz. E no mesmo ano foi aprovada a lei de Asentamientos Humanos Urbanos, Armónicos y Estrategicamente Planificados, com o fim de estabelecer uma politica pública nestes barrios.

Dados50% da população urbana boliviana vive em ciudadelas de acordo com a Population Reference Bureau.

Brasil

Nome: Favela

É cada vez mais contada a história do termo ‘favela,’ que foi aplicado aos assentamentos informais brasileiros à partir de 1897, quando soldados de Canudos, após vencida a guerra, voltaram ao Rio para receber terras prometidas, porém não receberam. Instalaram-se no que hoje é conhecido como o Morro da Providência no Rio de Janeiro, e chamaram de Morro da Favela em homenagem às plantas, favelas, que nasciam facilmente nos morros e colinas de Canudos. Ao longo das próximas décadas, o êxodo rural e a falta de moradia acessível em centros urbanos impulsionou a formação de centenas de assentamentos pelo Brasil.

Dados: 12 milhões de brasileiros moram em favelas espalhadas pelo país. A cidade do Brasil com o maior número de moradores de favela hoje, o Rio de Janeiro, contém mais de 1000 favelas, reclassificadas em 625 pela Prefeitura em 2010. Favelas brasileiras são responsáveis por movimentar 38,6 bilhões de reais por ano, o equivalente ao PIB da Bolívia ou o que equivaleria à economia do 5o estado brasileiro. Hoje 65% são de classe média.

Chile

Campamento do ChileNome: Población Callampa, Campamento

‘Callampa’ é o nome de um cogumelo que aparece repentinamente e se reproduz rapidamente em qualquer ambiente, até úmido e com pouca iluminação. Estes assentamentos apareceram em Santiago na década de 1960 e continuaram a prosperar até a década de 1980 com a migração campo-cidade em busca de melhores oportunidades. As habitações são consideradas inabitáveis, e chamadas também de campamentos. Desde a década de 1990 o Chile tem lidado com a falta de habitação adequada através de um grande programa de investimento em moradia pública, onde 20% da população de mais baixa renda recebe moradia do governo.

Dados: Segundo um informe da ONG Um Techo para Chile em 2005 havia 453 assentamentos com 8.000 famílias.

Colômbia

Barrio Bajo da Colombia. Foto de Pedro SzekelyNome: Barrios bajos, Tugurio-Barrio de invasión, Barrio marginal, Comuna

Barrios bajos (bairro baixo) responde ao conceito de subúrbio, e refere-se aos assentamentos situados na Colômbia. Entre outros nomes, são também conhecidos como comuna, que refere-se originalmente à um distrito de uma área urbana, mas se associa aos bairros populares, e por tanto é usado de maneira pejorativa. Colômbia considera estes bairros como os mais pobres. Nos últimos anos os barrios bajos de Medellín têm se tornado conhecidos por inovações na área de mobilidade.

Dados: Comuna 13 na cidade de Medellín tem aproximadamente 135.000 pessoas. 18% da população urbana colombiana vive em barrios bajos de acordo com a Population Reference Bureau.

Costa Rica

Turgurio de Costa RicaNome: Tugurio

Segundo a Real Academia Espanhola (RAE), a palavra tugurio vem do latim tugurĭum e significa habitação, vivenda ou estabelecimento pequeno e miserável.

Dados: Atualmente em Costa Rica quase 50 mil famílias moram em tugurios.

Cuba

Llega y pon da Cuba

Nome: Llega y pon

Esse nome significa literalmente “chegar e pôr”. Há 10 anos o governo tentou remover os moradores e fazê-los retornar às províncias de origem, mas não conseguiu. Os moradores foram tão firmes que atualmente conseguiram ser abastecidos com água, eletricidade, e recebem saúde e educação, mesmo se as habitações continuam sendo consideradas como ilegais, o que impede que os moradores possam pedir trabalho ao governo ou a cota de comida oferecida pelo Estado. Seus moradores são chamados los palestinos (os palestinos) porque moram em condições similares a de refugiados.

Equador

Guasmo de EcuadorNome: Guasmo (Guayaquil), suburbio, invasión, barrio marginal

O termo guasmo é conhecido particularmente na cidade de Guayaquil, e faz referência à árvore tropical que havia na zona que foi desmatada em favor do assentamento quando, em 1948, o governo expropriou 19 milhões de metros quadrados de terra de uma família abastada para ofertá-la aos novos habitantes. Estas “invasões” por parte de migrantes camponeses na grande cidade começaram na década de 1950. Compartilhamos aqui uma série de fotografias tiradas por 10 estudantes moradores de Guasmo Sur.

Dados94% da população urbana vive em guasmos de acordo com a Population Reference Bureau.

El Salvador

Champerío de El SalvadorNome: Champerío, tugurio, zona marginal

Champerío vem da palavra chamapan, uma palavra náhuatl (língua indígena da região) que designa “casa”. Essa se transformou em champa, que segundo a RAE designa um casebre que serve de habitação. Elas são construídas com quatro madeiras verticais a modo de coluna mais um teto de ramos ou folhas de palmeiras. Champerío seria então uma comunidade constituída por champas.

Dados: Num país do tamanho do Sergipe com o mesmo número de habitantes que a cidade de Rio de Janeiro, 47% da população é considerada pobre, e estes champeríos encontram-se espalhados ao longo do território, com maior ênfase na capital, onde o êxodo rural continua forte.

Guatemala

Chapas, GuatemalaNome: Arrabales, asentamientos, champas

Segundo a RAE, um barrio é um dos sítios extremos de um povoamento.

O barrio La Limonada é lar de 60.000 guatemaltecos, e é um dos maiores assentamentos americanos. Em 2012 o Banco Mundial impulsionou o mesmo projeto de recuperação de assentamentos humanos realizado na Bolívia a partir de 2005.

Dados43% da população urbana vive em arrabales de acordo com a Population Reference Bureau.

Barrio em Honduras

Honduras

Nome: Barrio

Segundo a RAE é um grupo de casas ou aldeia dependente de outro povoamento mesmo que esteja apartado dele.

Dados: 35% da população urbana em Honduras vive em barrios de acordo com a Population Reference Bureau.

México

Jovens moradores de Cartolandia (México DF) sentados do lado das vias do trem. Foto: Fundación Louis PasteurNome: Cinturón de miséria, zona marginal, ciudad perdida, cartolandia, bariada, arrabaldes, colonia, baja precarios

O cinturón de miséria é uma zona informal periférica ao redor da cidade.

Cartolandia vem de cartón (papelão) e landia (do inglês, “land”) que significa terra, fazendo referência aos materiais utilizados para a construção das habitações originais. Fica no limite do Distrito Federal e do Estado de México. Nela moram mexicanos e sobretudo centro-americanos que chegam na “bestia” (o trem de carga que abordam para ir para o norte e chegar aos Estados Unidos). Essa colônia que se formou há 20 anos é o lar de umas 600 pessoas.

Dados18% da população urbana mexicana vive em cinturóns de acordo com a Population Reference Bureau.

Barrio em Nicarágua

Nicarágua

Nome: Barrio, asentamiento espontáneo

Apesar de ser um país com alto índice de pobreza, desde 1999 existe uma Lei de Regulação, Ordenamento e Titulação de Assentamentos Humanos informais impulsando o desenvolvimento desses bairros.

Dados45% da população urbana vive em barrios de acordo com a Population Reference Bureau.

Panamá

Barrio pobre em PanamáNome: Barriada bruja, invasión, ghetto, barrios pobres

A origem do nome “Barriada Bruja” é incerto, mas viria a ser traduzido ao português diretamente por “Bairro Bruxa”, nesse caso levaria um grande peso negativo. São geralmente habitados por imigrantes rurais ou estrangeiros.

Em 2009 os governos do Panamá e Estados Unidos assinaram um convênio de assistência aos jovens provenientes dos bairros menos favorecidos.

Chacarita em Paraguai

Paraguai

Nome: Asentamiento, bajo, chacarita

Segundo a Coordinación para Asentamientos Espontáneos (CAES) o déficit habitacional do país é de 800 mil habitações. Veja este vídeo da Orquestra Reciclada.

Peru

Pueblo joven, PeruNome: Pueblo joven, asentamiento humano, invasión, barracón, conos

Nos anos 1940 começa uma forte migração do setor rural para a cidade de Lima em busca de uma melhor qualidade de vida. Neles encontram-se sobre tudo ameríndios e mestiços. A associação SOLAC está a cargo do desenvolvimento dos conos, assim chamados pela forma em que os assentamentos são construídos. Já houveram várias tentativas, todas em vão, de fazer os moradores voltarem para seus lugares de origem (geralmente os Andes).

36% da população urbana vive em pueblos jovenes de acordo com a Population Reference Bureau.

Porto Rico

La Perla, arrabal de Porto RicoNome: Arrabal

Segundo a RAE é um bairro fora da área da cidade a qual pertence. Na década de 1930, com a indústria do cultivo de cana de açúcar, houve um aumento demográfico, mas em San Juan não havia espaço intramuros para receber esses novos trabalhadores. Com isso formaram arrabales, na época construídos de madeira e zinco corroído.

República Dominicana

Barrio malo, República Dominicana. Foto de DAP Foto/Manuel DiazNome: Barrio malo

Não há necessidade de explicar o significado desse termo. As habitações destes cidadãos, marginalizados pela sociedade, carecem das medidas básicas de saneamento, água e eletricidade. Como se isso não bastasse, em 2012 medidas abusivas de controle foram tomadas pela Polícia Nacional e a Direção de Controle de Drogas do país no barrio El Capotillo, invadindo as propriedades de moradores. Após numerosas denúncias por parte dos habitantes, o porta voz da Polícia Nacional comunicou que medidas iriam ser tomadas se algum policial cometesse novamente ações abusivas durante estas operações.

Dados18% da população urbana vive em barrios malos de acordo com a Population Reference Bureau.

Uruguai

Cantegril de UruguaiNome: Cantegril, cante

É assim como são chamados os assentamentos informais no Uruguai, fazendo referência pejorativa e irônica ao bairro de luxo de Punta del Este do mesmo nome, ou ao clube campestre frequentado pelas elites da região: o Cantegril Country Club.

Dados: Segundo fontes não oficiais, 6% da população do Uruguai mora nesses assentamentos espontâneos.

Venezuela

Rancho em Caracas, VenezuelaNome: Rancho, barrio, cerros

Segundo a RAE, um rancho é um grupo de casas ou aldeia dependente de outro povoamento mesmo que esteja apartado dele. Em Caracas, Venezuela, logo após o êxodo campesino causado pelo boom petroleiro em 1960, ranchos começam a se formar. Veja fotos dos ranchos de Caracas.

 

Veja o mapa interativo:

Veja os dados aqui.