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Canal “Favelados Pelo Mundo” Desafia Relação Entre Classe e Viajar [VÍDEO]

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“Favelados Pelo Mundo também é cultura”, brinca o comediante Marcelo Magano, em uma rua ensolarada de Bogotá, na Colômbia. Atrás dele está o Teatro Jorge Eliécer Gaitán, conhecido por suas amplas exposições culturais, que incluem temporadas completas de ópera e performances tradicionais de Zarzuela, além de teatro internacional, música e festivais de dança. Construído em 1890, o teatro é apenas alguns anos mais velho do que as favelas mais antigas do Rio.

Em fevereiro de 2016, Magano, morador da Cidade de Deus, na Zona Oeste do Rio, lançou no YouTube a série ‘Favelados Pelo Mundo‘. Ao descrever o projeto ele afirma que o “favelado contemporâneo é aquele que economiza o ano inteiro para viajar”. A série consiste em episódios de 5 minutos feitos por Marcelo e postagens no blog advindas de amigos de outras favelas, explorando cidades no exterior, fornecendo dicas de viagem bem-humoradas “de favelados para favelados”.

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“Quem disse que pobre não viaja?” escreve Marcelo Magano na postagem inaugural da série. “Não sei se porque a classe ‘C’ está em alta ou porque os ricos estão em crise. A verdade é que pobre viaja e esbanja sim!”.

A busca de Marcelo por viajar serve para ampliar debates contemporâneos sobre participação na cultura popular, política e o direito ao espaço público. Frequentemente concebida como questão de viabilidade econômica, os debates sobre quem deveria participar de viagens desconstroem o estereótipo de que moradores de favelas são pobres demais para viajar, que seria financeiramente irresponsável se o fizessem, ou ainda, que eles não poderiam participar da “alta cultura”. Viagens internacionais e, particularmente, viagens aéreas eram vistas no passado recente como algo pertencente exclusivamente à elite da sociedade brasileira. Em 2012, a Folha de São Paulo publicou um artigo de opinião da escritora Danuza Leão, onde lamenta, afirmando que viajar perdeu a graça já que “o porteiro do prédio também pode ir”.

Mais recentemente, em 2014, uma professora da PUC postou em sua página no Facebook uma foto de um passageiro no aeroporto Santos Dumont, com a seguinte legenda: “Aeroporto ou rodoviária?”. A foto viralizou e teve centenas de compartilhamentos, principalmente devido aos comentários de outros professores universitários dizendo que o passageiro “está mais para estiva”, que “glamour falta muuuitooo” e que aquele era o “tipo de passageiro que senta exatamente a seu lado e fica roçando o braço peludo no seu, porque–claro–não respeita (ou não cabe) nos limites do seu assento”.

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No projeto “Favelados Pelo Mundo” Marcelo Magano usa seu estilo particular de comédia para desafiar o conceito de que viagens são reservadas para certas classes econômicas ou sociais. As narrativas de suas primeiras viagens para Bogotá, Cartagena e San Andrés, na Colômbia, fazem piada com as classes média e alta, assim como a classe trabalhadora e os moradores de favelas.

“O riso é revolucionário”, ele explica. “O riso é a minha arma de expressão mais potente e certeira. Gosto de brincar com os estereótipos que dão a nós, que moramos em favela: ‘pobre quando tem dinheiro, gasta só com besteira e futilidade’.

“Existe o cara ostentação, que gasta dinheiro com bebida, mulher e roupa cara, e tem quem aceite que os favelados são só isso. Sendo que eu sou o ostentador de viagens e lugares maneiros e faço isso como vários moleques de favela, que gostam de mostrar o que têm. Mas faço questão de mostrar que sempre fomos mais que isso.”

Para Marcelo Magano, viajar não é para se exibir ou apenas para lazer; em vez disso, ele acredita que cada jornada é para a aprendizagem, as experiências e os intercâmbios culturais, que permitem a transformação pessoal. Ele diz estar surpreso com o impacto da série, pois cada vez mais seus pares demonstram interesse em seguir seus passos. “Favelados Pelo Mundo é cultura”, ele reafirma, “é mais do que lazer”.

“Viajar deveria ser um direito básico de todo ser humano”, ele disse. “Favelados Pelo Mundo é um manifesto: queremos ver jovens pobres e negros viajando por aí, trocando, compartilhando, aprendendo e ensinando junto aos outros”.

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Favelados pelo Mundo se estendeu para além da América do Sul, com os parceiros de Marcelo viajando para os Estados Unidos e Europa. O ativista e escritor Thainã de Medeiros escreveu sobre sua viagem para a Holanda no Favelados Pelo Mundo, que ele descreveu como “as primeiras férias da minha vida”, e disse: “Para alguém da minha origem, pisar na Europa é uma conquista”.

Isabela, uma professora de francês de Brasília, escreveu uma postagem como convidada para o blog da série, após sua viagem de 20 dias por Lisboa, Bruxelas, Amsterdã, Paris e Dijon. “Favelados pelo Mundo é o projeto mais lindo que já vi” ela escreveu, “pois mostra para pessoas, gente como a gente, que não precisa nascer em berço de ouro para conhecer o mundo e que nem ele é o nosso limite”.

O jornalista comunitário e ativista Raull Santiago manifestou seu apoio ao Favelados pelo Mundo após sua recente viagem à cidade de Nova York, com Débora Maria da Silva, fundadora do Movimento Mães de Maio, de mães que perderam seus filhos para a violência policial. Ambos falaram em um evento da Anistia Internacional sobre direitos humanos e violência policial nas favelas. A ativista do coletivo Papo Reto, Renata Trajano, colega de Raull e Thainã, também visitou Baltimore recentemente. Após isto, Raull compartilhou a foto acima no Facebook, endossando a série de Marcelo Magano. A legenda da foto de Raull diz, “Só para avisar: tem favelado viajando pro exterior!”. A postagem também recebeu comentários entusiasmados.

Marcelo está expandindo o programa, com quatro vencedores de uma competição que irão viajar e um blog que será anunciado no final de 2016. Marcelo não tem planos de parar de viajar. Os planos para suas próximas viagens já estão em andamento. Ele planeja viajar pela América Central, México, Guatemala, Honduras e Costa Rica. Ele terminou nossa conversa com outra risada: “Muita ostentação, né?”

Confira o 1º Episódio: