Últimas Notícias

Curicica (Parte 2): TransOlímpica Espalha Medo de Remoções

Click Here for English

Este é o 2º dos 4 artigos sobre o agrupamento de favelas de Curicica, Jacarepaguá, que estão à espera de projetos de integração urbana através do programa Morar Carioca.

Uma comunidade que respira

"Em um uma ou dois, está rua provavelmente não estará mais aqui."

Carlos Alberto “Bezerra” Costa, presidente da Associação de Moradores da Asa Branca, parou para olhar a fileira de casas que nos recebia na favela Abadiana, sua voz foi ficando mais grave do que de costume, e ele me disse: “Para te falar a verdade… em 1 ano ou 2, essa rua provavelmente não estará mais aqui.”

Geralmente é difícil avaliar a energia humana de um lugar no entardecer de uma terça, mas os traços de vida visíveis naquele dia deixou claro que aquela é uma comunidade que respira. Uma senhora andava de mãos dadas com seu neto, trocando sorrisos e comentários com seu vizinho enquanto passava. Amigos encostados em uma pilha de pneus na entrada da avenida cumprimentava Bezerra com uma piada e tapinhas nas costas. Roupas penduradas nos varais próximo ao rio, as cores vibrantes, dos vestuários da familia, quarando ao calor do sol.

Tudo isso, segundo boatos, está para ser removido do terreno que está reservado para compor a via TransOlímpica, um projeto que conectará o estádio Olímpico na Barra da Tijuca para outro complexo olímpico na zona norte. Um vídeo promocional apresenta o caminho projetado da rodovia em verde, como uma linha que desliza facilmente pela paisagem do Rio, apagando seções inteiras de terras habitadas que incluem residências em Curicica e arredores.

Em turquesa está marcado o futuro parque Olímpico. A linha azul marca a TransOlímpica. Em vermelho; as favelas de Curicica citadas no texto. Visite o mapa aqui:http://bit.ly/CuricicaMapa.

“Nós queremos saber”

Em algumas comunidades os danos serão mínimos. A parte da Asa Branca que cruza com a TransOlímpica é constituída por construções recentes de residentes que Bezerra advertiu pessoalmente, antes de construírem no local, sob o risco de realocação. E segundo José “Tilzé” da Cruz, presidente da Vila Calmete, a única parte de sua comunidade que a linha de ônibus cortará é a primeira fileira de casas da entrada da comunidade. Para Bezerra e Tilzé, a preocupação maior é reassentar as pessoas junto às suas comunidades: uma meta difícil mas possível com um pequeno número de realocações.

Este não é o caso da Vila União da Curicica, uma grande parte dela está nos limites da Estrada de Curicica e Estrada Calmete, está previsto que as ruas serão alargadas três vezes mais a fim de acomodar 6 pistas para o tráfego. Como o outro lado da Estrada da Curicica tem um hospital municipal, tudo indica que infelizmente a expansão acontecerá para o lado da comunidade, engolindo fileiras de casas para dar lugar às linhas de ônibus.

“Tudo indica que eles virão e tirarão as pessoas da comunidade,”disse Vania de Jesus Julio Neri, atual presidente da Associação de Moradores da Vila União. “Mas não sabemos para onde nós iremos”. Não sabemos se será para a Estrada de Curicica, ou numa parte totalmente diferente do Rio. Nós não sabemos de nada.”

Ao longo do ano passado, Vânia vem tentando contatar oficiais do governo, solicitando ao prefeito Eduardo Paes ou a um representante para fornecer detalhes concretos para os residentes da Vila União a cerca das remoções e realocaçãoes. Mas até agora, todas as tentativas de diálogo cairam no vácuo. “O que queremos”, disse Vânia “é que a prefeitura venha, sente e converse conosco sobre o que deve acontecer com a nossa comunidade, Só queremos saber. Mas isso ainda não aconteceu.”

Se somando ao medo da remoção existe essa situação de ambiguidade que é paralizante. Sem a palavra oficial dos planos da Prefeitura, Vila União se encontra em uma situação que desfavorece a mobilização, defesa, ou qualquer outra coisa senão a espera.

Comparado com o vindouro projeto Morar Carioca, Vânia e outros residentes encontram-se jogados em um mar de mensagens confusas. “Algumas pessoas dizem que nós temos que sair, e outros dizem que o projeto Morar Carioca virá e beneficiará a Vila União. Então eu não consigo entender nada.”

Uma súbita fratura 

“Uma comunidade é mais do que o espaço que ela ocupa”, disse Regina Sônia Gomes Baptista, conhecida como “Sônia”, antiga presidente de Vila União. “São as relações que as pessoas formaram, conectadas por aquele ambiente. A segurança e alegria que tudo isso traz. Ninguém quer sair.”

Este episódio de remoções e realocações orquestradas pela Prefeitura vem sendo ignorada historicamente. Embora a “opção” (frequentemente forçada) de realocações possa garantir casa para os desapropriados, as acomodações vem desprovidas das necessidades humanas de cultura e comunidade com as quais muitas favelas são repletas. Quando uma parcela da comunidade é removida quebra-se e deslocam-se as relações existententes com a população remanescente. Décadas de vivência, construção, e conhecimento do lugar e das pessoas são subitamente fragmentados. “Tudo o que pedimos é que eles tenham um pouco de cuidado conosco,” diz Vânia.

“Ao menos”, ela continua, “queremos ficar em Jacarepaguá.” Além de manterem-se próximos de seus amigos e familiares, os moradores da Vila União desejam estar próximos de seus trabalhos e manterem seus empregos. Remoções anteriores em outras comunidades instalaram as pessoas em bairros distantes de Santa Cruz e Cosmos, longe de Jacarépaguá e ainda mais longe do Centro e da Zona Sul pra onde alguns moradores se deslocam diariamente. Já para encontrar novo emprego nesses subúrbios, conhecidos como regiões dormitórios, é muito difícil.

Sônia também preocupa-se com as condições de vida que as pessoas removidas de Vila União podem encontrar pela frente. “Um quarto, uma cozinha, um banheiro, uma kitchenette, basicamente,ela disse, “estará bem distante das moradias espaçosas e elaboradas que definem a sua comunidade. Em vários projetos públicos de residência, ela explica, “as paredes são finas e os quartos são apertados. Nem mesmo animais gostam de viver assim tão perto.”

“Nosso único medo”

“Removendo as pessoas de suas casas, quebrando a segurança que os residentes tem uns com os outros, a Prefeitura criará um lugar violento onde não havia um”, disse o fotógrafo e ativista maurício Hora no mês passado durante uma entrevista sobre as remoções na Providência, uma das primeiras favelas do Rio. No outro lado da cidade, Sônia tem preocupações semelhantes sobre o futuro de uma Vila União removida. “Quando você vê as notícias”, ela pergunta, “onde você encontra os maiores índices de violência? Nos lugares onde as pessoas vivem tumultuadas sem muita dignidade”.

As casas que delineiam as ruas da Vila União ainda não foram marcadas para remoção. Mas em uma cidade onde os residentes honestos da Providência chegam em casa e encontram suas casas marcadas com um número e a sigla SMH pintados do lado de fora de suas casas indicando que a casa está marcada para remoção, onde Verdejar, uma bem-estabelecida e respeitada ONG, foi notificada, dissipada e forçada a ver sua sede derrubada em poucas horas, o silêncio da Prefeitura é um peso intolerável para os moradores da Vila União e Abadiana.

Vila União

Enquanto sentávamos do lado de fora da casa de Dona Sônia, apreciando café com biscoitos entre o chilrear dos passarinhos de estimação, as idas e vindas de suas visitas, e das árvores em seu quintal, havia pouco naquele momento para se aborrecer. Mas a incerteza escureceu o horizonte. “Nós construímos uma boa vida pra gente aqui”, disse Sônia,. “Nosso único medo é que um governo louco venha e bagunce tudo.”

O website do projeto da Rio TransOlímpica é cheio de sentimentos de satisfação, sorrisos contentes, e promessas de “inclusão social”. Mas o legado que esses projetos olímpicos já deixaram nesse estágio inicial causaram o oposto: medo, frustração, e o deslocamento das pessoas que estão à margem das decisões.

Este é o segundo de 4 artigos sobre o agrupamento de favelas em Curicica, Jacarepaguá, Rio de Janeiro antes da melhoria pelo programa Morar Carioca. O próximo artigo mostrará os sentimentos de promessa e dúvida na espera do projeto de integração urbana.

Clique aqui para ver mais fotos das comunidades em destaque nessa série, ou assista à apresentação dos slides abaixo:

Quer garantir o futuro do RioOnWatch?

A doação mensal é a maneira mais sustentável e eficiente de apoiar nosso trabalho incansável e contínuo em prol das favelas do Rio. Comece seu apoio hoje mesmo. CLIQUE AQUI PARA APOIAR.