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Protesto Transnacional Sem Precedentes #NOlympicsAnywhere: Contra as Olimpíadas de Tóquio

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Dezenas de milhares de moradores de Tóquio ouviram os tambores. Dezenas de milhares viram a marcha entusiasmante com centenas de manifestantes carregando faixas. E dezenas de milhares ouviram cantos contra os Jogos Olímpicos, não apenas em Tóquio, no Japão, mas no Rio, em Pyeongchang, em Paris, em Los Angeles e, na verdade, em qualquer lugar.

No dia de 24 de julho, no movimentado distrito de Shinjuku, em Tóquio, o ar da noite de verão fervilhava de energia, e para o movimento transnacional contra os Jogos Olímpicos, o momento foi histórico—não apenas para as legiões de transeuntes expostos à mensagem crítica, mas para a natureza transnacional sem precedentes da marcha. Organizado pelo coletivo Hangorin no Kai (‘o Grupo Anti-Olímpico’), com sede em Tóquio, o protesto contou com representantes do NOlympics LA (Los Angeles 2028), do NON aux JO2024 à Paris (Paris 2024), da Aliança Olímpica Anti Pyeongchang (Pyeongchang 2018), do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas (Rio de Janeiro 2016) e da Rede Contra as Olimpíadas (Londres 2012). Houve também participantes de Seul e Jacarta, duas cidades que estão considerando propostas para os Jogos de 2032.

“Foi uma experiência maravilhosa e magnífica que eu nunca tive antes”, refletiu Misako Ichimura, organizadora do Hangorin no Kai. “Nós fizemos protestos em Shinjuku antes, mas dessa vez havia tantas pessoas assistindo e também muitos participantes. Fomos capazes de mostrar quantas pessoas estão aqui e quantas pessoas internacionais vieram em apoio”.


Centenas de pessoas estão reunidas na área de Shinjuku, em Tóquio, para protestar contra os Jogos Olímpicos sob o slogan #NOlympicsanywhere. Pessoas cantando em vários idiomas. Muita mídia presente. Ativistas que defendem a democracia e o direito à cidade. Jules Boykoff (@JulesBoykoff) July 24, 2019

Uma árvore do Monte Gariwang faz uma aparição. Um alerta para o fato de que uma floresta sagrada de 500 anos foi cortada para dar lugar a uma pista de esqui Olímpica para os Jogos de Pyeongchang em 2018. #NOlympicsanywhere. Jules Boykoff (@JulesBoykoff) July 24, 2019

Cantos ao longo da marcha pediram o fim do Comitê Olímpico Internacional (COI) e do Comitê Olímpico Japonês, bem como denunciaram as Olimpíadas em cada cidade participante. Uma série de policiais acompanhou a manifestação durante todo o percurso, alguns de uniformes encurralavam os manifestantes para dentro do caminho designado, e outro grupo vestindo camisas faziam anotações enquanto seguiam a multidão.


Os grupos participantes compartilham uma crítica comum, eles argumentam que as Olimpíadas aceleram a especulação imobiliária e o deslocamento, incentivam a militarização e aprofundam a criminalização de comunidades já marginalizadas, aumentam a destruição ambiental seguida por um ‘banho verde‘, e priorizam projetos de investimento espetaculares passando por cima das necessidades dos moradores locais. A análise central do movimento é a percepção de que as Olimpíadas atuam como veículos para personagens poderosos, desde políticos nacionalistas até corporações famintas por lucros, para extrair riqueza e consolidar poder às custas das populações das cidades-sede.

O conjunto de faixas exibidas na marcha pelas avenidas e becos de Shinjuku apontaram várias críticas importantes em relação aos Jogos de Tóquio. A faixa do Hangorin no Kai “Olimpíadas Matam os Pobres” refere-se às tendências em todos os Jogos Olímpicos, mas no contexto de Tóquio, se refere ao deslocamento de habitações públicas e pessoas sem casa. O governo de Tóquio ampliou as limpezas visando aqueles que vivem nas ruas, especialmente perto do Estádio Nacional—que foi totalmente reconstruído para 2020—e em parques ao redor da cidade. O complexo habitacional público de Kasumigaoka foi demolido para dar lugar ao novo Estádio Nacional, contudo no projeto final do estádio o espaço onde os apartamentos estavam permaneceu vazio.

Essa história pode lembrar, aos moradores do Rio, as remoções e demolições pré-Olímpicas como as da Vila Autódromo e da Favela do Metrô, onde espaços vagos também marcam os antigos locais de moradia. E assim como a expulsão de Altair Guimarães, da Vila Autódromo foi sua terceira remoção pelas mãos do governo, duas mulheres removidas dos apartamentos Kasumigaoka estavam sofrendo remoção pela segunda vez. A primeira delas? Nas Olimpíadas de 1964 em Tóquio. Falando sobre os apartamentos de Kasumigaoka, uma delas disse ao The Nation: “Eu pensei que seria meu último lar. Que eu morreria naquela casa. Mas eles me forçaram a me mudar. [A prefeitura] arrancou minha comunidade. Novamente”.

Outra faixa, esta empunhada pelo mobilizador Frédéric Viale e pela candidata a prefeita Danielle Simmonet de Paris, declarou “Não aos Jogos Olímpicos radioativos em Tóquio”. As autoridades têm classificado as Olimpíadas de 2020 como os “jogos de reconstrução”, em referência ao esforço de recuperação após o desastre nuclear em Fukushima, em 2011.

Essa classificação, no entanto, apaga a realidade ainda grave das cidades costeiras e de moradores de Fukushima. Cerca de 140.000 pessoas foram evacuadas em 2011 e muitas outras foram embora voluntariamente. Menos da metade dos evacuados retornaram. Os que retornaram, majoritariamente idosos, encontraram cidades fantasmas, uma paisagem repleta de montanhas de sacos de lixo preto, de materiais contaminados e o persistente estresse da incerteza sobre riscos de saúde. Em contraste, muitos dos que foram evacuados com suas famílias não têm planos para retornarem.

O governo japonês vem cortando vagarosamente o reassentamento e a assistência habitacional aos evacuados com a justificativa de que Fukushima se recuperou completamente, desconsiderando as novas vidas que essas famílias tentaram construir em outros lugares e descartando as preocupações com a radiação. Assim sendo, críticos, como uma integrante da câmara local, Masumi Kowata, denunciam as narrativas de reconstrução. Masumi insistiu que eles estão criando distrações frente as necessidades reais dos cidadãos de Fukushima. Sobre as Olimpíadas de 1964 em Tóquio, ela lembrou: “Eu tinha 8 ou 9 anos. Eu estava animada”. Mas os Jogos de 2020 estão sendo mobilizados contra os interesses dos moradores de Fukushima, disse ela. “Não estou animada.” Na opinião dela, os chamados jogos de reconstrução não estão fazendo nada de bom para sua comunidade.

Vários jogos de softbol Olímpico e um jogo de beisebol serão realizados na região de Fukushima, mas em locais esportivos localizados a horas ao oeste das áreas anteriormente evacuadas. Desviar turistas e jornalistas das áreas afetadas pode permitir que as Olimpíadas sustentem o mito da recuperação. Dito isto, o revezamento da tocha de 2020 começará no coração das áreas afetadas no estádio de futebol J-Village de Fukushima, apresentando uma oportunidade para protestar e para interromper o espetáculo.

No dia 24 de julho, enquanto os manifestantes enchiam as ruas sob as luzes ofuscantes dos outdoors gigantes de Shinjuku, as redes sociais se iluminavam com a solidariedade transnacional. Moradores da Vila Autódromo filmaram uma mensagem de apoio às comunidades de Tóquio que enfrentam o deslocamento, com a Maria da Penha, uma das poucas que conseguiu se manter no local, pedindo às autoridades japonesas que “respeitem o direito à moradia”, dizendo: “A terra foi feita para ser partilhada, não vendida”. Usando a hashtag #NOlympicsAnywhere, os organizadores de Hamburgo, Seul, Los Angeles e Long Beach (Califórnia) documentaram suas próprias ações locais, enquanto várias outras cidades contribuíram com denúncias sobre as Olimpíadas.

Muitos de nossos aliados e aqueles afetados pela destruição Olímpica não puderam estar aqui em Tóquio conosco nesta semana, incluindo os moradores afetados pelo desenvolvimento, policiamento e deslocamento do Rio 2016.

Então eles nos enviaram uma mensagem de solidariedade. @museu_remocoes

Além do protesto, houve um coletivo de imprensa, uma série de uma semana de reuniões educacionais e estratégicas entre os mobilizadores de diversos países, e o barulho das mídias sociais transnacionais, tudo gerando significativa atenção da mídia. No início da semana, organizadores e ativistas de Tóquio discutiram a dificuldade de atrair uma cobertura midiática simpatizante ou até mesmo moderadamente crítica sobre as Olimpíadas. Mas com várias reportagens sobre o protesto postados em publicações nacionais e internacionais, Misako concluiu com orgulho: “Fomos nós que transformamos a opinião da mídia”.

Agora, o desafio é aproveitar a energia da marcha, canalizando o conhecimento existente entre os diversos grupos anti-Olimpíadas para uma aliança transnacional duradoura e eficaz, que não apenas lute contra as Olimpíadas, mas lute pelo poder comunitário em todo o mundo.

Cerianne Robertson hoje é participante do NOlympics LA. As fotos são dos organizadores de Los Angeles Justin Gaar e Jun Ampig.