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Festival ‘Periferia Tem Potência’ Traz Arte e Celebra Literatura nas Periferias, no Galpão da Maré

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No dia 17 de dezembro, o centro de artes Galpão Bela Maré realizou o Festival Periferia tem Potência, em parceria com o Observatório de Favelas, o Instituto Maria e João Aleixo (IMJA) e a Biblioteca Parque Estadual. Os participantes se reuniram na Maré, Zona Norte, para homenagear criações artísticas—principalmente a literária—das periferias através de rodas de conversas, jogos e exposições.

O Impacto da Arte

Logo na chegada ao Galpão Bela Maré, os visitantes foram transportados para um outro mundo graças ao projeto Escola Livre das Artes (ELA) e sua exposição O Nome que a Gente Dá às Coisas. A partir de uma iniciativa do Observatório de Favelas em parceria com o Galpão Bela Maré, a Automática Produtora de Arte Contemporânea, e do Parque Lage, a escola propôs a 25 jovens artistas de favelas e periferias que participassem de uma formação artístico-pedagógica. O objetivo era criar um espaço de expressão de vozes e pensamentos sobre a sociedade moderna. O resultado foi uma exposição farta e emocionante, composta de fotografias, pinturas, textos, instalações e vídeos. A exposição mostra ao público às experiências e reflexões dos artistas sobre a questão do poder, da memória, da sexualidade, de gênero e da negritude com o potencial de inspirar, impulsionar e renovar seus territórios. A exposição estará aberta ao público até 1 de fevereiro de 2020.

Literatura, Poesia e Brincadeiras em Periferias

Em seguida, os visitantes foram convidados a participar de uma roda de conversa sobre “Literatura e Periferia”. A conversa foi animada por Osmar Paulino do Festival FAIM, juntamente com Lizandra Cordova da Baixada Literária e de Gabriel dos Santos do Slam BXD. Os três artistas falaram sobre seus projetos e histórias com o objetivo de mostrar, aos jovens convidados—do Centro Cultural Cine e Rock, originário de Rio das Pedras na Zona Oeste—a gama de possibilidades para quem se dedica à área literária em periferias.

Morador da Baixada Fluminense, Gabriel relatou suas dificuldades em participar das batalhas de slam, que sempre ocorriam na Zona Sul ou no Centro. Em 2018, ele finalmente se dedicou a organizar competições na própria Baixada, para democratizar o acesso ao slam. “Porque slam é a desculpa mais democrática para juntar pessoas”, diz Gabriel. “Só tem uma regra, cada um tem 3 minutos para apresentar sua poesia”. Baseada em Nova Iguaçu, a iniciativa Baixada Literária, tem o mesmo objetivo. Graças a sua rede de bibliotecas comunitárias, a Baixada Literária atua para democratizar o acesso à literatura nas periferias. Osmar concluiu a conversa perguntando para cada jovem do Cine e Rock seus sonhos futuros e explicando a importância que “cada um possa escolher entre as multitudes de possibilidades”.

Em paralelo, Jaciana Melquiades de Era Uma Vez o Mundo, formou uma roda com as crianças mais novas do Cine e Rock, para discutir as heranças dos povos escravizados na cultura brasileira. Em seguida, ela propôs a atividade Brincadeiras Artesanais Afrocentradas, como o jogo moçambicano chamado terra e mar, que gerou momentos de aprendizado e diversão.

Depois de uma pequena pausa, os visitantes foram convidados a assistir à projeção do filme “Carlos de Assumpção: Protesto” do cineasta Alberto Pucheu. No filme—que tem como referência o seu famoso poema Protesto, escrito em 1958—o poeta afro-brasileiro fala sobre suas atividades literárias que sempre servirem à resistência negra. Apesar da sua obra e seu empenho na resistência por toda sua vida, Carlos de Assumpção, que já chegou aos 92 anos, até hoje é quase desconhecido no meio literário.

Ao mesmo tempo, a oficina Pensamento Crítico na Escrita foi dada pela escritora Lu Ain-Zaila. Depois de apresentar o seu trabalho sobre o afrofuturismo—teoria que imagina um futuro no qual a população negra seria livre e pensante—Lu Ain explicou que a escrita não é neutra. Na escrita, se traduz as questões de poder e de dominação. Mas graças ao pensamento crítico, que Lu Ain definiu se referenciando ao educador Mario Cotella como: “o exercício inteligente da suspeita”, a escrita pode se tornar uma ferramenta de transformação social.

O Livro Como um Instrumento de Potência

Em seguida, todos os visitantes se reuniram com Pedro Gerolimich, Jaílson Sousa e Silva, Jorge Barbosa e Rodrigo Santos para o lançamento da editora EDUNIperiferia. Juntos, eles falaram da importância de criar uma editora na periferia, como um meio de trazer a literatura à periferia e também como um ato altamente político de resistência, que insere a existência das periferias na literatura. Rodrigo lembrou dos livros que lia quando criança: “Nesses livros, eu não lembro de ver um lugar, uma pessoa parecida comigo”. De acordo com Rodrigo, os livros são essenciais para “registrar nossos vividos, nossas histórias” e para “mover a cultura local”. Neste sentido, Rodrigo decidiu escrever Macumba, uma ficção policial, que faz um retrato das periferias brasileiras com forte presença das religiosidades afro-ameríndias.

Finalmente, o primeiro dia do festival foi encerrado com chave de ouro com uma batalha de poemas do grupo Slam Maré Cheia e música da DJ Bieta.

E a Festa Continua…

A segunda parte do festival foi realizada no dia 19 de dezembro 2019 na Biblioteca Parque Estadual no Centro. Naquela noite, os organizadores convidaram, entre outros, os autores Alice Pereira e Marcus Diniz da cena LGBT para apresentarem os seus livros e discutirem sobre a marginalização e o desejo de ser representado na literatura numa forma autêntica e sem estereótipos e hipersexualização. Em seguida, houve música, um espetáculo teatral de um grupo de jovens, o Slam Akewí, e rodas de conversa em paralelo.

Para encerrar o Festival, o Instituto Maria e João Aleixo e a UNIPeriferias lançaram a quarta edição da sua Revista Periferias. A Revista Periferias é uma publicação semestral que reúne pesquisadores e artistas internacionais para pensar temáticas periféricas que fomentam a consciência da potência das periferias. Sob o título Escola Pública: Potências e Desafios, essa nova edição oferece a seus leitores uma colaboração entre pesquisadores e fotógrafos nacionais e internacionais que tratam das questões de gênero, desigualdade, racismo e vulnerabilidade das crianças no meio educativo.

O Festival Periferia Tem Potência reuniu artistas de diversas áreas que inspiraram com suas obras e deram novos impulsos, ideais e visões a partir da perspectiva periférica.


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