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Bloco ‘Se Benze Que Dá’ Desfila na Maré e Reafirma Direito à Cidade e à Memória [IMAGENS]

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O bloco de carnaval “Se Benze Que Dá”, desfilou no último dia 29 de fevereiro pelas ruas do Complexo da Maré.

O dia nublado não impediu os moradores e moradoras de cantarem e se divertirem pelas favelas que compõem o território.

O clima era de muita alegria já na concentração do bloco, que aconteceu na Rua São Jorge, na Nova Holanda, uma das 16 comunidades que compõem o Complexo da Maré.

Desde o aquecimento da bateria até o final do desfile, crianças e outros moradores se juntaram à festa, chamando atenção e arrancando sorrisos de todos os que estavam no entorno.

O bloco, criado em 2005 por um grupo de moradores que incluía Marielle Franco, vereadora e moradora da Maré assassinada em 2018, e Renata Souza, atualmente deputada estadual e também moradora da Maré, está em sua 15ª edição.

Junto com a bateria que ia acompanhando os foliões havia um boneco caracterizado de Dona Orosina, primeira moradora da Maré, resgatando a memória local e animando as crianças que por ali passavam.

Renata Souza, que esteve presente nessa 15ª edição, disse que o bloco é importante para reafirmar o direito de ir e vir dos moradores.

“A ideia surge como uma possibilidade de ultrapassar com alegria e samba as barreiras impostas pelos grupos armados na Maré que disputam o território, pelo direito de ir e vir. Mas isso só foi crescendo como bandeira política-cultural, com a ocupação na rua com o debate sobre a cidade”, disse ela.

E continuou: “Por isso, os sambas sempre resgatam a memória da Maré e fazem críticas sociais, em especial contra a política de segurança que não garante a dignidade humana na favela. Sempre fazemos oficinas de cartazes com as crianças sobre as opressões e reivindicações da favela. E o nosso lema é: ‘Vem pra rua morador’. Uma contraposição às ordens policiais durante operações que indicam: ‘Sai da rua morador’.”

“E o nosso símbolo é a folha de arruda para nos proteger e guardar a nossa passagem, por isso: “Se Benze Que Dá”, finalizou ela.

Mônica Cunha, da Rede de Mães Contra a Violência, que perdeu seu filho há 14 anos para violência de Estado, prestigia o bloco.

Geandra Nobre, da Cia Marginal, companhia de teatro da Maré, anima geral.

Leonardo Melo, mareense que participa do bloco desde sua primeira edição, disse: “A motivação principal para a criação do bloco foi dificuldade de circulação interna de seus moradores entre as diferentes comunidades que constituem a Maré. Quando dizemos que a nossa meta é atravessar toda a Maré, algumas pessoas riem e nos chamam de loucos. A resposta não poderia ser outra: ‘Se Benze Que Dá!'”, continuou ele.

O bloco “Se Benze Que Dá” demostrou que, além de um desfile de carnaval, é também um ato político, porque convida os moradores e moradoras a tomar as ruas da sua comunidade, mostrando que a favela também é lugar de festa e de lazer.

“O Bloco tem se firmado como um importante movimento de resistência cultural e de contestação acerca da criminalização da pobreza e dos movimentos sociais”, disse Leonardo.

Sobre as dificuldades enfrentadas para a realização dos desfiles, Leonardo diz não diferirem muito das enfrentadas pelos outros blocos da cidade. “Não temos apoio nenhum, seja do poder público ou de organizações privadas. Em um dos nossos sambas cantamos ‘sem dinheiro, alegoria ou ensaio, não desistimos de desfilar’. Essa tem sido a nossa história”.

Diferente de outros blocos, no entanto, o “Se Benze Que Dá” tem uma história que “se confunde com a história urbana do Rio de Janeiro“, segundo Leonardo. “Já pegamos o período das UPPs, da ocupação militar na Maré, o ciclo dos megaeventos. Sofremos com as gestões do César Maia, Eduardo Paes, Sérgio Cabral, Pezão. Testemunhamos os acertos e desacertos dos governos Lula e Dilma (a ocupação militar, por exemplo, foi na época deste último governo), passamos pelo golpe parlamentar no período do Temer. E agora temos aí Bolsonaro, que é contra tudo o que o bloco acredita. Isso sem falar nas epidemias de dengue e agora do coronavírus. Tudo isso afeta a Maré frontalmente, pois o descaso urbano é grande”.

Ele completou: “Enfim, tudo isso virou e vira insumo para a criação de sambas e desfiles com tom crítico, que nos ajudam a cobrar ações do poder público na Maré. Com isso trabalhamos a ideia de ‘diversão sem alienação'”.

“E é com essa mensagem que procuramos nos manter ligados uns aos outros e com a nossa Maré, que é um dos lugares mais incríveis do Rio de Janeiro. Falar da Maré como um local de resistência talvez seja a mensagem principal que temos construído coletivamente!”, finalizou ele.

Gabriel Loiola é cria do Complexo do Alemão, fotógrafo, publicitário e atuou no projeto da Praça do Conhecimento da Nova Brasília.


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