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Nilton ‘Diquinho’ Gomes Pereira, uma Vida Revolucionária Dedicada às Favelas: 1949-2020

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Esta é a nossa mais recente matéria sobre o novo coronavírus e seus impactos sobre as favelas, e o primeiro obituário jornalístico publicado no RioOnWatch.

Com a suspensão de seu pré-vestibular em meados de março por conta da pandemia da Covid-19, Nilton Gomes Pereira, conhecido carinhosamente como Diquinho, transformou sua laje em um armazém para doações. O terraço de concreto que Diquinho usou para ensinar de tudo, desde gramática portuguesa a sociologia e revolução proletária, passou a abrigar cestas básicas e kits de higiene destinados para as famílias do Complexo do Alemão.

Sua casa, uma unidade de um conjunto de apartamentos entranhado no Morro da Baiana, uma das favelas que formam o Complexo do Alemão, agora se encontra vazia. Com 71 anos de idade, Diquinho faleceu tragicamente no dia 14 de abril, provavelmente por conta do coronavírus e de um sistema de saúde sobrecarregado.

Perguntando hoje à comunidade, Diquinho é melhor conhecido por seu pré-vestibular, sua presença sempre certa em eventos comunitários e sua defesa incondicional da classe trabalhadora. Um auto declarado Trotskista-Leninista, Diquinho, que morou na favela há mais de 50 anos, nunca deixou de se rebelar contra a opressão da classe burguesa, reafirmando a farsa da política partidária brasileira até seus últimos suspiros.

Longe de ser anacrônico, seus amigos advertem, ele era, no sentido mais verdadeiro da expressão, um membro da velha guarda: um grupo cada vez menor de moradores de favelas revolucionários que lançou as bases para os atuais coletivos comunitários e grupos de defesa dos direitos humanos, garantindo a própria existência das favelas pelo Brasil.

Infância e Juventude

A vida no interior de Minas Gerais expôs Diquinho a questão da luta de classes ainda cedo. Filho de um trabalhador sem terra, Diquinho contaria mais tarde que sua família foi forçada a se mudar para a cidade vizinha de Caratinga depois dele completar sete anos. Um fazendeiro havia apreendido um lote de café cultivado pelo pai de Diquinho, que por sua vez o processou por perdas e danos, mas acabou perdendo no tribunal.

Apesar de seu pai ter encontrado trabalho rapidamente como assistente de pedreiro em Caratinga, ganhando o suficiente para cobrir a escola primária dos filhos, o ensino médio de Diquinho foi interrompido quando a bolsa que ele recebia do governo foi cortada. Até então, Diquinho já havia começado a trabalhar em uma fábrica têxtil, antes de aprender tipografia aos 13 anos. A profissão iria garantir a ele uma fonte de renda contínua pelo resto de sua vida.

No ano em que Diquinho se mudou com sua mãe e irmãos para o Rio de Janeiro, em 1967, a ditadura militar brasileira já havia abolido partidos políticos e ratificado uma nova e opressora constituição. Tendo destituído o Presidente João Goulart em um golpe supostamente temporário três anos antes, o regime militar deixou claro desde então que não iria a lugar nenhum. Para movimentos de oposição, incluindo grupos armados como o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), isso marcaria o começo de uma resistência ativa e subterrânea. Para Diquinho, que acabava de completar 18 anos, era o início de um despertar político.

Se estabelecendo no crescente bairro do Complexo do Alemão com sua mãe e irmãos, Diquinho seguiu com seu trabalho como tipógrafo e começou a participar de reuniões do sindicato, depois fazendo contato com membros do MR-8. Logo, com vinte e poucos anos, Diquinho se juntou com quatro ativistas do MR-8 que estudavam na UFRJ. Juntos, os cinco trabalharam para fundar uma escola preparatória para o ensino médio voltada para adultos. Diquinho, que por sua vez nunca completou o ensino médio, participou das aulas ministradas pelos estudantes universitários pelos próximos ano e meio, mergulhando na questão do treinamento político. Ele iria se integrar formalmente ao MR-8 em 1974, participando na Associação de Moradores Joaquim Queiroz (Grota) pelo próximo ano. Lá, na associação, Diquinho enfrentou o governo e agências de serviços públicos, lutando por melhorias na infraestrutura sanitária e por uma cobrança justa da energia elétrica para a favela. A mobilização de Diquinho no Complexo do Alemão logo chamou a atenção da Federação de Favelas do Estado do Rio de Janeiro (FAFERJ).

Tomando de Volta a FAFERJ

Fundada em 1963, a FAFERJ (inicialmente chamada de Federação das Associações de Favelas do Estado da Guanabara, FAFEG), se tornou um alvo imediato da ditadura. Com a imposição do Ato Institucional Nº 5 em 1968, uma medida que concedeu poderes arrebatadores ao executivo e efetivamente dissolveu as garantias individuais, o Estado ampliou suas perseguições políticas, conduzindo prisões em massa de figuras da oposição. Na medida em que a tortura, desaparecimentos forçados e homicídios se tornaram corriqueiros, a FAFERJ perdeu sua base de sustentação, recaindo sob o controle rígido do Governador Antonio Chagas Freitas, alinhado com a ditadura. O órgão de caridade do governador, a Fundação Leão XIII, tomou as rédeas da liderança interna da federação, adotando uma relação clientelista com as associações de moradores de favelas para impulsionar políticas de remoção ao invés de urbanizá-las.

Foto: 1980, da esquerda para a direita: Arnaldo, José de Arimatéia, Irineu Guimarães, um membro da FAFERJ, e Diquinho. Foto – Eladir Nascimento via Irineu Guimarães.

Na ocasião em que Diquinho concorria para uma posição no conselho de diretores da FAFERJ em 1979, a Federação havia falhado em proteger mais de 100.000 moradores de favelas de uma onda de remoções no final dos anos 1960 e início da década de 1970. Tentativas de remover a favela do Vidigal na Zona Sul da cidade—posteriormente frustradas por um time de moradores organizados, advogados, e uma visita crucial do Papa João Paulo IIforam contínuas. Confortável com seu papel de presidente da FAFERJ, escolhido por Chagas Freitas, Francisco Souza não se esforçou para realizar eleições após o término do seu mandato em 1978. Percebendo uma oportunidade, Diquinho e outros começaram a se movimentar.

Um grupo que incluía o Comitê da Pastoral de Favelas da Igreja Católica, o MR-8 e o Partido Comunista do Brasil (PCB) exigiu eleições para que uma nova diretoria assumisse em 1979, recrutando o líder comunitário Irineu Guimarães da favela do Jacarezinho na Zona Norte para presidente e Diquinho para vice. Quando a chapa venceu com folga, Souza e a Fundação Leão XIII se recusaram a reconhecer os resultados, decretando que sua escolha, Jonas Rodrigues, iria assumir a presidência. Pelos próximos ano e meio, as “duas FAFERJs” se enfrentaram na mídia e pessoalmente, enquanto a “FAFERJ 1” (apoiada pelo Estado) e a “FAFERJ 2” (eleita pela oposição) lutavam pelo título de representante legítimo das favelas do Rio.

À medida em que a ruptura pública se intensificava, o duo Guimarães-Diquinho e a Pastoral de Favelas tiraram vantagem da crescente imagem não-representativa e anti-democrática da FAFERJ 1. Trabalhando para encontrar e consolidar as associações de moradores das favelas por toda a cidade, focando nas favelas da Zona Oeste e da área da Leopoldina, na Zona Norte, Diquinho pressionava não só por uma consolidação institucional, formalizando a documentação básica das associações, mas também pelo aprofundamento da conscientização política e do engajamento democrático. 

Um exemplo emblemático do trabalho do Diquinho foi o caso do Morro da Baiana, que, apesar de já estar ocupado em 1961, foi submetido a um processo de remoção em 1980. Como resposta, além de assumir a tarefa árdua de coletar a documentação dos moradores para comprovar a posse, Diquinho ajudou a montar uma ocupação. Convocado devido a sua posição na diretoria da FAFERJ, Diquinho reuniu uma equipe de membros da FAFERJ, um padre local da Igreja de São Geraldo, em Olaria, e o delegado da Polícia Civil Hélio Luz (Luz, que depois se tornou Chefe da Polícia Civil no estado, chegou a expulsar um grupo da Polícia Militar que chegou sem mandato), que acamparam durante a noite na encosta do morro. Ele iria depois ajudar a fundar a Associação de Moradores do Morro da Baiana.

A unificação da FAFERJ, no entanto, não iria se consolidar até 1982 com um compromisso mediado por Chagas Freitas que reconhecia Guimarães como presidente oficial da FAFERJ, sob a condição de manter entrincheirado o controle interno da Fundação Leão XIII. O MR-8, buscando construir alianças inter classes na medida em que o Brasil se movia em direção à redemocratização, apoiava o compromisso. Para Diquinho, ainda firmemente comprometido com a implementação do socialismo, isso foi a gota d’água. Ele se separou oficialmente do MR-8 logo após isso, rompendo com o partido de oposição PMDB e deixando a diretoria da FAFERJ.

Ele retornaria três anos depois quando o candidato à presidência da FAFERJ Nahildo Ferreira venceu as eleições da Federação de 1985 com uma diretoria que incluiu Diquinho e outras lideranças comunitários em ascensão como Itamar Silva e Eliana Sousa Silva. O grupo conseguiu reformar o estatuto da FAFERJ, tornando a eleição da diretoria, pela primeira vez, sujeita ao voto direto dos moradores de favelas filiados às associações de moradores. Diquinho iria depois colocar seu próprio nome no bilhete eleitoral da FAFERJ em 1988, perdendo para Guimarães na primeira eleição democrática da Federação.

No pano de fundo, em 1982, Leonel Brizola do Partido Democrático Trabalhista (PDT) se tornou o primeiro governador democraticamente eleito do Rio de Janeiro desde 1965. Diquinho, que fracassou em uma tentativa de se candidatar como deputado estadual no Rio de Janeiro pelo PDT em 1986, depois se juntou ao governo Brizola em seu segundo mandato de 1991 a 1994. Trabalhando na Comissão de Assuntos Fundiários do Estado, Diquinho novamente prestaria auxílio aos moradores de favelas na consolidação dos documentos de posse e protegendo comunidades da remoção. Não ocorreram processos de remoção de favelas sob o governo do Brizola ou de seu sucessor, Marcello Alencar.

Diquinho entrou na política uma última vez com a eleição de Hélio Luz para deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores (PT) em 1998, trabalhando no gabinete de Luz em 2003, e posteriormente se filiando ao PSOL (Partido Socialismo e Liberdade). Os próximos anos iriam trazer uma enorme desilusão tanto com os partidos políticos quanto com as associações de moradores de favelas que ele trabalhou duro para fundar. Partidos de esquerda, segundo Diquinho, incluindo o PSOL, haviam abandonado a causa revolucionária; e associações de moradores se tornaram presas fáceis para interesses políticos ou caíram sob o controle do tráfico de drogas.

Para Diquinho, a única esperança remanescente está no trabalho de base: na luta pelas demandas de moradores de favelas, na formação de comitês organizadores, e no treinamento político. Portanto, quando o governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou R$600 milhões em serviços públicos para o Complexo do Alemão sob o Programa de Aceleração de Crescimento (PAC), agendado para ter início em 2008, Diquinho começou a trabalhar.

Evitando o diálogo com associações de moradores locais, Diquinho trabalhou através de uma série de comitês já existentes ou recém criados para desenvolver uma agenda propositiva das demandas dos moradores a serem incluídas nos trabalhos do PAC e apresentou-as diretamente aos coordenadores do programa. Isso incluiu o Conselho Popular do Complexo do Alemão, um grupo co-fundado por Diquinho em 2009; o Comitê de Desenvolvimento Local da Serra da Misericórdia (CDLSM-RJ), um grupo criado em 2000; e comitês de saúde e educação recém formados.

As demandas do grupo para o PAC incluíram uma exigência ferrenha por abastecimento de água, saneamento formal e pavimentação das ruas. Os resultados finais do PAC, apesar de haverem completado algumas das áreas de lazer e educação que Diquinho tinha esperado, também incluíram um teleférico extremamente caro e que logo estaria inoperante. Melhorias no saneamento, abastecimento de água e pavimentação foram deixadas de lado em vastas áreas do Complexo do Alemão.

O evento aprofundou a decepção de Diquinho com o engajamento tradicional na governança do Estado, além de sua convicção na ideia de que a mudança real somente viria com a revolução. Ao invés de abandonar a esperança, Diquinho concentrou seus esforços na educação e treinamento de uma nova geração de líderes comunitários no Alemão. Após co-fundar o Conselho Popular do Alemão—baseado em um modelo similar da Pastoral de Favelas no Rio—ele lançou o curso de pré-vestibular do Conselho menos de um ano depois. Pelos próximos dez anos, ele iria ensinar, discursar, organizar e protestar ao lado de uma nova geração de líderes comunitários.

Treinando uma Nova Geração

Ex-alunos atribuem a Diquinho o crédito pelos seus primeiros sentimentos de um despertar político e consciência de classe. Diquinho chamou a atenção de seus alunos para intelectuais negros como Abdias Nascimento e Lélia Gonzalez e os presenteou com histórias da resistência do MR-8 contra a ditadura militar. Integrantes de projetos sociais como o Ocupa Alemão e a Escola Quilombista Dandara de Palmares consideram Diquinho um ator fundamental de sua fundação. A organização histórica de longa data do Complexo do Alemão Raízes em Movimento, se comprometeu a manter sua memória viva, enfatizando que a história de Diquinho é uma das mais impactantes não só para o Alemão ou para o Rio mas também em nível nacional.

Em entrevistas ao RioOnWatch, amigos, colegas e aliados o chamam de “um revolucionário abnegado”, “uma relíquia para gerações futuras”, “um autodidata de verdade”, “dedicado”, “implacável na luta pelo socialismo”, “fundamental na construção do movimento das favelas no Rio”, um homem de “projeções nacionais”, e “grande companheiro”. Em seus últimos dias, ele se voltou contra o governo e a onda de ataques a um sistema de saúde esgotado; em seu tratamento nos postos de saúde do Alemão e Manguinhos, ele sequer foi testado para a Covid-19.

Ele morreu em sua casa no Morro da Baiana, em uma favela que ele moldou com suas próprias mãos, cercado pela juventude da favela que ele treinou e educou. Diquinho não teve filhos. “Um verdadeiro militante”, disse ele numa entrevista em 2013, “ele não é dono de si. A causa é dona dele”.

Referências e leituras adicionais:


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