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Manifestantes Protestam em Frente ao Carrefour Norte Shopping Contra Morte de João Alberto #OQueDizemAsRedes

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Esta matéria faz parte da série #OQueDizemAsRedes que traz pontos de vista publicados nas redes sociais, de moradores e ativistas de favela, sobre eventos e temas que surgem na sociedade. 

Ativistas começaram protesto em frente ao supermercado do Norte Shopping e seguiram pela Avenida Dom Hélder Câmara

Cerca de 200 manifestantes protestaram na tarde de domingo (22/11), às 15h, em frente ao supermercado Carrefour Norte Shopping, Zona Norte do Rio de Janeiro, contra o assassinato de João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos. João Beto, como era conhecido, foi espancado e morto por dois seguranças brancos da empresa Grupo Vector, que presta serviço de segurança patrimonial para a Rede Carrefour, na véspera do Dia da Consciência Negra, última quinta-feira. Ativistas ergueiram faixas e cartazes em três línguas—português, inglês e francês—e leram discursos nos três idiomas.

Cartazes com frases de protesto como “Vidas Negras Importam“, “Parem de Nos Matar“, “Justiça para Beto! Carrefour tem as mãos sujas de sangue negro”, foram erguidos pelos manifestantes, e as frases foram gritadas a todo momento. A principal reivindicação dos atos antirracistas contra a morte de João Alberto Freitas—que segundo o laudo da perícia, foi morto por asfixia diante da mulher, Milena, que cobra justiça—é a demissão do CEO da Rede Carrefour no Brasil, Noel Prioux.

No sábado, Noel Prioux gravou em vídeo um comunicado divulgado em horário nobre, por volta das 21h, na televisão aberta. No comunicado lamentou a morte do soldador João Beto, afirmando que: “O que aconteceu na loja do Carrefour foi uma tragédia de dimensões incalculáveis”. No ato de domingo no Rio de Janeiro, uma placa que dizia “estamos funcionando normalmente” foi pichada e transformada em “estamos matando normalmente”.

O crime foi cometido diante das câmeras de celulares de clientes, que publicaram a imagem da cena nas redes sociais. Uma funcionária branca também da rede Carrefour filmou todo o ato criminoso dos seguranças, mas ela tentou intimidar e impedir a gravação da cena pelas testemunhas, ao menos quinze. O ato de denúncia do racismo, realizado em frente à loja Carrefour Norte Shopping, se somou a atos em seis cidades contra a rede no Brasil.

“Todo mundo sangra com a mesma cor, mas nem todo mundo sangra por ter cor no Brasil, somente nós negros. Vidas Negras Importam!”, protestou Seimour Souza, coordenador da Uneafro-RJ e assessor parlamentar.

“What am I gonna do? I need to fight! It’s a message for you #CarrefourMurderer. My Black Skin is power. So listen to me: Stop killing me!” #BlackLivesMatter”, discursou uma das manifestantes, em inglês.

O protesto começou em frente ao supermercado, diante de um portão fechado que dizia estar “em manutenção”. Com isso, os ativistas não conseguiram entrar dentro da loja para protestar e se mantiveram em frente a porta principal do supermercado. Uma lojista comentou no Twitter que, no dia anterior, as portas do estabelecimento funcionavam normalmente.

Às 16h, o supermercado foi totalmente fechado e o grupo começou a circular pelo shopping, gritando “Assassino Carrefour”. Muitos dos clientes do shopping aderiram a manifestação e se juntaram ao grupo, passando a circular com os ativistas. O protesto não teve qualquer ato violento pelos manifestantes.


“Nós temos voz e a gente fez ela ser ouvida em inglês, francês e português. Se eles não ouvem, a gente grita e nosso grito é organizado. Parem de nos matar! Vamos gritar em quantos idiomas forem necessários. Eu estou aqui para pedir respeito aos nossos corpos e ao nosso sangue. Não só no dia 20 [Dia da Consciência Negra], mas no dia 19, 18, porque o assassinato de Beto mostra como nossa luta e nossos corpos precisam de paz todos os dias”, disse Renata Nunes, moradora da Cidade de Deus, na Zona Oeste, em live pelo canal do Instagram @JotaMarques.

“A gente só tem noção do caso do Beto, que ele foi assassinato sem contestação, porque alguém filmou ao mesmo tempo que uma funcionária branca estava filmando a cena de forma criminosa. Filmar é importante para denunciar esses fatos violentos. Foi só com o vídeo que a gente conseguiu fazer isso: botar o povo na rua, mostrando que racismo existe. E não tem volta, a violência racista não passará! Chega de genocídio do povo preto”, afirmou Raull Santiago, ativista de direitos humanos e integrante do Coletivo Papo Reto.

Diversos manifestantes pediam nas lives de cobertura do protesto para os espectadores seguirem acompanhando a transmissão para segurança dos ativistas a partir da visibilidade. Depois de caminharem pelos corredores do Norte Shopping, seguiram em direção a Avenida Dom Hélder Câmara, uma das principais vias da região, que dá acesso a principal entrada do shopping, às 17h, entoando: “Marielle perguntou e eu também vou perguntar: Quantos mais vão ter que morrer para essa guerra acabar?!”.

Coalizão Negra Por Direitos Exige Investigação do MPF

A Coalizão Negra por Direitos, articulação que reúne 160 organizações e coletivos do movimento negro e antirracista de todo o Brasil, entrou com representação no Ministério Público Federal (MPF) e no Ministério Público do Rio Grande do Sul para investigação da morte de João Alberto Silveira Freitas, de acordo com notícia do portal UOL. Em nota de repúdio publicada no domingo (22/11), a Coalizão afirma que racismo no Carrefour é um caso recorrente.

“O vídeo que circula nas redes sociais não deixa dúvidas sobre a covardia do ocorrido. Dois seguranças do supermercado Carrefour, sob o olhar de um policial militar fora de serviço, espancam até a morte um homem negro sem nenhuma possibilidade objetiva de se defender. Não é a primeira vez, a rede de supermercados Carrefour é reincidente em casos de violência racial, e portanto precisa ser responsabilizado por essas práticas”, diz a nota.

Wania Sant’anna, 50, historiadora e pesquisadora de gênero e relações raciais, integrante da operativa da Coalizão Negra do Rio de Janeiro, representando a Casa Ilê Omolu Oxum, afirma: “É um problema grave a terceirização da segurança patrimonial em empresas de varejo. Trabalhei por mais de dez anos como consultora de diversidade para grandes empresas e digo que é um escândalo o quadro. Empresas de segurança privada contratam profissionais que trabalham de bico, eles não são treinados ou recebem qualquer orientação de direitos humanos”.

“Eu não quero saber se o Carrefour tem mais de 50 funcionários negros. Eu quero saber quanto ele lucra e quanto ele paga para sua segurança patrimonial, que tipo de treinamento dá. Abrir a loja duas horas mais tarde dizendo que vai dar treinamento antirracista não é solução”, completa Wania.

Para ela, o supermercado deve ser responsabilizado criminalmente pela morte de João Alberto Silveira Freitas. “O Carrefour é responsável por um caso de assassinato. Ele sai andando levado por um segurança quando estava de frente ao caixa. Ele é conduzido até o estacionamento e ali ele é agredido violentamente e excessivamente até morrer”.


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