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Artistas Perguntam como Apoiar a Cultura da Favela no Primeiro Fórum Cidade, Favela e Patrimônio

Fórum Cidade, Favela e Patrimônio.

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Essa matéria faz parte de nossa parceria com o The Rio Times. Para a matéria publicada no The Rio Times, em inglês, clique aqui.

A riqueza do talento artístico do Rio de Janeiro inclui muitas vozes sub-representadas das favelas, cujos trabalhos deveriam e podem estar disponíveis para um público mais amplo, de acordo com uma coalizão de artistas de favela e historiadores que se apresentaram no primeiro Fórum Cidade, Favela e Patrimônio. O Fórum anual de três dias discutiu, em novembro de 2020, os desafios e as possibilidades de coordenação.

Museu de Favela (MUF)

O encontro estava incluído na programação do 27º Congresso Mundial de Arquitetos, agendado para 2020 no Rio de Janeiro, mas adiado para 2021 devido à pandemia do coronavírus. No Fórum virtual de novembro, realizado pelo Museu de Favela nas favelas do Cantagalo e Pavão-Pavãozinho, os convidados foram convocados a debater propostas para construir uma cidade mais integrada, fortalecendo uma rede efetiva na área do patrimônio público e desenvolvendo políticas para o urbanismo sustentável. O encontro também incluiu performances virtuais de artistas de favela como Misturando Som, Ludi Um e o Coletivo Amas de Leite.

Anúncio do Encontro Anual do Fórum Cidade, Favela e Patrimônio

O Fórum visa exaltar os trabalhos como o de Dona Tuca, poeta da favela, de 85 anos, que começou a escrever poesias em pedaços de papel que ela trazia para uma amiga, a empregada doméstica aposentada Valéria Barbosa. Barbosa guardou as páginas e as encadernou para dar de volta à amiga poeta. Logo depois, Dona Tuca ganhou um prêmio por sua obra, e o dinheiro da premiação foi usado para produzir as cópias de seu livro de poemas.

Ao longo do seu primeiro encontro anual, o Fórum trabalhou em conjunto para a construção de um plano em comum que pudesse amplificar vozes como a de Dona Tuca, bem como aquelas de outros artistas de favela que apresentaram suas performances durante o evento e que ainda são desconhecidos para o grande público.

Jefferson Placido, que se apresenta sob o nome de Samba Nonsense, participou do Fórum. Foto da página do Facebook do Samba Nonsense.

Uma razão central para que estes artistas não sejam amplamente conhecidos é a falta de recursos para seguirem no campo das artes. Membros do Mulheres de Pedra—um coletivo de mulheres da Zona Oeste do Rio que tem trabalhado com artes e cultura por quase duas décadas—enfatizaram que, embora a pandemia possa ter dado motivos aos moradores da favela para permanecerem dentro de casa, a possibilidade de passar tempo escrevendo ou pintando parece distante para aqueles com renda limitada.

Misturando Som se apresentando no evento 'Fórum Cidade, Favela e Patrimônio'

Valéria Barbosa, criadora do Sarau na Favela, partilhou das mesmas preocupações, questionando: “Dona Tuca conseguiu comprar uma estante para deixar suas cópias. Mas sem que elas estejam nas livrarias, para quem ela vai vender?” Dona Tuca, que não tem um telefone e não terá condição de carregar seus livros em uma mochila e vendê-los de porta em porta, pode ter tempo para escrever durante sua aposentadoria, mas falta a ela oportunidades para vender seu livro.

Para superar este problema, participantes do Fórum prometeram usar as mídias sociais para apoiar eventos culturais realizados por moradores de favelas, trabalhar para estabelecer infraestruturas culturais nas favelas e mapear o trabalho cultural que está sendo feito, que tem sido atualmente promovido de forma dispersa.

O arquiteto e urbanista Wagner Vils descreveu como a concessão de títulos de terra nas localidades é crucial para que organizações de favelas sejam registradas como negócios e organizem melhor o dinheiro que recebem por sua arte, utilizando-o para fomentar mais trabalho criativo. “Quando você tem o título de sua terra, [há maior] possibilidade de desenvolver um centro. Você precisa de ajuda administrativa, há a questão dos incentivos fiscais, de acesso a financiamento, e [a falta do título] torna [isso] um pouco mais difícil, para as favelas, serem centros que podem atrair mais investimentos, em qualquer área”.

Organizadoras do evento têm se planejado março. Foto por 'Fórum Cidade, Favela e Patrimônio'Eber Marzulo, professor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e coordenador do Grupo de Pesquisa Identidade e Território, trouxe um ponto adicional: ele disse que moradores da favela também têm o direito de demandar investimento público e financiamento para aquilo que consideram importante ser preservado. “O Brasil tem um dos sistemas fiscais menos justos do planeta, no qual todos pagam a mesma porcentagem. Então, se todos nós pagamos taxas, nós temos o direito de exigir mais do Estado”, afirmou.

“As políticas públicas deliberadamente negligenciam as favelas”, disse Marzulo, acrescentando que a pandemia da Covid-19 exacerbou os desafios que elas enfrentam. Essa opinião foi amplamente partilhada entre os participantes do evento. Muitos coletivos em favelas tiveram—e continuam tendo—que se reinventar, a fim de cuidarem das necessidades básicas dos moradores, distribuindo alimentos básicos e kits de higiene para famílias que não têm como comprá-los.

Ao longo da pandemia, ativistas das favelas têm reforçado que é importante não deixar os sentimentos de solidariedade os impedirem de responsabilizar representantes do governo pelo trabalho que precisa ser feito. Em uma aula online sobre a memória nas favelas, apresentada no início do último ano, Maria da Penha, do Museu das Remoções, na Vila Autódromo, disse: “Nós não podemos parar de pensar sobre as políticas do governo, pois precisamos entender que nós somos seus chefes. Precisamos fazer exigências a eles! Nós somos os pobres que dão a eles dinheiro e emprego”.

Ludi Um, músico e educador no Fórum. Foto do Facebook de Ludi Um

Alinhada a este pensamento, Renata Santos, do Fórum Cidade, Favela e Patrimônio, concluiu que a equipe do Fórum deve se comprometer a monitorar as instituições públicas responsáveis por políticas patrimoniais: “Neste momento, nós não podemos nem mesmo verificar quem da Câmara Municipal é responsável pelo patrimônio, então, deveríamos buscar monitorar isso regularmente”.

O Fórum espera que, com essas propostas, ele possa potencializar o trabalho de artistas como Dona Tuca e desafiar a forma como as favelas do Rio são apresentadas na cena cultural mainstream da cidade.


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