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Eficiência Energética: Nunca Vi, Nem Comi e Muito Menos Ouvi Falar!

Arquiteta da Maré Analisa Eficiência em 16 Moradias, entre Públicas e Autoconstruídas

Arte original por Raquel Batista Arte original por Raquel Batista

Esta pesquisa faz parte de uma série sobre justiça e eficiência energética nas favelas do Rio. Para contribuir com esta pauta, clique aqui.

Você já ouviu falar em eficiência energética? Essa foi uma das principais perguntas feitas aos moradores do Conjunto Esperança, no Complexo da Maré, Zona Norte, durante uma pesquisa realizada por mim, Aline Marieta, uma arquiteta da comunidade. A intenção era entender o quanto as pessoas estavam sabendo sobre o que é, e explicar como aplicá-la no dia a dia.

Eficiência energética nada mais é do que fazer o uso racional da energia. Um produto eficiente energeticamente é aquele que realiza sua função, enquanto consome a menor quantidade de energia possível, como por exemplo, os aparelhos de eletrodomésticos de hoje em dia, que geralmente vêm com o selo Procel indicando o quanto o produto é eficiente energeticamente. É muito importante ficar atento a essas informações porque os produtos que estão ultrapassados no mercado e não têm essa indicação, deveriam ser retirados, tanto das vendas quanto das linhas de produção da empresa responsável. Para que as empresas repensem sobre o modelo em questão e refaçam com mais eficiência energética, é preciso tirar esses produtos das prateleiras.

Outro uso eficiente de energia são os painéis solares, que captam a luz do sol e geram energia para abastecer uma casa à noite, porém não são produtos com preços tão acessíveis, o que gera um impedimento para sua aquisição. Contudo, a longo prazo o uso das placas causariam uma grande redução na conta de luz ou até mesmo a anulação desse serviço, compensando o investimento feito, além de que, já existem bancos que trabalham com o financiamento dos painéis. Em outras favelas do Rio de Janeiro, inclusive no morro Santa Marta, isso foi feito pelos próprios moradores.

A realização da eficiência energética é importante tanto para o meio ambiente como para quem faz uso de energia elétrica no dia a dia e é obrigado a pagar, mesmo sendo absurdos os valores e taxas cobradas nas contas de luz. A economia de energia gera uma reação em cadeia: menos gasto de energia em casa, gera menos energia gerada nas usinas, o que gera menos danos ao meio ambiente e por consequência menos catástrofes ambientais. Com isso, eficiência energética é de suma importância para todos: seja na conta de luz pessoal ou na garantia de um ambiente saudável.

Predios construidos no Projeto Rio. Foto: Aline Marieta

Para entender a percepção dos moradores de uma favela das 16 do Complexo da Maré sobre o tema, foi realizada entre os dias 1-7 de fevereiro de 2021 uma série de entrevistas detalhadas em 16 moradias, sendo oito apartamentos e oito casas. Embora eficiência energética seja um tema tão importante, através dessa pesquisa percebemos que pouco (ou nada) se sabe a respeito, com essas informações chegando apenas para as classes mais privilegiadas.

Segundo o Instituto Pereira Passos (IPP), a população carioca cresceu 8% entre 2000 e 2010. Contudo, a variação da população residente em favelas foi de 19%, enquanto não favelada, de apenas 5%. Em outras palavras, a população das favelas cresceu em um ritmo quase quatro vezes maior que a do restante da cidade. Se a população favelada não conhece a economia energética, imagina o impacto que este crescimento gera no consumo de energia. 

Um levantamento do Geofusion realizado em 2015 apontou que o bairro da Maré está entre os dez mais povoados do Brasil. Ele fica em 6º lugar, com o total de 30.585 pessoas por km². Naquela época, a população total era de 132.977 habitantes, mas hoje o bairro já tem 140.000 habitantes, segundo o Censo da Redes da Maré. É justamente em espaços como esse que o assunto da “eficiência energética” deveria ser amplamente divulgado, e onde as informações mais deveriam chegar. Mas é onde elas menos estão chegando. 

A pesquisa aconteceu no Conjunto Esperança, mais conhecido pelos moradores como Palace, e deixou evidente o quanto esse tema ainda é desconhecido pela população local. A boa notícia é que embora o assunto seja desconhecido, não quer dizer que os moradores não tenham consciência ambiental e fazem gastos desnecessários de energia. A troca de lâmpadas incandescentes pelas fluorescentes ou de LED, que são lâmpadas energeticamente mais eficientes e que duram bem mais, por exemplo, está entre as escolhas de eficiência comuns aos moradores, mesmo tendo uma diferença considerável no valor desses produtos.

Gráfico do tipo de lâmpada usado entre os entrevistados.

Os apartamentos onde vivem oito dos entrevistados fazem parte de um conjunto habitacional que nasceu em 1982, na segunda fase de crescimento da Maré através da intervenção do poder público com o Projeto Rio. O objetivo era reassentar as pessoas que anteriormente moravam em casas de palafitas no Parque União. Primeiramente, a comunidade surgiu com a construção de 35 conjuntos habitacionais com apartamentos de 40m². Cada apartamento era constituído por uma planta básica de quatro cômodos: uma sala, um quarto, uma cozinha e um banheiro.

Embora grande parte do território tenha sido planejado e construído seguindo um projeto do governo, isso não quer dizer que a arquitetura dos prédios foi pensada de maneira eficiente. Em conversa com os moradores, percebemos as mesmas queixas, seja nos apartamentos do governo ou nas casas autoconstruídas, em relação ao excesso de sol que bate nos quartos e salas, na maior parte do dia, o que dificulta a permanência nesses espaços sem o uso de ventiladores. O lado bom é que eles conseguem aproveitar a luz do sol para economizar luz. Tendo claridade o suficiente durante quase todo o dia, é dispensável o uso de iluminação artificial.

Os apartamentos também não foram planejados para contemplar o crescimento das famílias e a possibilidade de ter crianças ou visitas. Com o aumento dos moradores por apartamento, foi necessário fazer a divisão das salas para se ter mais um quarto. Esta ação passou a dificultar a ventilação cruzada desses espaços, porque a única janela que tinha era nas salas, que acabavam fazendo parte do “novo” cômodo. 

Parte dos moradores dessas áreas é composta pelos antigos moradores das palafitas que ganharam o imóvel. Outra parte dos habitantes foi morar lá por indicação da família e amigos. A área é bem localizada e tem fácil acesso aos demais bairros do Rio de Janeiro. Tem transporte público e comércio funcionando por 24 horas, todos os dias da semana. A comunidade é uma das que tem menor expressão populacional na Maré, com menos de 6.000 habitantes.

Uma característica da região, quando surgiu, é que era apenas para acomodar um conjunto habitacional com apartamentos e suas respectivas garagens, sem espaço para comércio. A solução encontrada pela população para este equívoco no planejamento foi a ocupação das margens do Canal do Cunha. Ali surgiu o “Vala Shopping” (como era conhecido na época), e assim surgiu a outra parte da mesma comunidade, com casas autoconstruídas, tendo comércio no térreo e as casas no pavimento de cima. Muitos desses ocupantes foram morar nas casas do Conjunto Esperança pela possibilidade de construir suas próprias moradias e trabalhar por lá.

Casas autoconstruídas as margens do Rio. Foto: Aline Marieta

Um traço comum dessas autoconstruções é que elas estão divididas entre dois tipos de moradia: casas espaçosas e arejadas, principalmente as que ficam nos fundos dos terrenos; e kitinetes com pouco espaço e quase nada de ventilação cruzada. 

A pesquisa foi feita ao longo de dez dias entre os moradores dessas duas tipologias: oito das casas autoconstruídas da favela, e oito apartamentos do conjunto originário (hoje modificado pelos moradores). Foram feitas 26 perguntas, entre elas, sobre eficiência energética e seus usos, para que pudéssemos entender a realidade que eles vivem em relação ao assunto.

Gráfico da quantidade de pessoas que pagam luz entre os entrevistados.

Das pessoas entrevistadas, pelo menos 31,3% pagam alguma taxa de energia ou pagam luz normalmente. Porém, relatam valores absurdos em relação ao consumo e serviços prestados. Além disso, a quantidade de tensão fornecida pela empresa responsável não é suficiente para atender toda a população da Maré, o que resulta em várias queixas sobre queda de energia e falta de luz no verão.

Existe um Dispositivo de Proteção contra Surtos (DPS) que só pode ser instalado através de um aterramento. Ele é uma proteção contra os surtos atmosféricos externos e sobrecargas elétricas como, por exemplo, quando tem uma queda de energia. Geralmente ela volta com uma tensão mais alta do que a normal, o que às vezes é suficiente para queimar os aparelhos que estiverem conectados na tomada. Mas como ambas tipologias de moradia na Maré foram feitas sem aterramento, fica impossibilitada a instalação de um DPS. Entre este e outros problemas encontrados na rede elétrica da comunidade, temos também a ausência de instalações feitas de acordo com as normas de segurança, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), tanto nos apartamentos que foram construídos pelo Projeto Rio quanto nas autoconstruções.

Dia de alagamento. Foto: Aline Marieta

Durante a pesquisa para essa matéria, teve um dia de muita chuva no Rio que além de alagar vários lugares na Maré, foi chuva o suficiente para ter várias quedas de energia, o que resultou na perda de um dos meus eletrodomésticos. Em uma consulta rápida pelas redes sociais, constatamos que essa, infelizmente, é a realidade de muitos. Com as frequentes quedas de energia, um eletrônico ou eletrodoméstico pode ser danificado ou dado perda total.

Mas o que isso tem a ver com a eficiência energética? Tudo! Se as instalações fossem feitas de acordo com as normas de instalações elétricas e tivesse esse DPS recomendado pela norma, a perda de produtos por este motivo não seria tão frequente.

Gráfico mostrando umas das perguntas feitas aos moradores sobre eficiência energética.

Observando o urbanismo local é fácil identificar algumas árvores pelas ruas e uma vasta vegetação, pertencente à extensão do campus da Fiocruz que fica na entrada do Conjunto Esperança. Todavia não são suficientes para amenizar os dias e noites mais calorentas, o que faz com que 90% dos entrevistados tenham aparelhos de ar condicionado em casa e usem durante toda a noite.

Rua José Moreira Pequeno, antiga 'Vala Shopping'. Foto: Aline Marieta

Os apartamentos que têm fachada leste, norte e oeste, são os que mais sofrem com o calor durante o dia. Estes ficam expostos quase o dia inteiro ao sol, principalmente os apartamentos das laterais que acabam pegando o sol da manhã em uma parede, e o sol da tarde em outra. As casas que têm a fachada virada para a rua ficam ao noroeste e também acabam pegando mais do sol da tarde que é o mais forte. 

Gráfico representativo da quantidade de incidência solar nas casas/apartamentos da região.

Ao compararmos as casas autoconstruídas com os apartamentos, deparamos com um ponto importante de comparação: apesar de também terem bastante incidência solar, geralmente as casas têm uma boa ventilação cruzada e ambientes mais amplos do que os apartamentos, que permitem a circulação do vento. Elas têm um conforto térmico melhor, principalmente nas casas construídas nos térreos e nos fundos dos terrenos. 

Algumas coisas poderiam ser feitas para melhorar a sensação térmica e, consequentemente a qualidade de vida, dos moradores das autoconstruções e apartamentos no Conjunto Esperança na Maré. A plantação de árvores ao redor dos prédios, uso de brise ou “cortinas” de plantas nas janelas das fachadas, e o cultivo de plantas dentro de casa mesmo ajudariam. Uma outra solução de grande valia e com experiência já comprovada na região, é o teto verde. O uso de vegetação nos telhados reduziria a sensação térmica, e também purificaria o ar, além de diminuir consideravelmente o consumo de energia. No telhado verde também seria possível fazer uma horta periurbana, que é quando se planta hortaliças e sementes nos meios periféricos. Mesmo estando no meio de uma favela, teríamos excelentes espaços de interação com a possibilidade de colheita e de desfrutar o clima de natureza.

Sobre a artista: Raquel Batista é artista visual e trabalha como fotógrafa e ilustradora. É estudante na Escola de Belas Artes da UFRJ, mulher negra e moradora da Zona Oeste do Rio. 

Sobre a escritora: Aline Marieta, 32 anos, é arquiteta e urbanista. Nascida em São Paulo, foi criada nas favelas da Zona Norte do Rio e hoje mora no Complexo da Maré. É criadora do @edificandodecoracao e membro do coletivo Eco Maré, que visa levar para a favela a temática ambiental e conscientizar os moradores sobre a importância desse tema.

Esta pesquisa faz parte de uma série sobre justiça e eficiência energética nas favelas do Rio. Para contribuir com esta pauta, clique aqui.


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