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Projeto Horto Natureza Limpa Rio dos Macacos e Amplia Luta por Permanência

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Esta matéria faz parte de uma série gerada por uma parceria, com o Digital Brazil Project do Centro Behner Stiefel de Estudos Brasileiros da Universidade Estadual de San Diego na Califórnia, para produzir matérias sobre direitos humanos e justiça socioambiental nas favelas cariocas.

Desde janeiro de 2020, parte da comunidade do Horto, no Jardim Botânico, Zona Sul, vem se mobilizando em um novo projeto. A proposta do Horto Natureza é atuar na revitalização, manutenção e preservação do Rio dos Macacos, que cruza a comunidade e áreas periféricas a ela.

O projeto nasceu oficialmente há pouco tempo, mas sua concepção vem de longe. Roberto Fonseca, idealizador do Horto Natureza, trabalhou no programa Guardiões do Rio, em 2001, iniciativa que capacitava agentes comunitários para atuar na limpeza e preservação de rios e canais. Ele conta que, desde então, se sente motivado a cuidar mais do entorno da comunidade onde vive. “Em 2001 fui convocado junto com alguns dos moradores do Horto para trabalhar no ‘Guardiões do Rio’, um projeto do então Prefeito Cesar Maia. Estávamos precisando de trabalho e era uma boa oportunidade. Assim, fui aprendendo a pôr em prática tudo aquilo que meus pais já tinham me ensinado quando criança: limpar nosso local e cuidar do que era nosso. E, ganhando dinheiro pra fazer isso era melhor ainda”, recorda Roberto.

De um tempo pra cá, com as acusações sobre a comunidade ser a responsável pela poluição no Rio dos Macacos, e as inúmeras tentativas de remoção dos moradores do local, Roberto decidiu agir: “Foi aí que comecei a denunciar que os vazamentos de esgotos e resíduos não vinham dos moradores da comunidade e sim dos prédios, das empresas”, lembra ele. “Quando acabou o projeto ‘Guardiões do Rio’ eu continuei humildemente limpando ali na minha área, mas de 2018 pra cá eu senti a necessidade de que precisava de mais, precisava voltar a reunir os moradores e conscientizar que temos que cuidar do que é nosso”, defende. 

O desenho do projeto Horto Natureza começou a tomar forma desde então. O objetivo dos participantes é promover o desenvolvimento socioambiental da região, por meio de ações educativas e da capacitação profissional de moradores da comunidade do Horto na área ambiental. Roberto conta que as ações desenvolvidas vão desde a limpeza e manutenção do Rio dos Macacos à revitalização dos muros e fachadas das casas. Alguns mutirões também são dedicados à organização dos espaços destinados ao descarte de resíduos, buscando incentivar a separação e coleta adequada do lixo. 

As atividades desenvolvidas se relacionam, diretamente, com a história da comunidade, que nasceu com a vinda de pessoas escravizadas para trabalhar na manutenção do Parque Jardim Botânico. A comunidade construiu, ao longo dos anos, um saber local acerca da natureza, transmitido de geração em geração, com apoio de funcionários do parque e professores das escolas localizadas no bairro. Roberto é um retrato desta história. Ele nasceu e cresceu no Horto, aprendendo o que sabe a partir da vivência.

“Estudei em todas as escolas que temos dentro do Horto [Júlia Kubitschek, Capistrano de Abreu, Camilo Castelo Branco e Manuel Bandeira]. No Camilo tivemos um professor que nos ensinou tudo sobre a fauna local, como capturar uma cobra, como capturar um bicho sem matá-lo. Ele era um professor que ficava mais nas matas do que na própria escola com os alunos e ali fomos aprendendo tudo o que levo até hoje. O Seu Walter! Quem é do Horto sabe quem foi o Seu Walter”, explica Roberto, que completa: “Quando encontrávamos um inseto ou um bicho diferente sempre capturávamos e levávamos pra ele classificar e explicar sobre aquela espécie. Muitos nem eram alunos dele, mas ele abria a sala de aula até pra quem não era aluno”, recorda. 

Por trás do projeto, posto em prática por Roberto e por vários moradores do Horto, está uma luta antiga: a permanência da comunidade no local. Ao denunciar de onde vem a real poluição do Rio dos Macacos e da Lagoa Rodrigo de Freitas, o Horto Natureza procura desmistificar o imaginário de que são os moradores da comunidade os responsáveis pela poluição nas águas do Rio dos Macacos, que deságua na Lagoa Rodrigo de Freitas.

Após as denúncias, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente do Rio constatou que a CEDAE é uma das responsáveis pela poluição no rio. A empresa foi multada em R$1 milhão pelo despejo irregular de esgoto no Rio dos Macacos. Em janeiro do ano passado, a companhia já havia sido autuada pelo mesmo motivo. Além da CEDAE, o despejo de produtos químicos por uma indústria têxtil localizada na margem do rio também contribuiu para a poluição das águas. Segundo Roberto, após uma série de denúncias, a empresa adotou medidas e resolveu o problema. 

Desde o início de 2021, foram realizados diversos mutirões de limpeza no Rio dos Macacos e Roberto conta que pessoas de diferentes partes da comunidade do Horto participaram: “Um pouquinho do Grotão, um pouquinho do Caxinguelê, e descemos o Rio limpando”. Por meio dessas ações, o projeto pretende estabelecer um diálogo com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente do Rio. O responsável pela pasta, Eduardo Cavalieri, chegou a visitar o local no dia 17 de abril. 

O projeto conta com a parceria do Grupo de Capoeira do Mestre Mico Preto, ex-morador do Horto; da empresa IBS, uma franquia especializada em ciclismo de alto rendimento; além do apoio de moradores da comunidade e, também, da Associação de Moradores e Amigos do Horto Florestal (AMAHOR). O Horto Natureza ainda busca outros apoiadores e realiza campanhas virtuais de financiamento com simpatizantes nacionais e estrangeiros. Paralelamente a isso, o projeto promove um espaço mais saudável para a comunidade, ao reforçar os laços históricos que as famílias têm com a questão ambiental.

Futuramente, Roberto sonha em ampliar as atividades, criando espaços para hortas comunitárias, replantio de mudas nativas da Mata Atlântica, além de mobilizar seus vizinhos para contribuir na limpeza da estrada, que dá acesso à comunidade, e na manutenção das jaqueiras, que crescem à margem da via. A intenção é que as ações socioambientais do Horto Natureza envolvam as crianças, jovens, adultos e idosos do Horto Florestal.

A comunidade, mais uma vez, mostra que seu histórico de vida está muito relacionado ao território e o projeto Horto Natureza é um retrato desta relação.

Emerson de Souza é músico, ativista sociocultural e desde os anos 1990 participa de coletivos culturais e políticos como o Cambralha e o Fome de Educação. Atualmente é representante da AMAHOR, como presidente, e do Museu do Horto.

Taísa Sanches é pesquisadora de pós-doutorado em Ciências Sociais na PUC-Rio e ativista por moradia e pelo direito à cidade. Colabora com o Museu do Horto e com o Museu das Remoções.


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