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MC Martina: ‘O Vírus que Parou o País’ [VÍDEO] #DesenraizandoRacismo

Slam é Poesia de Cria

Esta vídeo-poesia marginal faz parte da nossa série sobre a Covid-19 e seus impactos sobre as favelas e também do projeto antirracista do RioOnWatch. Conheça o nosso projeto que traz conteúdos midiáticos semanais ao longo de 2021: Enraizando o Antirracismo nas Favelas.

MC Martina narra os impactos da pandemia nas favelas e como a pandemia expõe o racismo e a falta de acesso a direitos básicos que há décadas assola as favelas e periferias em sua vídeo-poesia antirracista. A partir de vivências de mulher preta presenciando essa tragédia social, Sabrina Martina nos conta poeticamente “como é ser um corpo preto nessa década”. A poeta, slammer e MC é cria do Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro.

Transcrição da poesia marginal, ‘O Vírus que Parou a Nação’:

O Vírus que Parou a Nação

O vírus que parou a nação: da China ao Alemão, da Europa ao Complexo do Alemão

Topei esse desafio e brotei aqui pra te passar a visão

Falaram que devo ficar em casa, mas como se direto falta luz e água?

Que devo lavar as mãos constantemente, mas você já viu a qualidade que a CEDAE fornece água pra gente?

Somos frutos da desigualdade, a miséria diariamente tira nossa humanidade, álcool em gel é indispensável, mas dentro de casa a comida é o mais importante! Por isso, atente-se às informações: Coletivo Papo Reto, Voz, Frente CDD e Amarévê dão aulas de gestão em meio a essa crise, mas o que parte meu coração é ver a violência doméstica batendo recorde em meio a isso tudo.

Ouço gritos, vejo crescer em proporções alarmantes a taxa de feminicídio, mais pessoas procurando o que comer em meio ao lixo e, mesmo assim, muitos agem como se nada tivesse acontecido.

Eu acho que só vai cair a ficha quando os números se transformarem nos seus amigos ou em algum ente querido. Atente-se aos perigos!

Pois estamos no mesmo mar, só que eles no iate e a gente num barco furado por causa dos tiros.

Fica em casa, cria, acende uma vela, amanhã bebe uma cerveja e aumenta o som quem sabe assim abafa os tiros da viela.

Respira fundo! Pensa que tem um propósito maior por trás disso tudo e que uma coisa é fato: nenhum roteiro adaptado de Netflix ou de novela conseguiria descrever como é ser um corpo preto nessa década.

Entenda

Já pensou se combatessem o racismo igual combatem o coronavírus?

Entenda: o que escrevo é a consequência da causa

Que só te causaria interesse se fosse na calçada.

Em outras palavras: entretenimento com causa.

E a militância me fala: “Martina, não acredite em contos de fardas

Vá pra rua ou melhor, fique em casa e transforme seu luto, ódio e mágoas em algo positivo e depois vem dar uma palestra pra gente de graça.

Ah, perae, toma uma cesta-básica.”

É a esquerda lucrando com o nosso ódio, luto, miséria e um bom discurso

A direita pisando em noix com tudo

Não deu tempo de dar espaço ao luto e mortes viram produtos. Em tempos onde hospitais são de fachada

Não se surpreenda se amanhã a maior parte das mortes forem da população preta ou favelada.

E eu, entre o vírus e a bala, não posso deixar faltar nada em casa. Me fala, será que se botar essa máscara a fome não me acha?

Em meses isolada, faltou água, luz, foram vários dias sem acesso a internet. Fora meu celular que parou de funcionar.

Se eu desse uma volta aqui pelo morro, nunca mais iria parar de rimar.

Se desde 1888 o racismo só causasse efeitos colaterais nos brancos, não haveria tantas mães em prantos.

E eu, entre o vírus e a bala, mais uma vez eu falo e repito: não posso deixar faltar nada em casa! — MC Martina

MC Martina, como também é conhecida Sabrina Martina, vem diretamente do Complexo do Alemão, é rapper, poeta e produtora. MC Martina Já vem deixando sua marca na cena cultural do país. Idealizadora do Slam Laje, a primeira batalha de poesia falada do Complexo do Alemão, e um dos slams pioneiros a serem realizados dentro de uma favela no estado do Rio de Janeiro.

Diretor do vídeo: Luiz Neto, morador do Complexo de Alemão, é estudante de História da Arte na UFRJ e participa de diversas iniciativas que atuam dentro da favela, como o Descolando Ideias, Centro Cultural Oca dos Curumins e EDUCAP. Luiz atua ajudando a desenvolver projetos e ações que engajam os moradores.

Essa matéria é parte de uma série de matérias do projeto antirracista do RioOnWatch. Conheça o nosso projeto que traz conteúdos midiáticos semanais ao longo de 2021: Enraizando o Antirracismo nas Favelas. Para contribuir com essa pauta, clique aqui.


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