Evasão Escolar: Um Debate Sobre Raça [PODCAST] #DesenraizandoRacismo

Arte original por David Amen
Arte original por David Amen

Esta matéria faz parte da série de matérias do projeto antirracista do RioOnWatch e também de uma parceria com o Núcleo de Estudos Críticos em Linguagem, Educação e Sociedade (NECLES), da UFF, para que seja utilizada como um recurso pedagógico em escolas públicas de Niterói. Conheça o nosso projeto que traz conteúdos midiáticos semanais ao longo de 2021: Enraizando o Antirracismo nas Favelas. Para contribuir com essa pauta, clique aqui.


Neste trecho do livro Diário de Bitita, a escritora Carolina Maria de Jesus, em conversa com seu avô, revela um Brasil que fingimos não conhecer:

“Os oito filhos do meu avô não sabiam ler. Trabalhavam nos labores rudimentares. O meu avô tinha desgosto porque os seus filhos não aprenderam a ler e dizia: ‘Não, não foi por relaxo de minha parte’. É que na época que seus filhos deveriam estudar, não eram franqueadas as escolas para os negros. Quando vocês entrarem nas escolas, estudem com devoção e se esforcem para aprender.”

Carolina Maria de Jesus, autora de "Quarto de Desejo". (Foto: Acervo UH/Folhapress)

A última nação do ocidente a abolir a escravatura deu nenhuma condição digna para a população negra na sociedade: a soma desses fatores resulta em desigualdade de acesso em todas as esferas.

“Meu nome é Denise, mais conhecida como Denise Crioula, mulher, negra, de periferia, professora da rede pública estadual do Rio de Janeiro. A minha batida na educação vem desde muito cedo. Aprendi a ler com quatro anos de idade. Entrei no segundo ano (segunda série da minha época) no ensino fundamental, e estudei direto até os meus 16 anos, quando os meus pais se separaram e eu precisei trabalhar. Trabalhar e estudar é muito difícil, é muito árduo. E na época a necessidade maior era o trabalho, não era o estudo, para ajudar mamãe. Então fui trabalhar fora. Com 19 anos, casei e tive dois filhos. Assim que eu me separei, voltei a estudar. Voltei a estudar com 31 anos. Fiz meu ensino médio e fui direto para a faculdade.”

O relato acima é da professora Denise Crioula, moradora de Paciência, Zona Oeste do Rio de Janeiro, que se viu de frente com a situação da evasão em sua jornada. Há mais de dez anos desenvolve um trabalho de assistência psicopedagógica através da ONG Conquista Social, que tem como objetivo diminuir a desigualdade por meio da educação. 

Sala de aula vazia. Foto de Pixabay.

Em 2019, foram 10 milhões de jovens brasileiros que deixaram de frequentar a escola sem ter completado a educação básica. Destes, 71,7% são negros. Trabalhar é sinônimo de sobreviver e, no Brasil da pandemia do coronavírus, essa necessidade se torna ainda mais imperativa.

São muitas as razões que levam um jovem a estar fora da escola. De acordo com o estudo “Enfrentamento da cultura do fracasso escolar, realizado pelo UNICEF, mais de 5 milhões de crianças e adolescentes não tiveram acesso à educação em 2020. Essa realidade se reflete nas favelas, que na pandemia têm visto mais da metade de suas populações sem estudar, segundo pesquisa realizada pelo Instituto Data Favela, em parceria com o Instituto de Pesquisa Locomotiva e a Central Única das Favelas (CUFA).

O Que É Evadir? O Ciclo Familiar Dita a Evasão

Foto de quadro negro e giz em sala de aula. Foto por: Markus Spiske/PexelsAntes de tudo, é preciso entender a diferença entre os conceitos de abandono e de evasão escolar. Quando o estudante deixa de frequentar as aulas durante o ano letivo, caracteriza-se o abandono escolar. Já a situação em que o estudante reprovado ou aprovado não efetua a matrícula para dar continuidade aos estudos no ano seguinte é definida como evasão escolar. Elas devem ser entendidas como fenômenos sociais complexos, fruto de um somatório de dificuldades sociais estruturais.

O racismo estrutural dita muitas disparidades existentes em nossa sociedade e incide nos indicadores educacionais e socioeconômicos. Os indicadores da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua – PNAD (do IBGE), feita em 2015, mostram que o contexto familiar influencia na decisão de abandonar a escola. No Rio de Janeiro, por exemplo, a pesquisa mostra que, quando o contexto familiar do estudante é de uma família chefiada por um homem branco, com pelo menos a escolaridade média completa, renda alta e residente de área urbana, a chance deste aluno frequentar normalmente a escola é de aproximadamente 90%. Quando se trata de famílias chefiadas por mulheres negras, analfabetas e de área rural, o índice máximo é de 50%. 

Apontar essa realidade é dizer que esses jovens precisam lidar com o choque socioeconômico o tempo inteiro. Afinal, você já deixou de ir para a aula por não ter o dinheiro da condução? Ou teve que ir só com uma única refeição para passar o dia inteiro? 

Em conversa com o professor Robson Abreu, membro do Conselho Escola Comunidade (CEC)um conselho consultivo da Prefeitura do Rio que tem como finalidade promover uma constante e efetiva integração entre Escola-Família-Comunidadeele explica quais movimentos dos gestores escolares, a partir das estruturas das escolas que atuam, podem ser feitos para agir preventivamente para diminuir os níveis de evasão e abandono escolar:

“O vínculo com a família é muito importante até para entender os motivos dessa falta do aluno. Então, uma das coisas que nós fazemos é procurar essa família, trazer essa família pra escola, conversar, tentar encontrar soluções. Nesta pandemia, [a evasão escolar] se potencializou muito, porque além do [aluno] que já era faltoso, existe também a falta pela possibilidade dele frequentar a escola [presencialmente pela pandemia e online pela falta de acesso à tecnologia]. Então, nesses casos, o perigo da evasão é maior ainda. Movimentos também têm sido feitos para receber esses alunos na escola, para trabalhar com eles o passo a passo para eles terem, na falta de acesso à internet, material impresso, para que eles não fiquem alijados do direito ao ensino durante a pandemia. Então, a gente procura fazer essa prevenção, mas com certeza a pandemia dificultou muito esse trabalho de prevenção à evasão e ao abandono.”

Nos mais variados dados de pesquisa é nítido que o debate racial é um ponto primordial no tema evasão escolar. E é importante entender como a questão racial tem sido trabalhada nas escolas e nas políticas públicas. O professor nos conta também como tem sido o papel de discutir esse assunto com os estudantes e com as famílias:

“O debate racial como prática pedagógica ainda é algo bastante longe do ideal e longe do necessário, né? Ele acaba sendo bastante limitado a ações individuais por parte dos professores cujo engajamento nesses temas é maior. Dependendo da unidade escolar, é abraçado pela coletividade. Mas, não existe, que eu tenha conhecimento, uma prática ou uma política de prática pedagógica que abranja realmente a relevância e o buraco que fica no trato deste tema. Porém, eu também vejo progresso. Eu vejo que não só nas datas como consciência negra a gente tem alguns movimentos de valorização da cultura negra. A gente observa iniciativas que acabam sendo multiplicadas. Com as famílias, ele é bastante difícil na medida em que muitas vezes a própria família não se conscientiza da importância deste debate racial. Muitas vezes se colocam como espectadores desse processo. Mas isso já vem mudando também, porque muitos alunos já conseguem perceber a importância de se debater e a importância de se engajar coletivamente para a mudança não só de paradigmas, mas principalmente da aceitação passiva [do racismo]…. realmente impossível de continuar acontecendo.”

É preciso acompanhar a trajetória individual do estudante e de sua família para assim oferecer as ferramentas necessárias para eles retornarem às atividades escolares. Pensando nisso, a professora de artes cênicas, Alessandra Biá, desenvolveu um projeto chamado ELA – Escola Libertária de Artes. Começando na Escola Municipal Paulo Freire, na Vila dos Pinheiros, em 2019, a ELA chegou às ruas do Complexo da Maré. Biá, como é conhecida, ressignificou a tragédia do assassinato de Agatha Félix, que foi atingida por tiros dentro de uma Kombi, no Complexo do Alemão. A tragédia marcou muito os estudantes de Biá na época e ela teve a ideia de tornar a ELA uma ferramenta de educação itinerante.

Eu chego com a Kombi, as crianças me mostram onde é o melhor lugar para parar. A gente primeiro parou num determinado lugar, depois eles me levaram para mata, que foi um lugar onde a gente ficou estacionado durante um bom tempo, e eles mesmo é que abriam a Kombi, e que tiravam os objetos. A Kombi tem material de artes visuais, material de música, tem uma brinquedoteca, tem material de DJ, de criação para esse tipo de trabalho. Enfim, eles montavam a própria escola e eles mesmo se ensinavam. Basicamente, eu estava num trabalho de mediação no meio disso tudo. Um ensinava o outro e a partir disso coisas inimagináveis aconteciam.”

O trabalho desenvolvido pela Biá dialoga bem com um outro marcador para a evasão, que é o desengajamento do estudante com a escola. A decisão de evadir não nasce de uma hora para a outra: é um processo bem longo. O desafio é desenvolver e implementar ações de busca ativa, adaptável e atenta a cada realidade. A Escola Libertária de Artes tem despertado essa paixão pelo conhecimento e, como consequência, acaba acendendo a chama do interesse pela educação em jovens da Maré. Segundo Biá: “A ELA sempre teve essa relação com evasão escolar por ser itinerante, por ser de rua, por chegar perto, por falar a linguagem da liberdade. Isso tudo ajuda muito as pessoas a se aproximarem da ELA de forma natural. Não é uma obrigação: a ELA é uma escola de final semana. Todo mundo quer estudar no final de semana! Eu costumo brincar. Então, sem querer a gente acaba se encaminhando para o lugar do saber, que muitas vezes elas nem acreditam mais, porque acham que é chato, que não é para elas”.

Apesar da grande maioria evadir por razões socioeconômicas, quase metade dos jovens evadidos da escola não trabalha. Isso também significa que, para alguns estudantes, a escola simplesmente deixou de ser um lugar atrativo ou até mesmo seguro. Esses jovens não são facilmente absorvidos no mercado de trabalho já que não têm qualificação ou experiência. Saem das salas de aula para enfrentar o desemprego, o trabalho informal e, cada vez mais, a fome.

Por exemplo, se um estudante é uma pessoa trans e sofre transfobia dentro do ambiente escolar, a chance desse estudante evadir é de aproximadamente 82% ainda na educação básica. Esse dado é fruto da pesquisa realizada pelo defensor público João Paulo Carvalho Dias, que é também presidente da Comissão de Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil no estado do Mato Grosso. Os caminhos que levam ao desinteresse e à insegurança no ambiente escolar são muitos, como interações negativas com professores e colegas, dificuldade de aprendizado, repetências, preconceito, questões emocionais presentes na adolescência e falta de acompanhamento pedagógico personalizado e constante.

Há Muito Trabalho Pela Frente

Aluno usando aplicativo de mensagens durante a aula. Foto de Pixabay

Desenvolver uma escuta ativa e atenta para as necessidades, em especial as de infraestrutura de muitas escolas públicas, é o primeiro grande passo. O segundo é entender que a escola é uma comunidade que dialoga e deva acolher as famílias dos estudantes, e que deve desenvolver ações que tenham como foco o debate de questões raciais com familiares e alunos.

Em 2021, num país com mais de 500.000 mortos, o coronavírus tira os jovens de dentro do ambiente físico da escola, frente à inoperância com relação à imunização da população e à sabotagem do governo federal no combate à pandemia. Ainda não se pode garantir o retorno dos alunos às salas de aula em 2021.

É importante lembrar que educação de qualidade é direito constitucional no Brasil. É um compromisso da agenda mundial dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas, que estabelece metas a serem cumpridas até o ano de 2030.

No entanto, a educação brasileira, sobretudo a pública, está no quarto de despejo, parafraseando mais uma vez a escritora Carolina Maria de Jesus. A evasão escolar é o lugar do desconforto—e nitidamente sabemos quem é a população que sente esse desconforto. Já podemos enxergar os frutos podres do descaso e da omissão de uma política de saúde genocida, da necropolítica como política pública para a pandemia, na educação da juventude negra e favelada.

“O Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome. A fome também é professora. Quem passa fome aprende a pensar no próximo e nas crianças.” A verdade que Carolina bradava na década de 1950 continua com a mesma força hoje. Só avançaremos quando os nossos estiverem no lugar de decisão política. É necessário que lideranças negras, indígenas e faveladas avancem, mas, para isso, é preciso romper com a lógica de reprodução dos privilégios da branquitude que temos hoje. É preciso defender a educação pública contra o desinvestimento e o sucateamento. Uma educação pública antirracista, acessível e de qualidade é nossa maior arma no enfrentamento às desigualdades brasileiras.

Sobre o autor: Cleyton Santanna é jornalista e roteirista, formado pela UFRRJ e pela CriaAtivo Film School. Em seu canal no YouTube, discorre sobre curiosidades, ancestralidade e cultura afro-brasileira. Em 2017, produziu dois documentários, “Entre Negros” e “Tudo Vai Ficar Bem”, e em 2018, foi premiado como roteirista, com o curta-metragem “Vandinho”, pela Creative Economy Network. Atualmente, atua como comunicador no Museu do Amanhã e é o apresentador do podcast Influência Negra.

Sobre o artista: David Amen é cria do Complexo do Alemão, co-fundador e produtor de comunicação do Instituto Raízes em Movimento, jornalista, grafiteiro e ilustrador.

Esta matéria é parte da série de matérias do projeto antirracista do RioOnWatch. Conheça o nosso projeto que traz conteúdos midiáticos semanais ao longo de 2021: Enraizando o Antirracismo nas Favelas. Para contribuir com essa pauta, clique aqui.

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