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Coletivo de Fotógrafos ‘Imagens do Povo’ Parte 1: Repórteres-Ativistas

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Esta é a primeira de uma série de três matérias sobre o coletivo de fotografia Imagens do Povo. Veja também nossa série sobre veículos de comunicação comunitária.

O direito à comunicação é reconhecido como um direito humano de terceira geração e geralmente é enquadrado no contexto dos direitos coletivos de povos ou comunidades. Embora o Artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos garanta a liberdade individual de expressão, o direito à comunicação forma uma resposta às estruturas midiáticas, que cada vez estão mais globalizadas e homogêneas, afirmando que todos os que possuem opiniões minoritárias ou são oriundos de comunidades marginalizadas têm direito ao acesso à informação e a serem ouvidos.

Durante uma entrevista em vídeo no ano passado, o famoso documentarista brasileiro João Roberto Ripper disse: “Uma coisa muito emblemática e perigosa na comunicação é quando você acaba fazendo sobre pessoas, sobre espaços, sobre comunidades, até sobre países, uma história única.” Preocupado com uma mídia cada vez mais homogeneizada, com ameaças contra os direitos das minorias, e com a falta de atenção dada às vozes contrárias locais, Ripper fundou em 2004 o coletivo de fotografia e escola de fotógrafos populares Imagens do Povo. Ripper elogia “(Uma) coisa que eu acho fantástica é o número de pessoas, de cidadãos, que usam a imagem para dar um grito de que são bonitos, de que eles são diferentes da forma como são informados.” O uso de imagens para relatar histórias pode ser transformador quando guiado pelo respeito à dignidade das pessoas.

Dez anos de fotografia empática contra estereótipos

Imagens do Povo tem sua sede no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio. A organização está alojada no Observatório das Favelas, um centro que coordena pesquisas, capacitações, trabalhos de consultoria e ações públicas em torno de questões relacionadas às favelas e à fenômenos urbanos. A Escola de Fotógrafos Populares do Observatório combina aulas de técnicas fotográficas com debates sobre problemas sociais e a democratização da comunicação. Até hoje a escola já treinou mais de 200 fotógrafos, dos quais 70 voltaram para a escola como professores.

“Um curso de excelência em fotografia, de 10 meses, 540 horas, com acesso à linguagem fotográfica, fotojornalismo, direitos humanos, história das artes, e filosofia”, explica Rovena Rosa, coordenadora do Imagens do Povo. “A cima de tudo, a gente aprende a pensar a fotografia, não só fotografar.”

Amplamente conhecido e vencedor de diversos prêmios, o coletivo Imagens do Povo é constituído por fotógrafos que participaram do curso, tem um arquivo digital online de mais de 10.000 imagens e seu primeiro livro publicado também disponível online. Em 2014 o projeto celebrou seu décimo aniversário com uma exposição e o livro correspondente intitulado “Nós.

As fotografias do coletivo são notáveis por causa da visível empatia entre os fotógrafos e os sujeitos fotografados. A beleza presente no dia a dia é o foco principal. Rovena explica: “A gente trabalha muito no campo do simbólico, justamente na resistência aos esteriótipos da história única e isso oferece às pessoas possibilidades de ver outros olhares e outras perspectivas em relação a esses espaços”.

Na minha pesquisa sobre o trabalho do Imagens do Povo, eu desenvolvi duas categorias distintas, porém muitas vezes sobrepostas, dentro do grupo de fotógrafos de acordo com a abordagem escolhida à fotografia. Este artigo visa examinar os fotógrafos ‘repórteres-ativistas’, cujo trabalho denuncia problemas sociais e afirmação de direitos. O próximo artigo tratará dos fotógrafos “arquivistas-documentaristas” que focalizam a memória e a vida cotidiana.

Os repórteres-ativistas:

Luiz Baltar

Amanhecer durante a ocupação do exército na Maré, com a palavra “paz” pendurada nos fios de eletricidade. Foto por Luiz Baltar, 5 de abril de 2014.

O fotógrafo documentarista social Luiz Baltar se formou pela Escola de Fotógrafos Populares na Maré. Desde 2009, ele vem trabalhando no registro das experiências de remoção em diversas comunidades, o que resultou no trabalho coletivo denominado ‘Tem Morador‘ que visa denunciar violações de direitos humanos e fornecer apoio e solidariedade à luta dos moradores.

Na sua biografia, Baltar explica que ele “acredita na fotografia como forma de expressão ativista e crítica, daí sua busca em estabelecer um diálogo entre fotografia e questões sociais, sobretudo no que diz respeito ao olhar sobre a cidade”. Entre outros projetos, Baltar também faz parte do coletivo de fotografia Favela em Foco que documenta as lutas e a vida cotidiana e ao mesmo tempo oferece visibilidade e apoio: a chave desta abordagem, ele explicou ao RioOnWatch, “é fazer isto com e não para [as comunidades]”.

Baltar forneceu as fotos para o livro SMH 2016–nomeado assim em referência ao código de remoção pintado nas casas antes de serem demolidas–que documentou as remoções no Rio entre 2009 e 2013, um período onde acontecerem mais remoções do que o conjunto dos governos de Pereira Passos e Carlos Lacerda. Baltar também documentou as ocupações militares nas favelas e o processo de pacificação, participando da rede de comunicadores e grupos de trabalho de monitoramento coordenados pela Rede Contra a Violência.

Confira o trabalho de Luiz Baltar no Flickr.

Marcha contra o genocídio negro na Maré. Foto por Luiz Baltar, 6 de setembro de 2014.

Naldinho Lourenço

A ocupação da Rocinha. Foto por Naldinho Lourenço, 13 de novembro de 2011.

Naldinho Lourenço é morador da Maré e estudou na Escola de Fotógrafos Populares em 2006. De 2006 a 2009 ele foi coordenador do projeto Trabalho, Comunicação e Arte, organizado pelo Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré. O projeto visa conectar arte e linguagem à oportunidades de emprego. Ele participou das exposições coletivas do Imagens do Povo Olhar Cúmplice, sobre esportes paraolímpicos, e Esporte na Favela, entre muitas outras. O foco de Lourenço mudou em 2008 quando ele documentou perto do seu local de trabalho a morte pela polícia de um menino de 8 anos, chamado Matheus.

Depois desse incidente, Lourenço continuou documentando problemas com a violência policial. Ele critica a retratação convencional da mídia sobre as favelas, que é distorcida pela “ótica do fotógrafo que não mora na favela, e que é um cara que mora fora e vai junto da polícia, já na espera da violência”. Na sua opinião, a falta de diálogo com os moradores e o abuso da autoridade policial e militar são as maiores fontes de conflito, embora a criminalização das favelas pela mídia, que as retrata como locais onde se produzem primariamente traficantes de drogas, também contribua. Além do fato que a criminalidade “existe, até um certo ponto”, os esforços de Lourenço procuram “desmistificar o que a mídia [convencional] faz” e manter a “opressão do Estado” em cheque.

Lourenço critica a retratação convencional da mídia sobre as favelas, que é distorcida pela “ótica do fotógrafo que não mora na favela, e que é um cara que mora fora e vai junto da polícia, já na espera da violência”.

Confira o trabalho de Lourenço no Flickr.

Naldinho Lourenço, "Muro"

“Muro”, moradores da Maré fecham uma estrada em protesto e memória da morte de um morte de 16 anos de idade por um policial, seis anos antes. Foto por Naldinho Lourenço, 14 de abril de 2009.

Adriano “AF” Rodrigues

“De qualquer maneira, a vida continua nas favelas do Rio”. Foto por AF Rodrigues, dezembro de 2014.

Com formação em Agronomia e Geografia, AF Rodrigues se formou pela Escola de Fotógrafos Populares e pela Escola Popular de Comunicação Crítica (Espocc) em 2006. Assim como o trabalho de seu colega Naldinho Lourenço, o trabalho de AF Rodrigues está incluído nas mostras Olhar Cúmplice e Esporte na Favela. No início deste ano, seu trabalho foi destaque na mostra Pertencendo: Uma história de dentro de favelas do Rio, na Canning House em Londres, e na mostra The Becontree Hundred, também em Londres.

“A geografia está contida nessa discussão sobre o espaço da fotografia, que eu desenvolvi, junto com os colegas do Imagens do Povo”,  Rodrigues explica. “[Tem a ver] com tudo o que envolve esta dinâmica: moradores, trabalhadores, estudantes, os que vivem em comunidades populares e os que vivem na cidade formal”. Ele vê sua fotografia como uma “provocação para as pessoas que não têm acesso as informações que permeiam os espaços populares” e suas fotografias como um “diálogo, interagindo com os espaços, as pessoas que neles habitam, e os constroem”. Rodrigues tem como objetivo “trazer informações que se contrapõem ao que historicamente é mostrado sobre o que é uma favela por pessoas que não são faveladas”.

Através do seu álbum no Flickr Revelando Favelas, Rodrigues tenta “revelar histórias não relatadas”, não reveladas “não por serem omitidas pelas pessoas [que lá vivem], mas porque elas não são ouvidas”. Rodrigues conta que através da sua coleção ele “revela aos outros uma versão diferente sobre as favelas: como um local de trabalho diário, de estudos contínuos, de luta, de fraternidade, afeto, arte e lazer”.

Confira mais trabalhos do AF Rodrigues no Flickr.

“Pai corre para proteger seu bebê”, do álbum “A violência no Complexo do Alemão”, tirada durante a ocupação policial da favela. Foto po AF Rodrigues, 26 de setembro de 2010.

Andrea Cangialosi realizou um mestrado internacional em Sociologia nas universidades de Freiburg, Buenos Aires e Bangkok. Esta série é baseada em sua pesquisa como repórter para o RioOnWatch e trabalho de campo para sua tese Vida Pulsante: Rio’s Mega-Events Footprints, Oppressions and Resistances in Maré Favelas as Pictured by Imagens do Povo Photographers (Vida pulsante: As pegadas dos Megaeventos, Opressões e Resistências na Favela da Maré no Rio de Janeiro Retratadas por Imagens de Fotógrafos Populares).