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Protestos Contra o Genocídio de Jovens Negros São Impulsionados por 1000 em Madureira

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Na quinta-feira, 3 de dezembro, cerca de 1.000 pessoas se reuniram para protestar contra o genocídio da juventude negra pelas mãos da polícia. O protesto ocorreu no bairro de Madureira, Zona Norte, em resposta à morte de 5 jovens negros em Costa Barros em 28 de novembro.

O genocídio tem que acabar, porque senão a cidade vai parar.

Os manifestantes começaram a chegar às cinco horas da tarde vestidos de preto “para mostrar que estamos de luto, já que o branco da paz não contempla a população negra”. A enorme multidão reunida sob o Viaduto Negrão de Lima formou um grande círculo convidando os participantes a entrarem no meio e expressarem suas frustrações e opiniões sobre a violência contra a juventude negra que tem feito parte da vida cotidiana dos cariocas por gerações, mas que recentemente tem sido melhor e mais amplamente documentada levando a uma maior indignação pública. Outros manifestantes mostravam seus cartazes da faixa de pedestres para que motoristas passando pudessem ver.

A passeata começou às sete horas da noite e foi conduzida pelos manifestantes segurando um cartaz que dizia: “Racismo Não!”. A marcha pelo bairro estava prevista para o horário da saída do trabalho de muitos moradores, de modo que pudessem ver e participarem da marcha. Manifestantes gritavam: “Vem, vem pra rua contra o racismo“, convencendo os espectadores a participarem. Na frente da massa de pessoas, um carro de som e uma kombi tocando reggae abriam o caminho, amplificando as vozes dos manifestantes chamando para a ação.

Racismo-Nao-Madureira

Enquanto caminhavam pela comunidade, os ativistas estavam unidos por um cântico principal: “O genocídio tem que acabar, porque senão a cidade vai parar“. Várias vezes durante a caminhada, o grupo fez uma pausa para lembrar os meninos cujas vidas foram perdidas. Um apresentador do protesto falava seus nomes: “Wilton Esteves Domingos Júnior, Wesley Castro Rodrigues, Cleiton Corrêa de Souza, Carlos Eduardo da Silva de Souza, Roberto de Souza Penha”–e a multidão respondia “presente!” para cada um.

O protesto também contou com uma mulher com uma tigela com chupetas ‘sangrentas’, com pedaços de partes de bebês de plástico pendurados em torno de seu próprio corpo. A figura tenebrosa destacava a dura realidade dessas comunidades, a experiência frequente da perda da vida de crianças inocentes. Algumas vezes, um grupo de adolescentes se juntava a ela num tipo de performance teatral. Os adolescentes, cujos corpos foram pintados com feridas falsas, caminhavam ao redor da mulher em um estado de desespero, perguntando aos espectadores: “É por ser pobre ou por ser negro?”. O grupo se deitou na rua como se estivesse morto, sussurrando: “Eu carrego o preconceito no peito”, referindo-se aos estereótipos que eles enfrentam todos os dias e o medo de não poderem voltar para casa.

Ao longo da caminhada, muitos moradores de favela tiveram a oportunidade de pegar o microfone e expressarem seus pensamentos. Membro do Coletivo Papo Reto, Raull Santiago, foi um desses que contribuiram. Em seu discurso, ele contou a história de Eduardo, um menino de dez anos, baleado em abril deste ano no Complexo do Alemão, para pontuar que este genocídio contra a juventude negra se estende por todas as favelas. “A gente tem que se unir neste momento porque a gente é da favela“, disse ele à multidão.

O protesto parou em frente ao Madureira Shopping, onde um grupo de mães, de diferentes favelas, falaram sobre suas vidas depois de perderem os seus filhos para a violência policial. Ana Paula Oliveira, cujo filho Johnatha Oliveira foi morto em 2014, em Manguinhos, explicou à multidão que este grupo de mulheres estava “representando a dor de todas as mães que perderam seus filhos”. Ela continuou: “Amanhã meu filho completaria 21 anos de idade e eu estou aqui porque eu não vou me calar, eu não vou aceitar isto“.  Convidada pela Anistia Internacional, Ana Paula viajou recentemente por várias cidades europeias para falar sobre a morte de seu filho e aumentar a consciência internacional sobre os altíssimos índices de violência contra a juventude negra do Brasil.

Mothers

Na entrada do Parque Madureira, uma das mobilizadoras do protesto, Sylvia de Mendoza pediu à multidão para ficar em silêncio: “em memória de nossos irmãos que foram assassinados, vamos entrar em silêncio”.

Ao chegar ao auditório no interior do parque, os manifestantes se reuniram pela última vez, cantaram e alguns indivíduos subiram ao palco para contagiar a multidão com palavras finais. No final, os membros de várias organizações por trás da marcha se reuniram na frente e gritaram: “Brasil, África, América Central, a luta negra é internacional”, unificando os eventos no Brasil com as injustiças que os negros enfrentam em todo o mundo. Os participantes ficaram com um senso de união e esperança de que esta marcha marque um reforço significativo do movimento para acabar com o genocídio do povo negro no Brasil.

No dia seguinte o protesto continuou, desta vez em frente ao Palácio Guanabara, sede do governo do estado do Rio de Janeiro na Zona Sul. Ambos os eventos foram muito bem sucedidos e um terceiro evento também está agendado para o dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos, começando às três horas da tarde em frente ao Parque Madureira, onde performances, debates, exposições e oficinas ocuparão o espaço público.