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Faltando Oito Meses para as Olimpíadas, Prefeitura Aumenta a Pressão Sobre a Vila Autódromo

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“Se você não sair por amor, sairá pela dor.”

Esta foi a mensagem do sub-prefeito da Barra da Tijuca, Alex Costa, de acordo com os moradores da Vila Autódromo que ainda estão lutando por seu direito de permanecer na comunidade que fica no terreno adjacente ao Parque Olímpico de 2016. Faltando menos de oito meses para a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos, a prefeitura do Rio de Janeiro aumentou a pressão sobre a comunidade. Moradores relatam ameaças verbais e mentiras deslavadas, não só do Sr. Costa, mas de trabalhadores da construção civil, autoridades do sistema habitacional e outros agentes da prefeitura que entram na comunidade. O RioOnWatch vem acompanhando a situação na Vila Autódromo. Para a segurança dos moradores, todas as entrevistas citadas neste artigo permanecerão anônimas.

Escavadora na Vila Autódromo

“Eles dão falsas declarações dizendo que todo mundo já negociou com a prefeitura, o que é uma mentira”, revelou um morador. “Se deixarmos eles vão tentar demolir as nossas casas. Temos que ficar atentos.”

A segunda metade de 2015 foi traumática para os moradores remanescentes da Vila Autódromo. Um protesto em junho contra duas remoções relâmpago levou a um encontro sangrento com guardas municipais, ferindo pelo menos seis moradores; em outubro cinco casas foram demolidas em outra remoção relâmpago, deixando uma moradora sem-teto.

Embora esses eventos chocantes sejam manchetes, talvez a tática de remoção mais corrosiva decorre da reviravolta da prefeitura em sua promessa de respeitar o direito dos moradores a permanecer e urbanizar a Vila Autódromo. Em vez de instalar equipamentos de infraestrutura tão necessários como estradas pavimentadas, drenagem adequada, e uma rede de esgotos, os quais iriam custar uma fração da despesa da remoção, o governo tem sabotado benfeitorias e serviços existentes com o objetivo de fazer a vida na comunidade insuportável. A página do Facebook da comunidade da Vila Autódromo descreve a “luta difícil e extremamente desigual” em um post recente.

Entre a lista de queixas está a entrega do correio. Moradores têm deixado de receber correspondências, tornando quase impossível pagar as contas em dia. A Vila Autódromo agora se encontra sem eletricidade, conexão telefônica, água (devido as linhas elétricas danificadas) e tubos de água rompidos. Moradores contatam a Light, e recebem como resposta que “ninguém mora mais lá”.

Embora o projeto olímpico aprovado mantivesse a comunidade no lugar, é amplamente entendido entre os seguidores mais próximos do caso que a comunidade foi usada como moeda de troca para convencer as construtoras a realizar as obras olímpicas, com a garantia de que o Parque Olímpico e zonas circundantes serão reaproveitadas para empreendimentos de luxo após os Jogos. É por isso que as promessas públicas feitas pelo prefeito contrastam tão fortemente com as dos seus subordinados operando em seu nome.

Na verdade, o Prefeito Eduardo Paes assumiu um compromisso público com a permanência da comunidade muitas vezes, a partir de agosto de 2013, confirmando na BBC recentemente em agosto e no O Globo apenas seis semanas atrás. Paes tem afirmado repetidamente que parte da comunidade pode permanecer.

Cano de água estourado na Vila Autódromo

Vários moradores afirmam ter recebido ameaças de agentes do governo. Um morador chamou de “terrorismo”.

Ele descreveu como um agente bateu em sua porta e disse: “Seu tempo está se esgotando… Nós vamos removê-lo por qualquer meio necessário se você não sair”.

“[Os agentes do governo] são enviados pelo prefeito”, acrescentou. “Eles criam um ambiente de medo.”

Protesto na Vila Autódromo em junho desse ano. Foto por Kátia Carvalho

Outro morador lembrou a súbita mudança de atitude do Prefeito Eduardo Paes: “Nas primeiras reuniões com a comunidade, ele deixou muito claro que aqueles que quisessem poderiam ficar e aqueles que quisessem deixar poderiam sair”, disse ela.

“Agora, os agentes entraram na comunidade dizendo que ninguém ficará e que as pessoas vão perder tudo, se não aceitarem a sua oferta.”

2016 será o último ano de mandato do Prefeito Eduardo Paes, político com aspirações presidenciais. O prazo para a entrega da infraestrutura olímpica está se aproximando rapidamente, e muito do legado do prefeito se concretizará em duas semanas em agosto. Ao contrário da Copa do Mundo, Paes prometeu que as obras das Olimpíadas do Rio serão entregues no prazo e dentro do orçamento. Certamente, o Parque Olímpico parece que estará preparado para receber os melhores atletas do mundo.

A área ocidental do Parque Olímpico, no entanto, é uma zona de desastre. Logo atrás de um prédio preto brilhante construído para os hóspedes mais ilustres dos Jogos, estradas de terra cobertas com pilhas de tijolos quebrados e ferro oxidado, fazem parte do cenário onde, uma vez, estava uma comunidade vibrante, segura e unida. As duas imagens contrastantes provam a traição do prefeito Paes, aos pobres urbanos em nome da elite cosmopolita.

“O prefeito, em mídias sociais e em entrevistas, diz que está tudo bem com a Vila Autódromo, que ele se dá bem com a gente”, disse um morador para o RioOnWatch.

“Na verdade, ele age bem com todos nós, porque ele mesmo não nos diz que todo mundo tem que sair. Ele envia os seus agentes para dizer. O trabalho sujo é feito pelos seus agentes que vêm aqui e, cada vez mais, vemos que ele mentiu. Ele não quer que ninguém permaneça aqui. Essa é a grande falha: ele não manteve a palavra”.

Apesar da ameaça, por volta de quarenta famílias continuam determinadas a permanecer na Vila Autódromo, fazendo valer os discursos públicos e promessas do prefeito. “Nem todos tem um preço” tornou-se um mantra deste grupo de moradores com um amor profundo e verdadeiro pela sua comunidade.

Com apenas duas das 58 casas notificadas para a desapropriação no decreto de março ainda no local, o restante das famílias ocupa somente áreas que a comunidade chama de “miolo”, uma área ainda em pé e desnecessária para obras de qualquer tipo, e onde não há nenhuma justificativa potencial para a remoção. Só a pressão resta como técnica de remoção.

“Nem todos tem um preço” tornou-se um mantra deste grupo de moradores com um amor profundo e verdadeiro pela sua comunidade.