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Às Vésperas das Eleições Municipais, Moradores de Favelas Falam Sobre suas Necessidades de Políticas Públicas

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A menos de uma semana das eleições municipais, os eleitores do Rio precisam escolher um dentre os 11 candidatos que estão concorrendo à prefeitura. Apesar de propostas muito diferentes, os desafios que se colocam para a administração pós-Olímpica da cidade são os mesmos para todos e incluem uma cidade com a saúde financeira comprometida, um legado Olímpico de exclusão e antigas promessas não cumpridas.

O impacto desses desafios é maior nas favelas, onde se concentram 23% da população da cidade e um percentual expressivo do eleitorado. Mesmo assim, elas atraem menos a atenção dos candidatos do que outras áreas da capital, tanto no que diz respeito a propostas de governo específicas, quanto a configurarem como destino nas suas agendas políticas.

Claudia, 42 anos e moradora da favela dos Guararapes, na Zona Sul da cidade, expressou essa sensação de abandono: “Eles não sabem nem que eu existo. Se eu morrer não vai fazer diferença. Não sabem nem que eu vivi, quanto mais que eu morri. Eles estão preocupados com eles mesmos. Com o pobre mesmo, eu duvido. Por aqui ser tão tranquilo, eu acho que às vezes a gente é esquecido”.

Exceções notáveis foram os encontros ocorridos no último dia 15, no Complexo da Maré, e no dia 18 na Mangueira. Mas enquanto o último confrontou os 6 candidatos presentes com moradores das favelas e suas demandas, o primeiro contou com a presença de apenas 3 candidatos.

Elis, 46 anos e moradora do Vidigal, diz que não está acompanhando os debates: “É falta de tempo e falta de interesse também. Eles sempre prometem as mesmas coisas e não cumprem nada. Até fazem política aqui, mas só para enganar o povo”. Já Andricéia, 35 anos e também do Vidigal, diz que até as eleições pretende se informar sobre os candidatos. Para ela, é importante que eles sejam ficha limpa. “Além disso, a gente tem que analisar as propostas e qual a bagagem que o candidato tem para poder propor alguma coisa”, diz ela.

Udson, 33 anos e morador do Complexo do Alemão, na Zona Norte, ainda está indeciso. “Não existe solução simples. Alguns candidatos eu admiro muito como pessoa, outros como políticos, mas hoje em dia nenhum deles seria o ideal para a cidade, e nenhum deles eu diria ‘é esse o cara que vai mudar a história da minha cidade’”. Para ele, a mudança na lei de financiamento de campanha para impedir a doação por parte de empresas foi positiva, mas não impediu que empresários doassem grandes quantias em seus nomes.

A seguir, moradores de favelas das diversas regiões do Rio falam sobre as suas demandas de políticas públicas e suas opiniões sobre propostas e temáticas decisivas para as próximas eleições:

SAÚDE

Carlos Eduardo, 37 anos e morador do Morro dos Macacos, na Zona Norte, onde é mais conhecido como Kitinho, reclama da recente diminuição de funcionários de saúde nos postos. Mas vê com bons olhos a presença do agente comunitário de saúde: “A maioria deles é de dentro da comunidade, conhece todo mundo e já passa isso para o médico. Não é um trabalho que dá voltas, é direto. É também uma forma de gerar emprego dentro da comunidade”.

Claudia acha que a qualidade dos serviços de saúde melhorou bastante, mas ainda faltam certos especialistas. “Eu não devia precisar ir pra outro lugar para consultar um oftalmologista. Tinha que ter aqui no posto de saúde e não demorar tanto”. Já Udson reclama da falta de outro profissional: “A saúde mental deveria ser o foco de qualquer política de saúde dentro da comunidade”, ele defende. “A criança ouve qualquer estalo e já vai para o chão. ‘É tiro, é tiro?’”. Ele diz que não só a violência, mas também o trânsito diário afeta crianças e adultos e esse tipo de atendimento não pode ser encontrado nem nas Clínicas da Família e nem nas UPAs.

Além disso, ele não concorda com a proposta do candidato Flávio Bolsonaro de contratar leitos na rede privada com dinheiro da prefeitura para desafogar o sistema público. Ele acredita ser mais uma oportunidade para fraudar licitações e beneficiar aliados do governo. O dinheiro deveria ser aplicado na melhoria da estrutura já existente. “Servidores do município só deveriam poder utilizar hospitais municipais. Assim teríamos cerca de 30 hospitais atendidos com melhor qualidade, pois eles saberiam que alguém da família em algum momento iria precisar”.

Para Robson, 33 anos e morador da Vila Autódromo, na Zona Oeste da cidade, a solução está em fortalecer um sistema de saúde preventivo indo além da recuperação da infraestrutura dos hospitais. “Quanto mais forte o sistema preventivo, menos casos vão ter para tratar”. Quanto à proposta de Marcelo Crivella de pôr fim à necessidade de agendamento de consultas pelo SISREG, ele a vê positivamente. “Eu estou há meses para fazer um exame de ressonância magnética no meu joelho e não consigo porque simplesmente não tem vaga e ficam me jogando pra lá e pra cá. Eu entendo que a eficiência não está na burocracia. Ou você espera esse tempo ou você paga um hospital particular”.

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EDUCAÇÃO

Udson reclama que os mesmos candidatos que levantam a bandeira da educação são aqueles que em outros momentos se posicionaram contra o aumento dos professores. “Para eles é mais interessante que os pobres sejam burros”, é a sua conclusão, “enquanto eles botam os filhos em colégio particular para dar oportunidade. Se investir em educação vai estar todo mundo qualificado e brigando pelo mesmo espaço–e sabemos que não é o que a classe elitista quer. Nenhum grande advogado quer que um jovem da favela tire a vaga de emprego do seu filho”.

Ele também diz que mais importante do que as propostas da maioria dos candidatos (incluindo Marcelo Freixo, Bolsonaro, Crivella, Índio da Costa e Pedro Paulo) de expandir o dia escolar e incluir matérias no currículo obrigatório, é valorizar as matérias já existentes e os professores que aplicam essas matérias. “A motivação é o foco. Um professor motivado vai ensinar com muito mais vontade, mais amor e mais qualidade”, Bruna, 32 anos e moradora do Vidigal, diz que na escola onde os filhos estudam falta professor. “Matemática e português, teve um período que não tinha. Imagina ficar sem português e matemática?”. Para ela, antes de investir em aulas como de informática é preciso resolver esse problema.

Já Kitinho defende que falta ensinar muita coisa no colégio, a que deva começar pelo respeito ao meio ambiente e por noções de trânsito. “A escola deveria ser completa em termos de cinema, teatro, tecnologia. Tem que falar sobre política sim, sobre a realidade. Tudo em seu tempo e com seu limite”. Mas, assim como Udson e Bruna, ele faz uma ressalva: “Muita gente mete a mão na tecnologia e esquece do livro”.

ECONOMIA, EMPREGO E RENDA

Reconhecendo a dificuldade para um jovem morador de favela entrar no mercado de trabalho, Udson reclama da falta de uma educação que verdadeiramente prepare para o mercado, como propõem candidatos como Crivella, Índio e Carlos Osório. “Ensino médio profissionalizante não existe. No ensino técnico são pouquíssimas vagas para muita demanda”, diz ele. Nas comunidades, ele diz que a figura do mototaxista e do motorista de van são importantes e deveriam ser profissionalizados, garantindo mais segurança no seu trabalho e beneficiando a todos os moradores.

Já sobre a proposta de Bolsonaro e Índio de desburocratizar o município, acabando com um número de cargos públicos, Udson mostra desconfiança de que isso possa se traduzir em uma economia para o município e melhor emprego desse dinheiro. “Desburocratização é para ganhar voto. Não adianta acabar com cinco secretarias, se vão encaixar essas pessoas, que muitas vezes arrecadam votos para eles, em outras secretarias”, diz ele.

Bruna fala do negócio que divide com a amiga Elis: “A prefeitura levou nosso carrinho quando ele estava guardado. Mas o horário que a gente chega aqui eles não perturbam tanto porque eles não estão mais trabalhando”. Como moradora do Vidigal, ela ainda destaca que a única coisa ruim da comunidade são os altos preços devido à forte presença de turistas: “A pior parte é o mercado. Aqui é difícil mercado bom e barato. O gringo quer comprar só o básico. Mas para a gente tudo fica mais caro”.

HABITAÇÃO E SANEAMENTO

Andricéia também comenta o impacto dos altos preços no Vidigal sobre a moradia: “Quem trabalha e ganha R$1000, R$1500 e paga um aluguel de R$900, vai comer o quê? E se têm filhos? Teve gente que saiu, que não tinha condições de pagar aluguel”. Houve também quem tivesse casa própria e vendesse a preços “surreais, que você compraria na Zona Sul”, como ela coloca. Elis conta que têm conhecidos que venderam e foram morar em Rio das Pedras e em Muzema. Diante da distância dessas comunidades e da dificuldade de deslocamento, ela considera que essas pessoas “não souberam pensar” e vê positivamente a proposta de Freixo de controlar a valorização do solo.

A questão do lixo também costuma ser delicada em comunidades. “Coleta de lixo aqui é bem difícil. As ruas são estreitas, eles vêm em um horário ruim. Oito horas da manhã o caminhão está subindo e as pessoas descendo para ir trabalhar. Aí para tudo e se você não descer antes, você sabe que vai estar tudo parado, que você vai se atrasar”, diz Andricéia.

Já Udson levanta a necessidade de educar a população sobre o lixo. “As pessoas encaram o saneamento básico apenas como canalização de esgoto e não é só isso, envolve o tratamento desse esgoto, passa pela conscientização da população de como lidar com seu lixo”, ele diz. Claudia concorda: “É preciso ter uma pessoa explicando que não pode jogar lixo nas barreiras, que não pode jogar em qualquer lugar”.

Andricéia ainda coloca que vê a atuação da prefeitura na comunidade na retirada do lixo. “Mas a gente não vê um algo a mais. A prefeitura não se posiciona. Na questão da reciclagem, eu acho que deveria ter alguém para coletar óleo, porque se jogar no esgoto você está desperdiçando e poluindo. E tem época que dá problema na bomba e aí fica uma parte do morro sem água”.

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SEGURANÇA PÚBLICA

Claudia diz que a UPP trouxe benefícios para a comunidade como um todo, mas que não a fez se sentir mais segura. “Se eu gritar o povo do morro vem me acudir. A UPP fica aqui, e aí eu vou ter que correr de lá de casa até aqui? Até eu chegar aqui eu já morri, já me mataram”. Kitinho considera que as câmeras de segurança que Osório, Bolsonaro e Crivella propõem instalar na cidade ajudam: “Mas você se sente segura com a câmera ou com o guarda? Eu me sinto com o guarda”.

Udson diz que a primeira necessidade que existe na favela é a ausência da guerra. “É preciso de paz para ir e vir. A educação por exemplo. Os jovens quando estão indo para escola às 6h começa uma operação e eles perdem aula. Quando conseguem ir e estão voltando, operação. Cria um certo estresse que não deixa o jovem dar o melhor dele nos estudos”. Ele lembra que em 2015 os moradores tiveram que lutar para tirar uma base da UPP instalada dentro do terreno de uma escola em Nova Brasília. “A fachada da escola é toda crivada de balas. O jovem não sabia se tinha mais medo dos bandidos ou da polícia, porque a polícia entrava e dava tapa na cara dos alunos. Teve jovem que largou os estudos e virou bandido porque não aguentava mais tapa na cara do policial”.

Já quanto à proposta de Bolsonaro, Índio, Osório e Pedro Paulo de armar a Guarda Municipal, todos se declararam contra. Kitinho ressalta a falta de preparo e a necessidade de repensar o trabalho da Guarda Municipal, como propõem Crivella e Freixo, e que por isso mesmos elas não podem ter armas letais. Bruna teme que essas mudanças possam significar mais perturbação para ela. “Eu não tenho autorização para trabalhar aqui. E eles não vêm conversando direitinho, dizendo que não pode ficar ali. Já vêm na ignorância. Sem arma já está desse jeito, imagina com arma”.

Para Udson, os comandantes da Guarda Municipal agem como coronéis. “E a gente sabe como coronéis agem desde a escravidão. Se tivesse emprego para todo mundo, não teria por que o cara virar camelô; se ele está camelô, é porque ele precisa levar o leite para dentro de casa”.

Ele também defende a requalificação do trabalho da guarda: “A Guarda Municipal deveria ser uma força de auxílio à população, com informações, próximos às escolas para evitar brigas de alunos. O guarda não precisa estar armado para ter autoridade, basta ele estar em comunicação com a polícia. Se armar o guarda vai ter mais gente armada e não se consegue paz com arma”.

Udson se coloca contra a proposta de Crivella de premiar policiais por metas atingidas, com base na avaliação dos cidadãos de sua sensação de segurança e da qualidade do desempenho dos policiais. “Não tem como a polícia me dar uma sensação de segurança se nem eles mesmos se sentem seguros”. Além disso, ele acredita que, mesmo que seja anônima, uma avaliação ruim vai fazer com que a polícia se volte contra os moradores, pois ela os vê como cúmplices dos criminosos.

“A UPP não trouxe paz para a comunidade. Antes, se ia ter operação o pessoal ficava do lado de fora, deixava o bicho pegar lá dentro e entrava quando acalmasse. Hoje, polícia e bandido estão no mesmo espaço. Não existe uma briga do estado contra a criminalidade, mas uma briga de facções: do estado contra a dos bandidos. A polícia entra com colete, arma, munição, farda. Mas nosso barraco é só de tijolo. Quando a gente se volta contra a presença policial, acham que a gente está a favor de bandido. Não, estamos a favor da nossa vida”, diz Udson.

TRANSPORTE

Sobre proposta de Crivella de dar continuidade aos projetos de transporte público que ele diz ser bem avaliados, como o BRT e o VLT, Udson diz: “Ninguém está fazendo favor nenhum para a população. É dinheiro público que está sendo utilizado. Passei a demorar mais tempo, porque a cidade virou um canteiro de obras, principalmente no Centro, que impacta muito no resto da cidade. Pode até ser que melhore para quem usará esse tipo de transporte”.

“Até o momento nenhuma das coisas beneficiou. Os benefícios vão vir agora, mas depende da localidade onde você mora. Para mim acho que não vai beneficiar em nenhum sentido. O Vidigal acho que ficou meio de lado nesse sentido”, diz Andricéia.

Para Robson, houve uma melhora no fluxo do trânsito, mas não na qualidade do serviço. “Tem a questão das superlotações. Às vezes o transporte está tão lotado que eu preciso esperar para entrar em outro ônibus”. No Vidigal, somente duas kombis com bilhete único operam o serviço e estão sempre lotadas. “Você está dentro do seu horário, mas acaba se atrasando porque espera a boa vontade do motorista de encher a Kombi para você descer”, diz Andriceia. Quem espera no meio do caminho não consegue pegar o transporte. Isso inclui mães com filhos no colo, idosos, deficientes, que não podem ou não querem descer de mototáxi.

Udson concorda com a falta de qualidade e reclama do preço: “Se diminui o trajeto diminui o uso de combustível, diminui o custo para o empresário, mas o custo não diminuiu em nada para o trabalhador. Não há conforto nenhum nos ônibus, já era para ter ar condicionado em todos os ônibus. Também tem a questão das ruas esburacadas e dos trajetos mais longos para captar mais passageiros”.

Robson diz sentir falta da integração entre ônibus, metrô e barca e de meios alternativos de transporte: “Eu vejo uma prisão ao raciocínio rodoviário. Eu sinto falta de ciclovias em toda a cidade do Rio. Eu sinto falta de políticas que viabilizem a mobilidade urbana pela cidade do Rio inteira, a ponto de que se a gente quiser ir correndo ou de bicicleta para o trabalho, a gente tenha condição para isso. Lugar para trocar de roupa, para tomar banho. A passagem é muito cara para um serviço muito limitado. Eu sinto falta dessa mobilidade urbana de verdade”.

Udson diz que faltam informações sobre as linhas de ônibus, especialmente depois das recentes mudanças nos trajetos e racionalização das linhas: “Lá para a Zona Sul existe placa a cada 10, 15 metros. Na Zona Norte e Zona Oeste é salve-se quem puder”.

Mas a maior dificuldade depois dessas mudanças é o deslocamento noturno. Claudia diz que antes tinham vans e ônibus que serviam os Guararapes. “Agora à noite só tem um ônibus e esse só roda até 3h da manhã. Demora, em péssimas condições. É inseguro esperar ônibus aqui e lá embaixo. Vou ficar ali na Central sozinha? Eles alegam que não têm passageiro. Mentira. Antes rodavam van e ônibus e tinha passageiro. Como é que só com ônibus não tem?”. Só que Claudia mora na Zona Sul. “Aqui para a Zona Norte, se você conseguir, pode jogar na mega-sena que você vai ganhar”, diz Udson sobre a probabilidade de pegar um ônibus à noite para o Alemão. Para eles, a proposta de Jandira Feghali e Freixo de implementar uma rede de transporte noturna é essencial.

“Às vezes eu saio meia noite e tenho que morrer em dinheiro em um taxi. Aí você pede pelo amor de Deus, fica mais de uma hora esperando, e um sobe”, diz Claudia, revelando outro problema que os moradores enfrentam ao pegar taxis além dos altos custos: motoristas que se recusam a levar passageiros até as favelas.

Kitinho é claro sobre quem ele acredita ter sido beneficiado pelas mudanças recentes: “O prefeito acabou com algumas linhas e botou o VLT. Essas mudanças melhoraram mais a Zona Sul. Nós precisamos de viadutos, transporte por cima da Avenida Brasil. E por que não botar um metrô expresso da rodoviária Novo Rio para Santa Cruz? Mas vai diminuir a frota de ônibus e beneficiar o Metrô Rio, o que ele não quer”. Essa diferença entre o tratamento dado a diferentes partes da cidade também é destacada por Udson: “o teleférico do Alemão está parado e só tem previsão de voltar ano que vem. Será que fariam o mesmo se fosse fora da favela?”.

Kitinho conclui, profético: “Parece que vão construir uma muralha que nem o muro de Berlim, separando os ricos dos pobres. Só falta isso. Já existe, só que invisível”.