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Construções Sociais da Favela Parte 1: Estereótipos em Filmes Populares

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Esta é a primeira matéria de uma série de quatro sobre a construção social das favelas e o potencial do turismo de favela para desconstruir estereótipos negativos. Lançaremos uma da série a cada segunda-feira até 12 de junho.

A mídia dominante é uma das principais responsáveis por criar e contribuir com estereótipos negativos das favelas. Além dos meios de comunicação, filmes populares como Cidade de Deus (2002), Cidade dos Homens (2007), Tropa de Elite (2007) e Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora É Outro (2010) exibem imagens estigmatizantes das favelas e seus moradores em telas por todo o Brasil e em todo o mundo. Além de moradores de favela serem categoricamente estigmatizados–de acordo com categorias como crime, pobreza, raça, desemprego–a mídia que perpetua esses estigmas, por sua vez, fortalece a estigmatização territorial: estigmatização baseada exclusivamente em ser da favela.

A favela como paisagem cinematográfica

Filmes do início do século XX romantizaram as favelas, antes do período do Cinema Novo na década de 1950. Os filmes do Cinema Novo destacaram as questões sociais das favelas, utilizando os princípios do neo-realismo italiano: filmar no local, usar atores não profissionais e tocar em temas contemporâneos. Um dos fundadores, Glauber Rocha, resumiu isso como “estética da fome“. Apesar das tentativas dos diretores de responder a questões sociais reais por meio de filmes, ainda temos que questionar se este estilo retrata com precisão as favelas.

Desde a morte abrupta do Cinema Novo nos anos 1970, a estética da fome transformou-se na estética da violência urbana, na qual dominaram na tela: guerras por território, facções de drogas e violência ligada às favelas. Passamos de filmes que retratavam as questões sociais que moradores de favelas enfrentavam, para filmes que agora retratavam as favelas e seus moradores como fonte de violência e questões de tráfico de drogas.

Apesar do foco na violência urbana relacionada a drogas, facções de gangues, polícia (corrupta) e a estigmatização resultante, alguns elementos de questões sociais mais amplas e exclusão são visíveis nos quatro filmes discutidos nesta matéria.

Estigmatização através do cinema: os jovens se tornam gângsteres

Cidade de Deus conta a história da favela Cidade de Deus entre os anos de 1960 e 1980 com base no romance semi-autobiográfico escrito por Paulo Lins com o mesmo título. Embora o livro explique o desenvolvimento histórico do papel complexo das favelas e das gangues no estabelecimento da ordem social, o filme enfoca o tráfico de drogas, as guerras territoriais e outras formas de violência relacionadas que dominam a atual cobertura midiática das favelas. A mesma coisa pode ser dito sobre Cidade dos Homens. Apesar de seus esforços para se concentrar nas vidas de meninos órfãos, o filme é dominado pelo uso de histriônicos gângsteres estereotipados.

Cidade de Deus toca em duas teorias criminológicas de como os jovens se envolvem no crime. A primeira teoria sugere que alguns criminosos nascem para ser maus (como o psicopata Dadinho que muda seu nome para Zé Pequeno quando cresce), recorrendo a teorias ultrapassadas do “criminoso biológico”. Essa ideia é refletida pelo narrador do filme quando Dadinho mata pela primeira vez: “Ele sempre quis governar a Cidade de Deus… Naquela noite ele satisfez sua sede de sangue”. A segunda teoria afirma que o comportamento criminoso é influenciado pelo ambiente (lugares e pessoas), implicitamente retratado quando Zé força outra criança a matar um bebê. Tais imagens contribuem para a estigmatização das favelas como lugares criminogênicos, sugerindo que produzem violência inerentemente.

Nos quatro filmes, cenas de jovens negros com armas, usando ou vendendo maconha ou cocaína, são visuais repetidos para o público. Cidade de Deus e Cidade dos Homens ambos incluem moradores de favelas que procuram permanecer fora do negócio de drogas, resultando em histórias mais humanas sobre aquelas vidas particulares. Em contraste, além de algumas tomadas de moradores inocentes em uma operação policial do BOPE, a série Tropa de Elite mostra principalmente os moradores envolvidos em gangues e violência. Nos quatro filmes, a imagem dos moradores de favelas que portam armas é mais proeminente do que as curtas cenas de moradores trabalhando (em Cidade de Deus e Cidade de Homens) ou espectadores inocentes (em Tropa de Elite).

Embora adolescentes com armas ou walkie-talkies estejam presentes em partes de certas favelas, para o público que só conhece a favela através da mídia ou do cinema, o crime torna-se descontextualizado. Isso é problemático porque esses filmes criam a imagem de que a maioria dos moradores de favela está envolvida em questões relacionadas a gangues, enquanto que na realidade menos de 1% estão envolvidos no tráfico.

A cena final de Cidade de Deus planta sementes na cabeça do espectador que o pior ainda está por vir: mostra um grupo de crianças de cinco a sete anos que passeiam pela favela depois de matarem Zé, criando uma “lista de mortes”. De acordo com análises do filme, esses meninos crescem para formar o agora temido Comando Vermelho (CV), pelo fato deste grupo ser conhecido por ter uma lista de mortes. As conexões diretas implícitas do filme à realidade hoje contribuem assim a uma cultura real do medo entre o público.

Nos quatro filmes, a crença na inferioridade racial é usada como justificativa para o tratamento policial à criminalidade. Em Cidade de Deus, um policial sugere a seu parceiro que fiquem com dinheiro roubado quando o encontram, justificando sua ideia com a pergunta: “Desde quando tirar dinheiro de nego ladrão é crime?”

Devido à história colonial do Brasil–e à ausência de uma verdadeira ruptura com o colonialismo–os membros dominantes da sociedade brasileira sempre marginalizaram os descendentes africanos e os rotularam com estereótipos negativos. Correlações entre classe e raça criaram estereótipos ligando afro-brasileiros ao crime, à inferioridade racial e à pobreza. Este tipo de exclusão reduz as oportunidades de acesso a serviços sociais (adequados) e restringe a participação no mercado de trabalho. Agatha, uma guia de turismo nascida e criada no Cantagalo, infelizmente admite: “o governo não dá oportunidades iguais a todos. Quanto mais branco você parecer, mais chances você tem“.

Exclusão Sistêmica

Apesar de reforçar alguns estereótipos, esses filmes reconhecem alguns aspectos mais amplos da desigualdade sistêmica, em particular o isolamento geográfico e a exclusão econômica. No entanto, alguns desses reconhecimentos são incompletos ou enganosos. Mais detalhes sobre cada um destes são dados abaixo:

Isolamento geográfico

Na cena de abertura da Cidade de Deus, o narrador fornece informações sobre a história da favela Cidade de Deus acompanhada por imagens de brasileiros negros chegando a pé, carregando colchões, malas, móveis e lençóis cheios de pertences pessoais:

“A gente chegou na Cidade de Deus com esperança de chegar no paraíso, um monte de famílias tinham ficado sem casa por causa das enchentes e de alguns incêndios criminosos em algumas favelas. A rapaziada do governo não brincava, ‘não tem onde morar, manda para Cidade de Deus’. Lá não tinha luz, não tinha asfalto, não tinha ônibus, mas para o governo e os ricos não importava o nosso problema. Além disso a Cidade de Deus fica muito longe do cartão postal do Rio de Janeiro”.

Relativo aos outros filmes, Cidade de Deus inclui mais perspectiva histórica. No entanto, a citação anterior é a única vez em que o narrador critica diretamente o governo e “o governo e os os ricos”. É interessante notar que ele culpa os reassentamentos por inundações e incêndios, embora o governador naquela época, Carlos Lacerda, seja conhecido pela erradicação das favelas na Zona Sul da cidade e pelo deslocamento de moradores para as moradias públicas que estavam sendo construídas na Cidade de Deus e em outras áreas nos arredores do Rio.

O mesmo filme sugere o isolamento da Cidade de Deus. O bairro foi fundado pelo governo como uma área para reassentar moradores removidos das favelas centrais, e ficava onde não havia infraestrutura e oportunidades próximo. O filme exibe isso não mostrando os arredores da favela. Os outros filmes foram filmados principalmente em favelas altamente urbanizadas e densas da Zona Norte que mostram sua relativa proximidade com a cidade formal. O isolamento da Cidade de Deus é ainda mais realçado por uma cena no filme em que uma mulher está preocupada com um ônibus atrasado, o que irá deixá-la atrasada para o trabalho. Um garoto que trabalha no ônibus responde: “A culpa é da empresa, dona. Eles não botam o número de carros que precisa na linha. É por isso que demora”. Este tipo de isolamento de habitação pública ainda está presente hoje, e na véspera dos Jogos Olímpicos, houve uma mudança feita pela prefeitura nas rotas de ônibus, que tornou mais caro e difícil para aqueles que vivem na periferia da cidade viajar para a Zona Sul a trabalho ou por prazer, mesmo com o aumento das remoções que realocou moradores em novas moradias públicas nos subúrbios distantes da cidade, os erros do passado se repetindo.

Apesar da exibição implícita do filme dessas questões, ele não critica diretamente a negligência do estado.

Exclusão econômica

Os filmes Tropa de Elite I e Tropa de Elite II, baseados em um livro de 2006 do antropólogo Eduardo Soares e de dois ex-capitães do BOPE, são produções semi-ficcionais que mostram as operações diárias do BOPE. No segundo filme, o professor Fraga, cujo caráter se baseia nos primeiros trabalhos do ativista socialista, agora politico, Marcelo Freixo, aborda a exclusão política explicitamente em sua sala de aula. A desigualdade de oportunidades e a negação da cidadania são enfatizadas por uma apresentação em que os alunos explicam a criminalização dos pobres urbanos por ações policiais em favelas.

E quando Matias, estudante de Direito negro, e policial, entra na palestra de Fraga, o narrador explica: “No Brasil, um negro pobre não tem muitas oportunidades. Mas Matias não se importava, ele queria ser advogado, então se matriculou na melhor faculdade de Direito do Rio”. A citação é, no entanto, contraditória: por um lado, ele destaca oportunidades educacionais desiguais, enquanto, por outro lado, afirma que é fácil estudar na melhor faculdade de Direito.

Como diz a socióloga Vera Batista, “o fato das escolas públicas de ensino fundamental e médio serem gratuitas e abertas a todos não diz nada sobre qualidade”. O sistema de educação pública não prepara as crianças para as universidades públicas, as melhores do Brasil, tão bem quanto o sistema privado faz. Obi, fundadora da agência de turismo Favela Brothers e estudante de turismo da Rocinha, explica:

Aqueles que têm uma formação educacional privada tomam os lugares na universidade pública, enquanto a única opção [para nós] acessarmos as universidades é pagar universidades caras, porque são mais fáceis de entrar, mas isso é dificilmente possível devido aos altos preços.”

Como todos os filmes mostram crianças em uniformes escolares, eles sugerem uma realidade diferente na qual o governo fornece educação adequada. Usam argumentos implícitos, onde os moradores de favela podem ser culpados por não terem tentado.

Além disso, em Cidade de Deus, os moradores de favelas são retratados como pouco atenciosos sobre a escolaridade. Buscapé diz a seu irmão que ele só vai para a escola porque não gosta de trabalho físico. Em Cidade dos Homens o personagem principal, Laranjinha, responde a uma pergunta sobre a escola com: “Ótimo, eles estão em greve, isso é ótimo!” Essa indiferença não corresponde ao fato de que, na vida real, muitos moradores de favela se importam fortemente com a educação e estão intensamente irritados com tiroteios e outros impedimentos à sua escolaridade ativa.

Esses filmes captam algumas das discriminações e limitações presentes no mercado de trabalho brasileiro. Em Cidade dos Homens, Laranjinha diz a seu amigo Acerola: “As crianças ricas dirigem um carro quando têm 18 anos, os pobres começam a trabalhar”. Os filmes também refletem outra distinção entre classes econômicas por meio do uso de palavras específicas para crianças ricas–“playboys”–e para pessoas das favelas–“vagabundos”, “traficantes” e “bandidos”.

As distinções de classe também são enfatizadas através do uso de gírias e as roupas de moradores de favelas: chinelos, shorts e uma simples camiseta. Em Cidade de Deus, as crianças costumam usar trapos imundos, muitas vezes pequenos demais ou rasgados, o que implica que os moradores das favelas estejam sujos devido à pobreza ou à falta de etiqueta, apesar do Brasil estar entre os países mais obcecados pela higiene do mundo, e esse aspecto cultural não se limitar à classe econômica. Tropa de Elite leva esta política de higiene social ainda mais longe ao retratar regularmente as pessoas da favela como suadas e minimamente vestidas, enquanto os oficiais do BOPE–mesmo depois de um ataque ou durante um treinamento–ainda parecem arrumados e menos suados.

Conclusão

Esses filmes refletem preocupações sociais sobre um determinado inimigo: os traficantes de drogas. Mudaram a estética cinematográfica da favela da estética utópica para a estética distópica da violência urbana, na qual a favela é quintessencialmente perigosa. No caso dos filmes Tropa de Elite, deslocaram a atenção cinematográfica dos moradores das favelas para as forças do estado, usando apenas a favela como cenário de criminalidade e violência.

E, embora existam os paradigmas de classe no Brasil, os filmes reforçam a estigmatização coletiva dos moradores de favelas. Ao reduzir a complexidade das questões existentes, os estereótipos só são reforçados. Portanto, os filmes funcionam como uma afirmação de estigmas pré-existentes em vez de desafiar as estruturas que levaram a tal exclusão sistêmica. A visualização constante de jovens membros de facções que não têm papéis significativos nos filmes suporta a desgraça espacial das favelas.

Carla*, uma moradora da Rocinha e guia turística, explica quão prejudicial as estigmatizações das representações das favelas podem ser:

São os ricos versus os pobres, os ricos acham que nós [pessoas da favela] somos apenas ladrões e maus… Tenho orgulho de ser uma favelada porque não me importo com o que os outros pensam. Mas muita gente da favela se importa, isso os influencia! Mesmo se eles conseguem um diploma universitário, eles acabam como secretário de advogado ou um assistente, em vez de um médico… Não só por causa da discriminação, mas também porque eles não acreditam em si mesmos. Eles acreditam que eles são menos dignos, porque isso sempre foi dito pela mídia.

Apesar, talvez, das intenções críticas dos diretores para aumentar a conscientização sobre questões sociais, suas representações das conexões da favela com a cultura criminosa significa que o crime está descontextualizado. Em vez de aumentar a conscientização, isso leva a um reforço dos estereótipos negativos dos moradores de favelas em uma escala global.

Esta é a primeira matéria de uma série de quatro sobre a construção social das favelas e o potencial do turismo de favela para desconstruir estereótipos negativos.

Phie van Rompu, M.A., graduou-se em Criminologia Global na Universidade de Utrecht, na Holanda. Ela pesquisa o crime organizado de estado, a (des)criminalização, resistência, e questões relacionadas às drogas. Esta série do RioOnWatch é baseada em sua pesquisa de mestrado.

*Alguns nomes foram alterados.


Série completa: Construções Sociais da Favela

Parte 1: Estereótipos em Filmes Populares
Parte 2: Glorificação da Guerra e da Violência
Parte 3: Turismo na Favela como Resistência
Parte 4: Percepções de Turistas Antes e Depois de Tours Comunitários em Favelas