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Um Ano Após as Olimpíadas a Resistência Continua na Vila Autódromo #QueLegado

Um Ano Após os Jogos

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Leia e ouça a matéria original por Bill Littlefield em inglês no site da rádio pública nacional americana, NPR no programa sobre esportes “Only a Game”, ou “Só um Jogo”, na estação WBUR de Boston aqui. O RioOnWatch traduz matérias do inglês para que brasileiros possam ter acesso e acompanhar temas ou análises cobertos fora do país que nem sempre são cobertos no Brasil.

Há pouco menos de um ano, no Maracanão lendário estádio de futebol do Rio–a bandeira Olímpica foi passada aos representantes de Tóquio, onde os Jogos Olímpicos de 2020 vão acontecer.

É de costume que o Presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI) encerre os jogos declarando-os o melhor de todos. Em 21 de agosto de 2016, Thomas Bach não decepcionou.

“Foram Jogos Olímpicos maravilhosos na Cidade Maravilhosa”, Bach disse. “Estes Jogos Olímpicos deixam um legado único. Um Rio antes e outro muito melhor, depois dos Jogos”.

Mesmo enquanto o Presidente Bach estava celebrando tudo o que a sua organização havia feito pelo Rio, a cerca de 15 milhas do Maracanã, uma celebração de outro tipo estava em andamento. O local era a Vila Autódromo. Que um dia foi um bairro de mais de quinhentas famílias. Agora é uma vila de 20 pequenas e idênticas casas. Theresa Williamson esteve lá.

“As portas estavam abertas nessas 20 novas casas”, diz Theresa Williamson, “e as pessoas estavam saindo para rua. As pessoas estavam servindo comida–churrasco, arroz e feijão, e havia música tocando”.

Theresa Williamson, que é planejadora urbana, é Diretora Executiva da Comunidades Catalisadoras. Por anos sua organização vem prestando apoio aos moradores das favelas do Rio, bairros construídos ao longo de gerações por milhares de trabalhadores da cidade. Algumas das favelas estão em mal estado ou são perigosas. Outras são vibrantes e acolhedoras. É o caso da Vila Autódromo.

Naquele dia de agosto há um ano, quando as pessoas na Vila Autódromo já haviam celebrado com arroz, feijão e música, muitos deles começaram a marcha de protesto em direção ao Parque Olímpico. Eles carregavam consigo uma mensagem “que dizia ‘olhem o que vocês fizeram’”, diz Theresa Williamson. “E também reforçavam ‘nós não vamos embora’”.

Ameaça Tripla: O COI, Empreendedores Privados e as Autoridades Brasileiras

Antes do início dos Jogos de 2016, enquanto a pintura ainda estava secando em alguns dos locais Olímpicos, conversamos com pessoas que visitaram a Vila Autódromo, localizadas em uma lagoa perto do que se tornou o Parque Olímpico. Bem antes dos Jogos e da Copa do Mundo de 2014, os empreendedores já vinham convencendo o setor imobiliário sobre o local. Os dois megaeventos proporcionaram-lhes o poder para agir.

Em agosto passado, falei com o geógrafo Chris Gaffney sobre como essa alavancagem foi aplicada.

“Onde você entra e dá dinheiro para que a pessoa saia”, diz Gaffney, “você entra e destrói a casa deles. Você deixa escombros e depois os vizinhos, ao redor, têm suas propriedades desvalorizadas, porque há escombros que não foram limpos e ratos, e ficam morando em um lugar que parece ter sido atingido por uma bomba”.

A casa de Maria da Penha Macena foi demolida em 8 de março de 2016. (Yasuyoshi Chiba / AFP / Getty Images)

Ou nesse caso, muitas bombas e algumas bolas de demolição. Mas à noite você não podia ver o entulho e as pilhas de lixo que a prefeitura não coletou, porque a prefeitura também cortou as luzes da rua.

Quão bem estas táticas–resultado de uma parceria poderosa entre empreendedores privados, COI e as autoridades no Brasil–funcionaram? Um ano após os Jogos de 2016, esta é uma questão que podemos responder, pelo menos no que se refere a essa favela em particular.

Mesmo depois de aparecerem as primeiras escavadeiras na Vila Autódromo, os moradores passaram a se encaixar em várias categorias: aqueles que aceitaram as ofertas inadequadas de indenização por suas propriedades, embora contrariados; aqueles cujas casas foram tomadas por meio da desapropriação; e aqueles [não removidos pelos decretos de desapropriação] determinados a resistir a tais desfechos. Membros do terceiro grupo se reuniram na Associação dos Moradores. Havia uma sede. E em 24 de fevereiro de 2016, um dia que Theresa Williamson se lembra vividamente, essa sede foi demolida pela prefeitura.

“Logo que aconteceu, houve uma sensação de ‘acabou. É o fim’”, diz Theresa Williamson. “Mas imediatamente em seguida, chegou outra sensação, que a comunidade assumiu uma natureza não-territorial. De repente, a Vila Autódromo não era o espaço físico da comunidade. Era um movimento. Ou era uma ideia. Era um conceito. Era algo maior. E efetivamente, no dia seguinte, as pessoas haviam escrito com tinta spray ‘Associação dos Moradores’ em casas por toda a comunidade. Era como uma forma de dizer “Quer saber? Nós não precisamos daquele espaço físico em particular”.

Dos Escombros, a Resistência Brota Novamente

A destruição das casas e dos espaços públicos na Vila Autódromo inspirou–entre os mais determinados a permanecer–um comprometimento ainda maior com a resistência.

Uma das moradoras mais ativas foi uma mulher chamada Maria da Penha.

“Ela costumava dizer: ‘nem todos têm um preço’”, lembra Theresa Williamson. “Sabe, ‘Eu não coloquei minha casa à venda então ela não tem um preço. Eu não estou interessada em me mudar. Então, por que existe essa suposição de que tudo pode ser comprado e vendido?’”.

Para 20 famílias, esse grito de guerra funcionou. Embora eles não pudessem impedir que as escavadeiras nivelassem suas casas, eles não concordaram em deixar a Vila Autódromo. Para essas famílias, o Estado acabou construindo 20 casas brancas no espaço vazio onde havia uma comunidade próspera.

“Parece um pouco com aqueles pequenos subúrbios nos Estados Unidos, em uma rua solitária”, diz Theresa Williamson. “Mas as casas eram pequenas”.

E elas eram todas iguais, até que uma família colocou uma cadeira de barbeiro na frente de sua casa e ofereceu cortes de cabelo aos outros moradores. E até que outra família adicionou uma rampa em sua casa. Necessidade e imaginação criaram mais inovações.

Aquele pequeno bairro–os restos da Vila Autódromo–foi onde começou o encerramento alternativo das Olimpíadas, e a última marcha. Mas, no momento em que aconteceu, o espírito que tinha animado a favela havia sido transplantado. Assim como Heloisa Helena, praticante do Candomblé, religião baseada em crenças e rituais africanos. Heloisa Helena não estava na festa das 20 casas no bairro. Talvez fosse muito difícil para ela voltar ao local da Vila Autódromo, por causa da casa que ela um dia teve lá.

Heloisa Helena foi deslocada da Vila Autódromo e da sua lagoa, que era fundamental para seus rituais de Candomblé.

“Então eu a vi quando ela estava realmente sentindo o pior”, diz Theresa Williamson. “Ela estava tremendo e claramente perturbada pelo que ela estava vivenciando por causa da prefeitura. E queríamos fazer o que pudéssemos para expor isso”.

“Então, ela foi empurrada, essencialmente, para as periferias urbanas. Isso é o que ela pôde comprar com a compensação recebida, e que atendesse às suas necessidades”.

Especificamente, Heloisa Helena foi empurrada para uma distância de 60-90 minutos da vida que ela havia construído para si mesma, a vida com a qual ela confortava outros.

Heloisa Helena começou a escrever sobre o que aconteceu com ela para um site administrado por Theresa Williamson. Isso ajudou a contar sua história. E essa história ficou familiar para muitos daqueles que leram. Como Heloisa Helena, eles viviam longe da família, dos amigos e do trabalho.

Alguns dos antigos moradores foram reassentados em moradias públicas não muito longe de Vila Autódromo. Eram deficientes, e ao contrário do antigo bairro, os lares não foram desenhados por eles. Eles e seus pais e avós não os construíram. Mas o deslocamento deles e o deslocamento de cerca de mais 70 mil brasileiros são apenas parte do que as Olimpíadas forjou.

Pagando a conta das promessas vazias

Chris Gaffney, com quem nos reconectamos recentemente, vem estudando o impacto dos megaeventos nas cidades-sede por mais de 10 anos, incluindo o Rio.

“Eu estava no Rio para as Olimpíadas”, diz Chris Gaffney. “Eu passei 10 semanas lá antes dos Jogos, durante, e um pouco após”.

“A situação é melhor ou pior do que você previu que seria?” Eu pergunto.

“Essa é uma questão muito difícil de responder, porque eu estava muito pessimista antes”, diz Chris Gaffney. “E foi pior do que eu imaginava”.

“De repente, a Vila Autódromo não era o espaço físico da comunidade. Era um movimento. Ou era uma ideia. Era um conceito. Era algo maior.” –  Theresa Williamson

Chris Gaffney diz que os jogos excederam os custos projetados em mais de US$1,5 bilhão. E não foi o COI o responsável. Foram os brasileiros. Essa triste verdade foi reforçada após os Jogos quando Carlos Nuzman, chefe do Rio 2016, viajou para a Suíça para pedir ao COI cerca de US$40 milhões para ajudar a cobrir o déficit. A resposta foi “Não”.

Mas e as melhorias que os jogos deveriam trazer para o Rio?

“O que nós vimos em termos de benefícios de ‘legado’ foi que a baía não foi limpa”, diz Gaffney. “Houve muito pouca melhoria na qualidade da água na cidade. Não houve melhora na capacidade de esgoto da cidade e vimos vastas áreas de terras públicas abertas à especulação imobiliária, em vez de resolver os problemas dos moradores de rua e de gentrificação que a cidade estava vivenciando”.

Houve algumas melhorias em partes do sistema de transporte público, mas a maioria delas era de benefício mínimo para os cidadãos mais pobres do Rio. E sediar os Jogos ainda sobrecarregou a economia em naufrágio no Brasil, mesmo aquilo que estava em boa forma antes das Olimpíadas, se deteriorou. Passeios diários no Maracanã, onde as cerimônias de encerramento aconteceram, foram suspensos. A instalação está em o que a CNN descreveu como “estado de decadência”. Ninguém pagou a conta da energia elétrica.

O Legado da Vila Autódromo

Porém, do deslocamento e do desespero nasceu uma nova energia. Heloisa Helena foi além de escrever sobre sua perda pessoal. Ela falou diante da Comissão de Direitos Humanos do Senado. Como Theresa Williamson disse, Heloisa Helena “encontrou sua voz”. E ela não é a única.

“Sim, as pessoas que ficaram na Vila Autódromo foram as que mais [conseguiram] resistir”, diz Theresa Williamson. “Eles foram os que não negociaram com a prefeitura em qualquer ponto da longa batalha de cinco, seis anos. E assim eles realmente assumiram essa personalidade, essa característica de ser uma zona de resistência”.

Eles até criaram o Museu das Remoções, que apresenta artefatos como a barricada que os moradores construíram para evitar o trânsito no bairro durante os Jogos.

Hoje em dia, os moradores remanescentes da Vila Autódromo recebem visitas e contam-lhes suas histórias de resistência. Eles têm inspirado companheiros em outras favelas a abraçar seus direitos e lutar pela terra que já é deles.

“É incrível como a comunidade manteve-se firmemente nesta missão”, diz Theresa Williamson. “Mesmo quase um ano depois das Olimpíadas, mantendo a memória viva da comunidade, de sua resistência e também a mensagem de esperança”.

Talvez esse seja o legado final das Olimpíadas do Rio. Pessoas vulneráveis, alimentadas com mentiras sobre as melhorias que os Jogos trariam e depois forçados a sair de suas casas, descobriram como olharem para si não como vítimas, mas como campeões.