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Cinco Maneiras que Ativistas de Favelas Usam o Facebook Para Resistirem às Remoções

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No Brasil, 52.5% da população têm um perfil no Facebook, sendo o terceiro maior país em usuários no mundo. E as favelas são o coração da febre das redes sociais no país, já que 59% dos moradores de favela usam a internet, mais do que os 54% dos moradores do asfalto, de acordo com um estudo do Data Favela, de 2015. No Rio, 90% dos jovens de favela acessam a internet regularmente–apesar de suas comunidades serem algumas das últimas partes da cidade a receberem sistemas formais de telecomunicações–e mesmo com o padrão de exclusão das favelas quanto a infraestrutura tecnológica e serviços sociais. No entanto, a grande disponibilidade de smartphones e cobertura 4G permitem que muitos acessem a internet sem ter um computador.

A presença na internet e em redes sociais dá às estigmatizadas favelas, o poder de se representarem, o que é especialmente importante, considerando os estereótipos negativos e influências políticas comuns no cenário monopolizado das mídias no Brasil.

Cada vez mais, moradores de favelas estão mostrando o caminho no ciberativismo, por exemplo ao usar estrategicamente o Facebook para lutar contra a onda de especulação imobiliária e remoções patrocinadas pelo governo, que têm ameaçado as favelas desde que elas começaram a se formar há 120 anos. A cidade do Rio tem presenciado grande solidariedade entre as favelas na resistência às remoções em diversas comunidades através de páginas e grupos no Facebook. As redes sociais criam novas possibilidades de organização, protestos e construções comunitárias. A seguir, apresentamos cinco formas de utilizar o Facebook na luta contra a remoção sendo utilizadas pelos ativistas comunitários.

1. Criar visibilidade para as narrativas dos moradores

Justificativas para as remoções no Rio são muitas. Eduardo Paes, ex-prefeito do Rio de Janeiro, usou as Olimpíadas para explicar a “necessidade” da quase total destruição da favela Vila Autódromo, na Zona Oeste. Na Zona Sul, moradores do Horto foram falsamente tachados de “invasores” para explicar os planos de remoção do Jardim Botânico. Ativistas comunitários recorrem ao Facebook para desfazer a história oficial, contando as suas próprias. Nesse processo, eles atraem aliados à sua luta e detêm os poderosos como responsáveis.

Os ativistas da Vila Autódromo foram particularmente adeptos a isso durante sua luta de anos contra a remoção, durante os preparativos dos Jogos Olímpicos de 2016. Este vídeo (abaixo), postado na página da Vila Autódromo cinco meses antes das Olimpíadas, pela moradora e ativista Sandra Maria informa, a quem o assiste, as crescentes e agressivas investidas de demolições por parte da prefeitura. “Estamos fazendo esse vídeo hoje para dar uma explicação, tentar explicar tudo que está acontecendo aqui na Vila nas últimas duas semanas”, começa Sandra Maria. Ela explica como as repetidas e irregulares notificações de despejo emitidas pela prefeitura complicaram o trabalho da Defensoria Pública em apoio à comunidade e criaram uma atmosfera de medo. Compartilhando essas experiências e emoções, os moradores testemunharam publicamente sobre as deteriorantes condições de vida, físicas e psicológicas, que fizeram com que vários de seus vizinhos negociassem com a prefeitura, enfraquecendo a afirmação do prefeito de que a maioria dos antigos moradores queriam sair.

Grupos menores de moradores de favela, como as pouco mais de 20 famílias da Estrada de Maracajás na Ilha do Governador, contam com o Facebook para divulgar as ameaças de remoções que não aparecem na grande mídia. A Aeronáutica está tentando reivindicar as terras das famílias, e tem ordenado que os moradores destruam suas próprias casas e partam. A nova página, SOS Maracajás, tem quase 300 seguidores que participam de protestos e oferecem ajuda. Uma das primeiras postagens (abaixo) explica: “Nossa residência, por exemplo, tem mais de 93 anos, idade de minha vó, que se casou e logo foi morar nessa casa… Antes da Aeronáutica chegar na Ilha do Governador, minha avó já morava nessa casa. Contudo, a mesma vem reivindicando a posse do local, afirmando que nossa moradia é ilegal e que invadimos terreno pertencente à Aeronáutica”. Ter um lugar para compartilhar suas próprias histórias é essencial para os moradores. O gigante da comunicação, O Globo, fez uma cobertura sobre um protesto na Maracajás focando somente no impacto do protesto sobre o trânsito na área, em sem mostrar a perspectiva dos moradores.


Os moradores do Horto usaram sua página Horto Fica para desmentir a notícia de que são “invasores”, espalhada pelo O Globo e pelo diretor do Jardim Botânico, Sérgio Besserman. De fato, moradores do Horto são entre os primeiros funcionários do Jardim Botânico e foram encorajados pela administração a se fixarem nas terras próxima a ele. Seguida por 1365 pessoas, a página Horto Fica mostra uma publicação fixada com os dizeres “ENTENDA O CASO EM DETALHES”, explicando detalhadamente a história da comunidade e rebatendo a história divulgada: “Estamos diante de uma tentativa brutal de elitização do bairro em favor da especulação imobiliária!” A página mostra provas de que os moradores têm direito sobre suas casas através de depoimentos orais de antigos moradores, em um documentário produzido pelo Museu do Horto (abaixo). Através dele, o Horto conta, publicamente, sua própria história e comprova a ilegitimidade da história de invasão. Uma petição compartilhada na plataforma, que exige o fim das remoções já conta com mais de 3500 assinaturas, mas a luta continua.

2. Documentando e arquivando a luta

O Facebook é um grande repositório de informação. O sistema tem mais de 500 terabytes de dados e 2,5 bilhões de publicações todos os dias. Ativistas das favelas aproveitam a facilidade de criação e compartilhamento de informações da plataforma para transformar suas páginas em um arquivo da resistência.

Quando o atual prefeito, Marcelo Crivella, revelou o Plano Estratégico de sua gestão em julho, ele mirou na extensa favela Rio das Pedras, na Zona Oeste, para receber um projeto de “verticalização”–prédios de apartamentos no lugar das atuais casas dos moradores. Com medo das remoções e de drásticas mudanças na comunidade, uma comissão de moradores foi formada como resistência ao plano. Com a #RioDasPedrasContraCrivella no grupo do Facebook, que cresceu para mais de 23.000 membros em alguns meses, eles foram pioneiros ao criar a prática de usar as transmissões ao vivo do Facebook em todos os seus eventos. Percorrendo as postagens do grupo, vídeos e textos revelam o progressivo desenvolvimento da luta da favela, através de reuniões com outras comunidades que também enfrentam remoções, mutirões de limpeza na comunidade, protestos e declarações dos organizadores.

Andreia Ferreira, que criou o grupo no Facebook, conta ao RioOnWatch: “O prefeito e os assessores dele contavam muito com a ignorância das pessoas de dentro da comunidade, para poder nos enganar. E a gente, através da internet… conseguiu levar a informação para as pessoas, de que [o plano de Crivella] realmente iria ser fácil [de implementar] se não fosse esse trabalho nosso de conscientização através da internet”.

Em novembro, membros da comissão de Rio das Pedras gravaram o representante do Prefeito Crivella, Paulo Santos Messina, dizendo a centenas de moradores que os planos da prefeitura haviam mudado, afirmando que “não haverá nenhuma remoção”. Os principais meios de comunicação não divulgaram esse vídeo ou o citou no dia seguinte. Mas esse marco foi documentado no grupo do Facebook (e aqui no RioOnWatch), permitindo aos moradores cobrarem Crivella na revisão da atualização do plano para o bairro.

A pequena comunidade da Barrinha na Barra da Tijuca parece ter replicado o modelo de Rio das Pedras criando seu próprio grupo no Facebook, #ficabarrinha. As 51 famílias que moram lá receberam, recentemente, uma notificação oficial de despejo, que eles acreditam ter sido motivada por vários interesses privados apoiados pelo prefeito Crivella. Publicações no grupo documentam que os moradores estão aprendendo com outras favelas como a Vila Autódromo, organizando reuniões para apoiar mulheres em sua luta e participando de protestos contra as remoções (abaixo). Essas publicações contam como provas do trabalho dos moradores da Barrinha para aprender e nutrir sua resistência.

3. Organização de moradores e comunidades para protestos no mundo real

Os últimos meses foram palco de diversos protestos coordenados, criados por várias comunidades e seus aliados. Eventos do Facebook, de fácil compartilhamento e públicos na rede, foram parcialmente responsáveis por atrair as multidões. O “Ato Unificado Contra as Remoções e Pelo Direito à Moradia” foi um protesto que teve uma marcha da Cidade de Deus até a casa do Prefeito Crivella no dia 13 de novembro, e atraiu quase 500 interessados no Facebook (evento abaixo), que se transformou em centenas de participantes–moradores de Rio das Pedras, Horto, Barrinha, Rádio Sonda, Maracajás, Araçatiba, e seus apoiadores.

Como esperado, o evento foi compartilhado em todas as páginas anti-remoções mostradas nesta reportagem. Isso mostra como os ativistas estão superando a potencial “fragilidade” de mobilizações baseadas no Facebook, ou a dificuldade de sustentar um movimento ao longo do tempo e com mudanças circunstancias. Isso se deve aos ativistas que estão baseando seus trabalhos em ações diretas e no comprometimento pessoal de uns com os outros, complementando sua presença online. As atividades no Facebook reforçam movimentos comunitários que crescem a partir de um já forte senso do coletivo.

Lutas anti-remoções no Rio são frequentemente lideradas por pequenos grupos de moradores ativistas que organizam uma base maior de moradores, embora os líderes possam variar com o tempo. Marina Cunha, da Estrada de Maracajás explica: “Decidimos criar a página [SOS Maracajás], para divulgar toda a crueldade que a Aeronáutica está fazendo conosco, para abranger toda nossa comunidade e para que através do Facebook eles fiquem sabendo de eventos relacionados às remoções”.

O Facebook tem a mesma função de comunicação em Rio das Pedras, uma comunidade muito maior. Andreia comenta: “A gente nem divulga essa página, somos pessoas assim, aqui é o povo. Então aqui ninguém tem experiência de como funciona esse mundo da internet. A gente apenas publica as coisas e adiciona amigos. Raramente a gente fala do próprio meio da internet. Como funciona essa questão de adicionar amigos [ao grupo], ele mesmo, ele vai se promovendo sozinho”. A velocidade com que o grupo cresceu é um testemunho para o nível de engajamento online na favela, assim como o valor do Facebook em informar e organizar moradores contra as remoções.

No caso de Rio das Pedras, envolver um grande número de “pessoas normais” no movimento para proteger a autonomia da comunidade foi a chave para o sucesso. Andreia reflete que ela “tinha que encontrar essas pessoas o mais rápido possível, porque eu entendi que só tendo uma mobilização grande, que nós iríamos conseguir vencer esse projeto malicioso do prefeito”. Zeynep Tufekci, uma tecno-socióloga da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, nos Estados Unidos, descreve que “a participação não-ativista” é uma das características dos “movimentos em rede”, como os que vêm crescendo nas favelas do Rio. O Facebook permite que os ativistas recrutem moradores, espalhem informações e coordenem suas lutas em toda a comunidade–fatores que amplificam o impacto desses movimentos quando eles vão para as ruas.

4. Enviar alertas e pedir apoio

Uma estratégia de remoção em diversas comunidades são as remoções relâmpago, rápidas demolições realizadas por escavadeiras, apoiadas pelo batalhão de choque, com pouco ou nenhum aviso aos moradores. Em resposta, os ativistas usam o Facebook para alertar moradores e aliados sobre a presença da Guarda Municipal, equipamentos de demolição ou os questionários que muitas vezes as antecedem.

Em 9 de outubro, escavadeiras da prefeitura entraram na comunidade Araçatiba em Barra de Guaratiba, Zona Oeste, e simplesmente demoliram três casas enquanto seus donos estavam trabalhando. Moradores de Araçatiba dizem que demoliram uma casa erradanão houve aviso de remoção. Já que a comunidade fica perto de praias e manguezais, moradores de Araçatiba se preocupam com a especulação imobiliária, que poderá levar a ainda mais remoções. Eles rapidamente criaram a página no Facebook Araçatiba Resistência Manguetown, na qual os ativistas postam minuto a minuto atualizações sobre qualquer atividade na comunidade que possa sinalizar futuras demolições, inclusive a presença da polícia e equipamentos de construção. As postagens abaixo são exemplos dessa prática na página de Araçatiba.

Essa tática foi usada em outras comunidades, como na Vila Autódromo, para chamar apoiadores e a mídia para a comunidade ao primeiro sinal de uma iminente demolição. Em 23 de outubro de 2015, por exemplo, diversas publicações na página da comunidade marcadas como “SOS” e “URGENTE” alertaram seguidores sobre a presença da Guarda Municipal, pedindo aos apoiadores para compartilhar as publicações e lembrando aos leitores que “da última vez que a Guarda Municipal esteve em peso na comunidade muitos moradores ficaram feridos, numa operação de demolição ilegal da casa do Sr. Ocimar”.

5. Construindo união

Ameaças de remoção causam estresse, ansiedade, e traumas psicológicos. Táticas de coação usadas por autoridades públicas e empresas privadas amplificam o medo de perder o lar da família, ou mesmo uma comunidade inteira. O RioOnWatch tem documentado a estratégia “dividir para conquistar”, na qual moradores pontuais são induzidos a abandonar suas casas, recebendo incentivos financeiros ou ameaças personalizadas, num esforço para quebrar a união da resistência da comunidade. Para piorar, lutas anti-remoções são geralmente longas, variando entre momentos de intensa ação a longos períodos de espera. Como exemplo, a comunidade do Horto, na Zona Sul, a qual o vizinho Jardim Botânico vem tentando expulsar os moradores–muitos dos quais trabalharam no Jardim durante toda a vida–desde os anos 1980, fazendo essa luta perdurar já por 30 anos.

Favelas dependem de laços sociais estreitos e união comunitária para enfrentar as demandas das lutas. À medida que as favelas estabeleceram uma presença online, o Facebook se tornou uma avenida adicional para a construção de um senso comunitário em tempos difíceis.

Mesmo com as demolições desmantelando seu bairro e com alguns moradores aceitando as ofertas de reassentamento da prefeitura, ativistas da Vila Autódromo continuaram a criar eventos culturais, oficinas e reuniões na comunidade. Os eventos do Facebook, a seguir, são exemplos dessa prática. Um é um festival cultural, incluindo uma oficina sobre direitos humanos, cinema para crianças, música ao vivo, uma roda de capoeira e um festival de cinema ao ar livre e discussões. O Facebook permitiu que esses eventos tivessem amplo alcance e garantiu a consistente presença dos moradores e aliados em espaços públicos. Disseminadas através da plataforma, essas reuniões sociais sustentaram as lutas enquanto o tempo passava. Os líderes locais mantiveram-se postando fotos após cada um dos eventos, documentando os vibrantes espaços sociais que a prefeitura tinha a intenção de destruir.

Atualmente, moradores de Araçatiba fazem o mesmo em sua página. Os organizadores planejam e fazem uma série de “ações ambientais”, incluindo a preparação de um jardim comunitário e limpezas no entorno do manguezal. Mutirões são uma tradição de longa data nas favelas, mas os organizadores têm compartilhado esses eventos através das páginas anti-remoções para fortalecerem essa causa. Uma foto postada em um dos eventos (abaixo) recebeu o título “Nada como lutar ao lado de uma galera determinada e resistente!”

Olhando para o futuro

Lutar contra as remoções no Rio de Janeiro frequentemente significa um esforço completo para salvar espaços que muitos moradores chamaram de lar durante todas as suas vidas. Ativistas usam o Facebook para compartilhar informações entre si, receber apoio e responsabilizar os poderosos. Para eles, há poder no potencial da plataforma como espaço democrático. Andreia, de Rio das Pedras, diz ao RioOnWatch:

O que eu aprendi relacionado a isso, é que é o melhor meio de comunicação que existe, principalmente quando você está lidando com o poder público. Porque a gente sabe que o Brasil é um país super corrupto, então eles conseguem comprar até a mídia. E a internet é o meio onde isso não existe, não tem como eles corromperem. Na verdade, parece ser o melhor lugar que a gente tem para se expressar. Até mesmo acho que o caminho para a gente começar mudar o nosso país é através da internet, porque é o meio e o único lugar que a gente consegue colocar ali a verdade, da forma que ela é. 

Marina Cunha da Estrada de Maracajás concorda:

O que aprendi é que a internet usada de maneira sábia, é uma ferramenta muito útil para obter informações e também fazer novos contatos que podem nos ajudar nessa luta.

A crescente acessibilidade para abrir espaços virtuais é atualmente vital para os cidadãos ameaçados pelas remoções. Olhando a frente, podemos ter certeza de que esses ativistas vão continuar a encabeçar as mídias sociais de forma criativa e impactante no Brasil.

Curta, siga, e compartilhe as páginas anti-remoções no Facebook, que estão linkadas neste artigo, assim como as páginas abrangentes do Museu das Remoções e do Conselho Popular, para manter-se atualizado sobre esse movimento, sempre em expansão, em toda a cidade e para conhecer formas de apoiar.