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Adeus e Gratidão: Um Sarau no Ar para Ecio Salles e Seu Legado para a Literatura Periférica

Desenho por Estevão Ribeiro. Fonte: Publishnews

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Na tarde desta terça-feira, 23 de julho, familiares e amigos do escritor e produtor cultural, Ecio Salles (1969-2019), se reuniram na Biblioteca Parque, no Centro do Rio, para prestar homenagem ao cofundador da Festa Literária das Periferias (FLUP). Na calçada da biblioteca, na Avenida Presidente Vargas, dezenas de balões brancos com poemas e mensagens para Ecio foram soltos no ar sob o grito coletivo de “Axé”. O gesto retoma a revoada de balões que anualmente dão início às atividades da FLUP e é inspirado no ‘‘Sarau no Ar’’ realizado pela Cooperifa há alguns anos.

Márcio Rufino, que atualmente participa do Ciclo de Narrativas Curtas e do Laboratório de Narrativas Negras da FLUP, afirma que a revoada de balões é ainda mais antiga: ‘‘Quando [ele] estava na Secretaria Municipal de Cultura de Nova Iguaçu, Ecio sempre fazia ações como essa: chamar o povo para subir balões com versos e poemas colados neles’’. Márcio era então mediador de cultura do Bairro-Escola, um projeto da Prefeitura de Nova Iguaçu, e participava do Coletivo Pó de Poesia.

Trajetória e Obra

Em 2008, quando Marcus Faustini montou sua equipe para a Secretaria de Cultura de Nova Iguaçu, Ecio Salles e Julio Ludemir se conheceram. Nos primeiros anos, Ecio foi subsecretário de cultura passando a titular da Secretaria de Cultura de Nova Iguaçu nos anos de 2010 e 2011. Em 2012, ele fundou com Júlio a Festa Literária das Periferias, a FLUP, inicialmente denominada Festa Literária das UPPs (FLUPP), em referência às Unidades de Polícia Pacificadora

A primeira edição da então FLUPP, foi realizada no Morro dos Prazeres, e a segunda—já renomeada Festa Literária das Periferias—em Vigário Geral, marcando um certo retorno de Ecio a favela onde ele começou a atuar em 1993 como um dos coordenadores da ONG Afroreggae. A FLUP teve ainda edições na Mangueira, Chapéu Mangueira, Cidade de Deus e Vidigal. Ano passado, foi realizada no Cais do Valongo e a Biblioteca Parque, no Centro, foi um de seus principais pontos de eventos. 

Danielle Bernardino, viúva de Ecio com quem teve duas filhas, lembrou a importância do corpo do marido ser velado ali, na Biblioteca Parque, cercado por livros e tantos amigos. Na entrada do saguão, alguns dos livros de Ecio estavam expostos nas prateleiras: Poesia Revoltada; História e Memória de Vigário Geral, co-realizado com Maria Paula Araújo; Eu me chamo Rio e FLUPP Pensa Narrativas Curtas, os dois últimos co-organizados com Júlio Ludemir.

Graduado em letras pela UERJ, Ecio Salles concluiu o mestrado em Literatura Brasileira pela UFF, em 2003, com a dissertação Poesia Revoltada, um estudo sobre o hip hop no Brasil que, mais tarde, seria publicada pela Editora Aeroplano. Em 2009, com a tese Sonoridades da Existência: música, comunicação e produção do comum, Ecio concluiu o doutorado em Comunicação e Cultura na UFRJ.

Mas a relação com a literatura começou muito antes da universidade. Segundo Julio Ludemir, ela teve início no período em que Ecio esteve enfermo e de cama, com tuberculose, e sua mãe ofereceu-lhe O Alienista. A partir daí, Ecio devorou todos os romances de Machado de Assis. Contava então 14 anos.


Nascido em Olaria, subúrbio do Rio, “na borda do Complexo do Alemão’’, como ele mesmo dizia, Ecio Salles entra para a história da literatura brasileira como um dos principais incentivadores da cena periférica, atuando em prol da democratização da cultura. Nos últimos meses, ele trabalhava a biografia de Pai Santana (1932-2011), figura de destaque do Vasco da Gama, time de coração de Ecio. Ele também era conselheiro da Universidade das Quebradas e curador da Coleção Tramas Urbanas que revelou tantos autores periféricos em um momento, como destaca Júlio, que não se fazia ainda a discussão acerca da periferia, pois as questões da periferia só passaram a ser fortemente discutidas após as políticas sociais afirmativas do governo Lula. A FLUP, cofundada com Júlio, destaca-se no cenário literário como um de seus legados sobre e da periferia para o país. 

Legado da Periferia para o País

“Havia já uma produção na periferia mas essas pessoas não tinham muita visibilidade, os meios para publicação, para debate, eram mais raros. A FLUP ajudou a dar visibilidade, a mostrar que já existia uma cena literária potente na periferia e, mais do que isso, mostrou para muitas pessoas que—talvez, tivessem dúvida se o que elas produziam era literatura, se tinha qualidade ou não—que sim, era literatura”, afirmou Rôssi Alves, professora da UFF. “Ecio e Júlio estão marcados na história da literatura da periferia, de expressão de segmentos marginalizados e invisibilizados. Hoje alguns autores estão em grandes editoras, outros não, mas estão felizes, vendendo seus livros participando de debates formando outros leitores ajudando nessa formação de um grupo que não quer mais só o direito de consumir literatura, mas também de produzir”.

A FLUP revelou autores como Ana Paula Lisboa e Geovane Martins, que hoje são colunistas do jornal O Globo; Jessé Andarilho, o primeiro escritor da FLUP que teve um livro publicado por uma grande editoria; as Sarauzeiras Oniricas e tantos outros. Segundo Rômulo Narducci, integrante do Ciclo de Narrativas Curtas e organizador do encontro de poesia Uma Noite na Taverna em São Gonçalo, a FLUP “reeditou o mapa do Rio de Janeiro além de mudar a forma de como se enxergar a periferia”, ele afirma que “a visão da periferia era de fora, com um quê exótico, e após a FLUP a periferia ganhou voz em alto e bom tom. Mostrou que é capaz e potente gerando conteúdo artístico e literário de primeira grandeza”.

Andreza Jorge, moradora da Maré, foi uma das participantes da antologia “Seis temas à procura de um poema” lançado pela FLUP em 2017. Ela participou da FLUP Poesia e afirma que essa experiência potencializou sua escrita. “A minha própria vivência e inserção nesse universo da FLUP, idealizado pelo Ecio e pelo Júlio, me deram a dimensão da potência desse trabalho”, afirmou Andreza. “Tudo que a gente lê, é óbvio que parte da vivência de quem está escrevendo. Existe essa ideia de universalismo, como se a experiência das pessoas que escrevem fosse a experiência da norma, a experiência que é normativa. Aí a gente se sente muito excluído porque o certo é aquela experiência. E aí quando você tem a possibilidade de escrever e ser reconhecido como uma escrita potente a partir da perspectiva da sua própria vivência, no meu caso, como uma mulher negra e favelada, é um ato muito transgressor dentro do cenário literário. Nesse sentido, o Ecio sempre esteve à frente pensando essas questões, pois essa universalidade das produções artísticas não está dada e a gente tem que rasurar ela cada vez mais.” 

Para Márcio, morador da Baixada Fluminense, o grande legado de Ecio e da FLUP é “ressuscitar o legado de Carolina de Jesus, ressignificando a cultura e a literatura produzida por aquele que é invisibilizado pelo cânone literário e pelo status quo. É fazer entender que no morro, na favela, na Zona Oeste, na Baixada Fluminense pulsa corações, corre sangue nas veias, que também têm a capacidade de se traduzir em versos e narrativas”. E finaliza: “Sem o Écio fica uma lacuna muito grande. Na cultura e no nosso coração”.

Júlio destaca ainda que Ecio era um diplomata e um teórico, um professor nato: “Ecio sempre foi um diplomata, [ele] não brigava com as pessoas, gostava de conversar. E foi um grande articulador encontrando os apoiadores da FLUP”. Adair Rocha, professor de comunicação da PUC Rio, também fala dessa caraterística de Ecio: “Ecio foi, em sua dimensão já histórica, um mestre do cerzimento. Saber trabalhar com o diverso, com o plural e com a potência, a partir do marginal, do periférico na arte literária, foi a sua marca”.

Elcio Salles na Biblioteca Governador Leonel Brizola

Ecio Salles lutava contra um câncer no pulmão e faleceu aos 50 anos, na tarde de 22 de julho de 2019. Na próxima segunda-feira, 29 de julho, às 19:ooh, será realizado o “Sarau de Sétimo Dia in Memoriam de Ecio Salles” no Circo Crescer e Viver, na Cidade Nova. 

Miriane Peregrino é pesquisadora, jornalista e educadora, especialista e mestre em Literatura pela UERJ. Criou o projeto de incentivo à leitura “Literatura Comunica!” que atua em escolas, bibliotecas comunitárias e equipamentos culturais há seis anos. Nascida no interior do Rio, atua na Maré desde 2013.