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Operação Mata Jovem na CDD, Após Sequestros e Assassinatos Policiais em Meio à Pandemia

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No começo da noite do dia 20 de maio, João Vitor Gomes da Rocha, um jovem de 18 anos, foi alvejado por tiros pela polícia, na Cidade de Deus, Zona Oeste. João Vitor foi retirado da cena por policiais e colocado dentro de um caveirão, e hora após ser baleado foi declarado morto no Hospital Municipal Lourenço Jorge na Barra da Tijuca. Somente nesta semana, a polícia do Rio sequestrou e matou outros dois jovens: João Pedro Pinto Mattos, e Iago César dos Reis Gonzaga.

O grupo comunitário Frente CDD havia acabado de distribuir 200 cestas básicas na favela Pantanal, localizada dentro da Cidade de Deus, quando foram surpreendidos com a troca de tiros. Eles ficaram no meio de um fogo cruzado, mas se abrigaram na casa de moradores. A distribuição de cestas básicas, realizada pelo grupo, faz parte das ações que os moradores vêm organizando para administrar a crise da pandemia da Covid-19 nas favelas. Nenhum membro da Frente CDD foi baleado.

O conselheiro tutelar, morador e membro da Frente CDD, Jota Marques, às 18h, iria começar uma aula pública online através de uma Live no Facebook: “Nós Por Nós: Ações de Solidariedade em Tempos de Pandemia”. Porém, às 17:56h, ele avisou que estava em outra transmissão ao vivo: Eu tô AO VIVO NO INSTAGRAM @jotamarquesrj”, postou no Twitter. Gravando a si mesmo, ele denunciou a violência policial em meio a pandemia da Covid-19.

Enquanto Jota transmitia a live no Instagram, outros membros da Frente CDD andavam pelas ruas da comunidade, em meio a operação policial, com cuidado. Revoltado, um dos membros, gritou: “Eles são genocidas! Eles entram matando!”, e outro membro da equipe respondeu tentando mediar a indignação do amigo: “Eles são genocidas e nós somos o alvo do Estado! Nós é preto, mano! Nós é preto! Você acabou de distribuir 200 cestas básicas, e não vou te perder, mano!”. A trágica realidade foi reportada em vídeo na página da Frente CDD.

Quando um caveirão passou por eles, o grupo descobriu que dentro estava um morador ferido. A equipe entrou em um carro e seguiu o caminhão blindado, primeiro até a 41ª Delegacia de Polícia Civil e depois, para o Hospital Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca. Minutos depois, descobriram que o jovem, João Vitor da Rocha, faleceu. Segundo o pai do jovem, ele tinha saído de casa para comprar uma pipa.

Na transmissão na live no Instagram, Jota tremendo, virou-se para a tela e disse: “Estou cansado de apenas sobreviver. A gente não tem direito de viver. A gente não tem direito de entregar comida. A gente não tem direito de cuidar dos nossos. A gente não tem direito à nada”, e completou: “Não me interessa o que ele foi. O que me interessa é que ele não vai ter chance nenhuma de continuar sendo nada ou tentar ser. Esse garoto podia ser um aluno meu, podia ser alguém da minha família, podia…” A live terminou com o ativista emocionado.

A publicidade da ação policial e o desfecho foram acompanhados pelo Instagram e Twitter por diversos moradores e ativistas de favelas. Indignados, eles retuitavam os posts de Jota para denunciar a necropolítica do Estado.

Somente entre os dias 10 e 19 de maio, a plataforma Fogo Cruzado registrou operações policiais nas favelas do Complexo do Alemão, Manguinhos, Vidigal, Chapadão, São CarlosFallet, Mineira, Coroa, Cidade de Deus, Acari, Vila Aliança, Vila Vintém, Vila Kennedy, Morro do Engenho, Morro do Juramento, Mangueira, Morro da Cachoeira Grande e Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo. Moradores do Complexo do Alemão, da favela de Acari e da Cidade de Deus já denunciavam que atividades de distribuição de doação de cestas básicas, para a população das favelas, estavam sendo interrompidas a tiros.

Há três dias, no dia 18 de maio, João Pedro Matos Pinto, de 14 anos, teve a casa invadida e foi morto em um operação policial no Complexo do Salgueiro. Ele levou um tiro de fuzil na barriga, e foi levado em um helicóptero da Policia Civil. A família foi ao Twitter para denunciar o sumiço do menino, e só acharam o corpo dele no IML de São Gonçalo um dia depois.

No mesmo dia, familiares de Iago César dos Reis Gonzaga, de 21 anos, também usavam as redes sociais para procurar o jovem. Ele desapareceu no dia 18 maio, após uma operação do Bope na favela de Acari. De acordo com parentes, ele foi torturado com um saco plástico e com uma faca por policiais e, depois levado em um viatura. A família se dividiu e percorreu delegacias, hospitais e até os Institutos Médico Legal a procura do jovem. Iago foi encontrado morto no dia 19 de maio.

Ativistas de Favelas Respondem

Em notas enviadas para o RioOnWatch, comunicadores e militantes de favelas do Rio prestaram depoimentos sobre a política de segurança do Estado:

“A política que sempre tivemos na favela é a política da morte. Mesmo diante de uma pandemia, a favela não consegue nem colocar como prioridade as necessidades básicas que precisam ter para evitar a transmissão do vírus, porque a prioridade do governo não é resguardar e cuidar das vidas negras e faveladas. A prioridade deles é a de continuar matando, assim como tem ocorrido todos os dias. Só esta semana tivemos jovens baleados e assassinados em Acari, São Gonçalo e agora na CDD. Queremos o fim das operações policiais. Queremos o direito à vida!” — Gizele Martins, Frente de Mobilização da Maré, Complexo da Maré

“Tenho 23 anos e enfrento a força policial todo dia, mas de modo diferente: [enfrentando] a força estabelecida por uma conjuntura política que quer manter seu poder eleitoral e comercial nos mecanismos da sociedade. Essa força hoje, em grande escala, tem participação nas mortes desses jovens nos últimos dias. Já que sabemos que essa força chegou nas casas de poderes e dominou a rédea do jogo político.

Agora, em casa, banham nossas salas de estar com nosso próprio sangue. Nossos meninos não podem mais soltar pipa que são alvejados ou confundem casas com piscinas em ilhas de drogas do tráfico local. Tudo tática. Uma tática de guerrilha antiga: exterminar o inimigo pela raiz. Limpeza total e se possível, brutal. Esse é o projeto de poder desta força e vão nos afogar em nosso próprio banho de sangue se não fizermos nada.

Temos que tomar o poder. Fazer os nossos chegar nesse mesmo patamar e mudar o jogo. Fica aqui os meus sentimentos a família de mais um João. E um salve aos movimentos, coletivos e sujeitos que fazem tanta diferença na sociedade. Não são só entregas de cestas básicas, são atos que [se] opõem ao planejamento da nossa morte.” — Rafael Oliveira, Coordenador do Coletivo Favela Vertical, Gardênia Azul

“Estamos vivendo uma pandemia mundial, onde moradores de favelas sofrem com o alto contágio e a facilidade do mesmo devido a toda demanda que já sabemos que existe nos territórios: moradia digna e estruturada, saneamento básico, pontos de coleta de lixo adequados. Somando isso ao sucateamento, proposital, dos aparelhos públicos de saúde, temos uma enorme parcela da população largada a sorte.

Como se tudo isso já não fosse violência suficiente, o Estado se faz presente nos territórios periféricos e favelados através de seu braço armado. Isso é um projeto de séculos. O Estado inclusive aproveita de momentos delicados para aperfeiçoar as técnicas de opressão contra o povo negro e pobre. O Rio de Janeiro é uma cidade vitrine, mas ainda assim nem tudo o que ocorre está exposto como deve. Quando a polícia do império é criada, um dos objetivos era caçar escravizado rebelde e fujão, outra obrigação era defender as propriedades privadas (inclusive os escravizados eram tido como propriedades também). Podemos analisar que essas atividades continuam sendo exercidas na sociedade contemporânea.

Não é de hoje que o projeto de extermínio do nosso povo vai na raiz e atinge nossas crianças e jovens. O menino Maicon foi morto pela polícia em 1996, aqui na Favela de Acari, aos dois anos de idade. E os PMs alegaram resistência. As 11 vítimas da Chacina de Acari, todos bem jovens. E a história vai se repetindo cíclica como tragédia, eu me sinto numa roda gigante pingando sangue do meu povo, girando, girando e vendo sempre a mesma cena. Falando as mesmas coisas. Exigindo as mesmas coisas. Como um disco arranhado.

Há pouco tempo policiais iniciaram uma incursão policial porque acharam que o caminhão de doações do Gabinete de Crise do Alemão era roubado. No início desse mês parte da equipe do Complexo de Acari Contra a Covid foi surpreendida com o caveirão na porta do centro cultural do Coletivo Fala Akari onde estão as doações. Houve tiro e gente correndo carregando as cestas básicas. E agora, esse ocorrido na Cidade de Deus onde os companheiros da Frente CDD Contra a Covid-19 ficou encurralado pelo caveirão.

Parece que a morte está cada vez mais próxima de nós justamente no momento que tentamos impedir que os nossos morram.” — Buba Aguiar, patologista e socióloga, Coletivo Fala Akari, Favela de Acari


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