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Covid-19 No CEP 23000: Racismo Estrutura Letalidade em Campo Grande, Parte 1

Esta é a nossa mais recente matéria sobre o novo coronavírus e seus impactos sobre as favelas e é a primeira parte de uma série de duas matérias que analisa a desigualdade da letalidade da Covid-19 entre dois bairros da Zona Oeste, a Barra da Tijuca e Campo Grande. A matéria foi escrita pelas integrantes da Teia de Solidariedade Zona Oeste.*

Esta primeira parte traz um breve histórico comparativo entre a letalidade da Covid-19 na Barra da Tijuca e Campo Grande, apontando a iniquidade no sistema de saúde e o recorte racial entre os bairros.

Quando os números se transmutam em rostos amigos, vizinhas/os e parentes eles descortinam a triste desigualdade a que estamos submetidas na periferia do mundo, fruto em grande parte do racismo estrutural. Pelo menos três iniquidades centrais se alternam no contexto da Covid-19, todas inter-relacionadas. Uma lida com o risco concreto de morte, a outra com acesso a políticas públicas—tanto de saúde quanto às demais para garantia da vida digna—e a terceira com acesso a dados qualificados e contextualizados. Nessa última camada, entra não apenas a subnotificação, mas toda a possibilidade de leitura de números que possa dar visibilidade às outras desigualdades. 

Na medida em que se sobrepõem na parte pobre e mais populosa da cidade do Rio de Janeiro, essas iniquidades escancaram o exercício do poder dos governos por meio de um padrão mórbido, onde ora mata, ora deixa morrer pobres, pretos e periféricos. E é isso que se apresenta quando olhamos para Campo Grande, bairro de mais de 300.000 habitantes na Zona Oeste, que se tornou o epicentro da letalidade da Covid-19 na cidade. 

As integrantes da Teia de Solidariedade Zona Oeste acompanham as informações sobre óbitos em relação à contaminação pelo novo coronavírus, a partir do Painel Rio Covid-19, da Prefeitura do Rio de Janeiro. Em fins de março, a Zona Oeste só aparecia no mapa, com casos de Covid-19 confirmados, na Barra da Tijuca—bairro considerado “nobre” dentro da Zona Oeste, sendo, naqueles dias, o primeiro da cidade em número de notificações. Dentre os campeões de casos, todos eram bairros da Zona Sul da cidade. Embora esteja na Zona Oeste, a Barra da Tijuca se alinha à Zona Sul em características demográficas, ainda que nesta última concentrem-se os bairros de metro quadrado mais caros do município. São áreas de poder aquisitivo alto, com a população majoritariamente branca, que tem garantida pelo Estado o direito à cidade—e à vida—por meio de políticas públicas. Os dados que expressaram o avanço da doença inicialmente nestes bairros podem também ter sido alterados pelo simples acesso aos testes, mas como veremos adiante, o que compõem o mesmo contexto de iniquidade. 

No dia 19 de abril, com um número muito menor de casos confirmados notificados, Campo Grande, o bairro de baixa renda, começa a despontar no ranking de mortos. Enquanto o bairro nobre contava com 246 notificações de adoecimento e 11 pessoas falecidas (4,47%), o bairro de baixa renda contava 144 doentes e 20 vítimas fatais (13,89%), o que significa que em cada 100 doentes em Campo Grande, 14 morreram, enquanto na Barra, foram 4. Dezoito dias depois desta primeira observação, no dia 07 de maio, a Barra da Tijuca apresentava taxa de letalidade de 8,33%, enquanto Campo Grande chegava à 17,8% na relação entre infectados e vítimas fatais (veja infográfico acima). Em 06 de julho o painel da prefeitura constava Campo Grande com 2261 casos confirmados e 335 óbitos (14,81%) e a Barra da Tijuca com 2472 casos e 141 óbitos (5,7%). Isto significa que, atualmente pela contagem da prefeitura, os moradores de Campo Grande têm 2,5 vezes mais chance de morrer pela doença do que os moradores da Barra da Tijuca.

Sabemos por experiência que as subnotificações, tanto de casos quanto de óbitos, sugere que tais proporções podem ser ainda mais alarmantes. O fato de conhecermos as histórias de moradores de nossos bairros que não conseguiram atendimento de saúde, e de alguns que foram a óbito em casa, causando uma multiplicidade de dores ao nosso redor, nos impele a cobrar que as medidas de socorro nesta pandemia considerem essas desigualdades de acesso. Fica bastante evidente que a letalidade nesta comparação tem a ver com o maior acesso que moradores da Barra da Tijuca têm aos sistemas de saúde e de emergência diante da Covid-19, além de melhores condições de autocuidado. Por esse motivo, argumentamos que melhores condições de isolamento social, assim como de acesso à saúde, para os bairros de baixa renda da Zona Oeste, devem ser priorizados pelo poder público.

Seja por retratar racialmente a letalidade da doença por região da cidade—Barra da Tijuca com 87,59% de brancas/os e Campo Grande com 54,37% de pretas/os e pardos/as—ou seja por não definir os índices de adoecimento, estes números retratam a desigualdade. A falta de testes clínicos ou de unidades de saúde disponíveis, a falta de acesso a equipamentos de saúde pública têm um lado bastante evidente enquanto política de Estado. A falta de transparência desses dados alcançou uma culminância no dia 18 de maio, quando o Painel Rio Covid deixou de apresentar os dados referentes aos óbitos na cidade divulgando apenas os de notificados por bairro, o que impedia de monitorar a letalidade nos bairros.

No dia 25 de maio, uma decisão liminar do Tribunal de Justiça obtida pela Defensoria Pública do Rio e pelo Ministério Público Estadual, obrigou a prefeitura a voltar a informar, com destaque, as mortes segundo a contagem dos hospitais. No entanto, atualmente, o painel mostra os bairros em ordem alfabética e não mais na ordem de números de casos, como anteriormente, dificultando a leitura de onde há mais casos e consequentemente maior risco de contágio.

Ao olhar de forma consequente e relacional os dados do avanço da pandemia e de sua letalidade, no Brasil fica escancarada a lógica da necropolítica, de quem morre e quem vive. E amplifica a denúncia dos abismos sociais e da estrutural marginalização de milhões de pessoas que são, em sua maioria, pretas e afrodescendentes. Consequências ainda da grande tragédia humana do processo escravocrata, vivida tanto na periferia da capital do Rio de Janeiro, como em países como os Estados Unidos. Não há surpresa, portanto, quanto à negligência do Estado, perante a uma tragédia completamente anunciada.

A chegada do vírus ao Brasil colocou no debate público uma das versões mais cruéis do racismo estrutural, capilarizado nas instituições brasileiras: a dimensão necropolítica do “deixar morrer”, evidenciando que as escolhas políticas, econômicas e ideológicas dos governos, por meio da violência e invisibilização de desigualdades, têm implicações materiais na vida e nos corpos dos grupos racializados deste país. 

A leitura de dados das políticas de assistência e saúde neste período de pandemia evidencia a defasagem de recursos e a escolha na alocação de equipamentos públicos emergenciais. Faz-se necessário compreender que a ampliação do alcance das políticas de saúde e proteção social básica e especializada são passos fundamentais para a redução das desigualdades e injustiças sociais, sobretudo para a manutenção de vidas. 

Olhar para esta realidade, em pleno contexto de pandemia e distribuição da renda básica emergencial é refletir sobre seus impactos na abrangência do atendimento à população em situação vulnerável. Ou seja, além de camadas de desigualdades e opressões existentes previamente, mais uma é adicionada neste momento: a trajetória dos recursos liberados para prevenção e tratamento de pacientes infectados pela Covid-19.

Embora já houvesse levantamentos prévios apontando os bairros periféricos como locais de maior risco de aceleração do crescimento exponencial de número de pessoas infectadas, o poder público não agiu de acordo com esses dados. Para ilustrar esse argumento, basta dizer que o primeiro hospital de campanha inaugurado na cidade foi instalado no Leblon, bairro que ostenta o título de metro quadrado mais caro do país—e um dos mais caros do mundo.

Esta matéria é a primeira de duas que analisa a desigualdade entre a letalidade da Covid-19 entre dois bairros da Zona Oeste, a Barra da Tijuca e Campo Grande. A segunda parte analisará uma série de dadosque possibilita a leitura de outras desigualdades estruturais—e a invisibilização de dados que impede que a população, em geral, tenha um panorama claro da sua realidade local frente à pandemia.

Nota

A Teia de Solidariedade Zona Oeste é a união de coletivas, coletivos e instituições da Zona Oeste para levantar doações para alguns bairros, em função da atuação política de cada um dos coletivos. A Coletiva Popular de Mulheres da Zona Oeste, o Instituto de Formação Humana e Educação Popular (IFHEP), o Coletivo Piracema, a Coletiva As Caboclas, Mulheres de Pedra, instituições como a Fundação Angelica Goulart, e o Plano Popular das Vargens, se juntaram na busca por doações a serem direcionadas aos bairros de Sepetiba, Santa Cruz, Campo Grande/Bosque dos Caboclos, Pedra de Guaratiba, e Vargem Grande.

Ana Alvarenga de Castro é engenheira agrônoma doutoranda em Gênero e Agricultura na Universidade Humboldt de Berlim, agroecofeminista, lésbica antirracista, colaboradora da Teia de Solidariedade Zona Oeste. Ana trabalhou como analista ambiental e extensionista em agroecologia e hoje pesquisa sobre as dimensões de trabalho, terra e alimento em disputa no contexto de conflitos socioambientais na América Latina, especialmente o avanço do modelo neoextrativo diante das agriculturas camponesa, quilombola e indígena.

Camila Nobrega é  jornalista e pesquisadora, carioca de Vila Isabel, atualmente é doutoranda em Ciência Política na Universidade Livre de Berlim. Camila trabalha principalmente com temas relacionados à justiça socioambiental, feminismos latino-americanos e democratização da mídia, atuando em construções que conectam jornalismo, ativismo e pesquisa.

Caroline Santana é pesquisadora negra, doutoranda em Serviço Social pela Escola de Serviço Social da UFRJ; mestre em Planejamento Urbano e Regional pelo IPPUR /UFRJ, assistente social pela ESS/UFRJ, coordenadora de trabalho socioambiental nos projetos de desenvolvimento territorial em favelas do Rio de Janeiro e Niterói, membro da Roda de Mulheres da Rede de Agricultura Urbana Carioca e militante do Grupo de Enfrentamento ao Racismo na Baixada Fluminense. 

Marina Ribeiro é educadora popular, cientista social (FIC-FEUC), pesquisadora e ativista antirracista, mulher negra periférica com atuação na Zona Oeste, integrante da Coletiva Popular de Mulheres da Zona Oeste e da Articulação Teia de Solidariedade Zona Oeste, fundadora e coordenadora geral do Instituto de Formação Humana e Educação Popular (IFHEP), desde 2010. 

Rosineide Freitas é mulher preta, cria e moradora de Campo Grande, professora da UERJ, integrante da Diretoria Regional RJ do ANDES-SN, integrante da Coletiva Popular de Mulheres da Zona Oeste, integrante do Fórum Estadual de Mulheres Negras RJ e integrante do Colegiado da Sociedade Civil do Fórum Permanente de Diálogos Marielle Franco da ALERJ.

Silvia Baptista é mulher negra, de origem quilombola, cria das Vargens, pedagoga e doutoranda em planejamento urbano pelo IPPUR/UFRJ.

Infográficos por Poliana Monteiro.


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