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Live Provoca: ‘Impactos da Covid-19 em Rio das Pedras: O Que Fazer? Encarar ou Esconder?’ [VÍDEO]

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Esta é a nossa mais recente matéria sobre o novo coronavírus e seus impactos sobre as favelas.

No dia 5 de março, o primeiro caso de Covid-19 foi confirmado no estado do Rio Janeiro. Quase cinco meses depois, ainda não se sabe o real impacto da doença nas favelas da região metropolitana e centenas de milhares de moradores não recebem a atenção necessária do poder público.

Em Rio das Pedras, Zona Oeste da capital, uma pesquisa da prefeitura em parceria com o Ibope identificou que um em cada quatro moradores testou positivo para o novo coronavírus dentro da amostragem. Com mais de 140.000 moradores, isso seria o equivalente a 35.000 pessoas contaminadas. No entanto, a mesma pesquisa indica uma letalidade de 0,2% em Rio das Pedras, o que corresponderia a 70 óbitos.

Entretanto, os relatos de lideranças locais revelam que a situação é muito mais grave do que os dados oficiais apontam. Lideranças e mobilizadores locais travam uma batalha tripla: a primeira contra a Covid-19, a segunda contra as consequências econômicas agravadas pelo descaso do governo e a terceira contra a desinformação e as fake news que se espalham por redes sociais e correntes de WhatsApp.

No dia 22 de julho, o Coletivo Conexões Periféricas, organizou uma live interativa, com a participação de lideranças locais e representantes de organizações que atuam em Rio das Pedras, intitulada “Impactos da Covid-19 em Rio das Pedras: O Que Fazer? Encarar ou Esconder?” A roda de conversa foi mediada por Douglas Heliodoro, professor da Rede Municipal de Niterói e membro-fundador do Coletivo, e contou com as participações de Érika Alves, fundadora e gestora da organização comunitária SocialBit; Felipe Zagnoli, idealizador do projeto Corrente do Bem; Léu Oliveira, fundador do movimento cultural Cine & Rock; Paula Barbosa, sanitarista, especialista em saúde coletiva (ENSP/Fiocruz), mestranda em saúde pública na Fiocruz; Welersson Menezes, agente comunitário de saúde da Clínica da Família Helena Bessermam Viana e Vânia Rocha, do projeto social Semeando Amor.

Douglas iniciou a conversa lamentando o fato de grande parte da população ter se acomodado e normalizado a pandemia da Covid-19, mesmo diante das fatalidades causadas pela doença. Ele também destacou a desigualdade no acesso a hospitais e cuidados médicos, e acrescentou que “os espaços favelizados têm uma cobertura muito ruim da mídia, sobretudo em relação à violência. Temos esse estigma que é colocado sobre o território da favela, há esse sensacionalismo que foi exposto na matéria do RioOnWatch, “7 Erros da Imprensa ao Cobrir a Favela“. A mídia romantiza o confinamento como se todos tivessem a mesma estrutura e conforto. Sabemos que a maioria das casas nas favelas nem sempre são confortáveis, nem sempre são grandes o suficiente”, destacou ele.

Nesta segunda-feira, 3 de agosto, a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro iniciou a terceira etapa da testagem rápida em favelas e Rio das Pedras terá mais uma pesquisa por amostragem. Os líderes locais argumentam que isso não está sendo traduzido em políticas públicas ou mesmo em uma real contagem de óbitos. Segundo Léu Oliveira, “O Estado não cumpre o seu papel de estabelecer a causa da morte como Covid-19, dizem que ninguém morreu de Covid em Rio das Pedras, mas só aqui na minha área foram 20 pessoas [que morreram], pessoas que eu convivia”, lamentou ele.

Rio das Pedras não é considerada um bairro, por isso, os número oficiais são contabilizados em Itanhangá. Até o dia 4 de agosto, 43 óbitos foram registrados na região pelo Painel Rio Covid da Prefeitura.

A situação se agrava ainda mais devido à falta de infraestrutura básica adequada em Rio das Pedras. Sanitarista e especialista em saúde pública, Paula Barbosa, mencionou um dos principais problemas: “O saneamento básico é quase nulo em Rio das Pedras, há anos estamos na mesma situação. Não temos o poder do Estado aqui dentro”.

Devido a essas adversidades, lideranças locais tiveram que mudar a rotina de seus grupos para atender a demanda por cestas básicas e itens essenciais de higiene. “Desde março já atendemos mais de 400 famílias e a cada entrega é choro e conversa, mais de 80% delas relataram que pessoas próximas tiveram sintomas de Covid e que alguém em casa ficou doente. Aqui na comunidade o vírus já atingiu muita gente”, relatou Érika Alves da SocialBit. Ela também acrescentou: “Mesmo com todos os projetos sociais nós não damos conta. O que fazemos é minimizar o impacto. São questões que vêm de antes da epidemia, falta de moradia, saneamento básico, etc.”.

Felipe Zagnoli da Corrente do Bem contou que seu grupo interrompeu as atividades que faziam com crianças para focar na distribuição de cestas básicas às famílias que perderam o emprego, porém, a organização também tem enfrentado dificuldades. “Tivemos que dar um passo para trás depois da primeira ação, porque alguns foram infectados pela Covid-19. Com o nosso trabalho, amenizamos o que o governo e o Estado deveriam estar fazendo. Não somos heróis, não deveríamos estar fazendo esse trabalho.”

“Não é só o trabalho da cesta básica, também estamos lidando com pessoas que precisam de carinho. Às vezes têm mulheres que você vê que estão precisando de um abraço, de estarmos perto”, explicou Vânia Rocha. Há 17 anos ela está à frente da Projeto Social Semeando Amor e reafirma: “Não podemos deixar a comunidade morrer de fome dentro de casa, por isso saímos e fazemos nossa parte”.

Educação Científica

Reportagens nos últimos meses mostraram como muitos cariocas não seguem as orientações sobre o isolamento e as medidas básicas de proteção, como o distanciamento físico e o uso de máscaras. Isso ocorre em toda a cidade, com relatos inclusive de aglomerações e festas. Sobre a culpabilização individual durante a pandemia, Douglas ponderou, “todos têm uma parcela de responsabilidade, mas sabemos também que existe uma falta de educação científica no campo da saúde para preparar as pessoas para esse tipo de situação que estamos vivenciando”.

Ele ainda acrescentou: “Percebemos a ausência de uma campanha educativa de massa. O governo federal e as prefeituras não falaram sobre os cuidados”. Sobre o tema, o jornalista Rafael Britta explicou a importância do jornalismo comunitário: “O nosso papel é conscientizar e informar, dentro e fora da comunidade. Temos que passar a real situação, coisas que os jornais não fazem a fundo”.

Welersson Menezes, que trabalha na Clínica da Família de Rio das Pedras, ressaltou a importância das conversas com os moradores sobre os fatos científicos de uma maneira simples e clara. “Acreditamos que o nosso maior poder é informar, plantar a sementinha para que ela seja a multiplicadora dentro e fora de casa.”

Como informar a população? Estamos sabendo como falar e nos comunicarmos com elas? Estes são alguns dos questionamentos feitos por Paula. “Temos o potencial biológico grave, mas temos um risco maior no Brasil que é a falta de informação, a falta de políticas públicas que sejam voltadas para a população mais vulnerável. Muitas pessoas estão recebendo fake news no WhatsApp, elas estão desacreditando na ciência. O Brasil está numa fase de transformação da verdade e pessoas estão acreditando apenas no que o vizinho falou, ou no que o grupo da igreja repassou.”

Caminho para o Futuro

Ao final da live, os participantes falaram sobre outras soluções que estão sendo colocadas em prática para atenuar as consequências do novo coronavírus. Douglas destacou: “Estamos formando redes de ação e fazendo pesquisas de forma articulada, uma delas é a partir de um link e um formulário enviado uma vez por mês aos moradores de Rio das Pedras”. Outra iniciativa é o Painel Unificador Covid-19 nas Favelas do Rio de Janeiro, projeto idealizado pela Comunidades Catalisadoras* com instituições parceiras. “Não é momento para esconder dados, precisamos deles para direcionar ações de assistência e de cobrança ao poder público para que atue nesses espaços”, enfatizou ele.

“As pessoas têm que se conscientizar. É difícil você sair de casa e ver uma galera passeando, bebendo e conversando sem máscaras enquanto 90.000 pessoas morreram. Estamos normalizando as mortes. Essas mortes têm raça, endereço e são geralmente pessoas pretas, pobres e faveladas, infelizmente”, concluiu Paula Barbosa.

Assista à Live interativa aqui:

*Comunidades Catalisadoras é a organização que publica o RioOnWatch


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