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Julho Negro Expõe a Luta de Mães de Jovens Negros, Vítimas da Violência do Estado, por Justiça

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Esta é a nossa mais recente matéria sobre o novo coronavírus e seus impactos sobre as favelas, e parte da nossa cobertura contínua dos eventos do Julho Negro.

No dia 29 de julho, como parte da série de eventos da 5ª edição do Julho Negro, foi realizada a live interativa Mulheres Negras Analisam a Violência do Estado, que contou com a presença de quatro mães que têm em comum não apenas o assassinato e violência atroz de que seus filhos foram alvos, mas que também, corajosamente, denunciam a violência de Estado que afeta a juventude negra.

A roda de conversa—que trouxe temas contundentes, como torturas no DEGASE, auto de resistência, intervenção militar e formação policial—foi mediada pelas pesquisadoras Luciane Rocha e Rachel Barros e teve a participação de Deize Carvalho, fundadora do Núcleo de Mães Vítima Pavão-Pavãozinho e Cantagalo; Irone Santiago, mobilizadora social da Redes da Maré; Márcia Jacintho, militante da Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência e Zoraide Vidal, advogada e mãe de uma policial assassinada.

Irone Santiago—cujo filho Vitor Santiago ficou paraplégico e mutilado, por tiros de policiais, quando voltava de uma saída com amigos—explicou como as mães de vítimas do Estado, são obrigadas a fazer justiça com as próprias mãos, um trabalho que, segundo ela, deveria ser feito pelo próprio Estado. “No começo da minha luta… nos lugares que eu ia, eu era a Irone ‘louca’. Todo o mundo dizia que eu não ia conseguir nada. Eu não acreditei nas pessoas… e ainda continuo lutando. Só que hoje eu luto de outra forma, porque eu sentia muito ódio da Polícia Militar. Hoje estou procurando me tratar, porque eles também têm mãe. É muito difícil ter empatia, se pôr no lugar dos outros e compreender. Quando dizem que o meu caso é diferente porque o meu filho está vivo, eu não aceito. É um caso de violação como os outros”, compartilhou Irone.

A história de Irone é semelhante a de todas presentes na live. Durante anos, essas mães tiveram que reunir por conta própria meios para dar continuidade à luta por justiça aos seus filhos. Durante o debate, as mediadoras mostraram vídeos com as várias mães clamando por justiça nas ruas. Uma dessas imagens foi de Deize Carvalho, em frente ao Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, exigindo respostas sobre o caso do seu filho Andreu Luiz Carvalho, torturado durante uma hora e morto por seis policiais, dentro do estabelecimento do DEGASE. Ela culpa o corporativismo do Estado por dificultar a movimentação do seu caso.

“Quando acontece esses crimes hediondos, eles tentam ocultar e retirar provas do fato do crime. Do caso do meu filho, o legista foi ausente o tempo todo. O meu filho teve cortes contundentes, mas não diz como foram feitos. Isso é o corporativismo, [que] não condena o seu agente, como [foi] no caso de Maicon, [uma] criança de dois anos morta por um policial, em que o processo foi arquivado como ato de legítima defesa”.

Ao contrário do jogo infantil ‘polícia e ladrão’, na vida real o lado dos bons e dos maus não são assim tão lineares. Zoraide Vidal, que teve a filha grávida Ludmila Fernandes Fragoso torturada e carbonizada em um assalto em Duque de Caxias, após terem descoberto que ela era policial, relatou: “Eu não tive ajuda de ninguém, nem do Estado. O Estado é tão desorganizado, até mesmo com os próprios. Um mês depois da Ludmila morrer, eles me mandaram um postal de aniversário! Não é só na favela, eles não tomam conhecimento de ninguém”, disse Zoraide, que lamentou a precariedade das condições nas delegacias: “A Ludmila levava resmas de papel… para poder prestar um bom serviço. Não queremos culpar o policial, mas sim o Estado”.

As mães concordam que a solução para a violência passa por programas estatais que possam oferecer esperança aos jovens de obter uma educação e tornar o tráfico menos apelativo como fonte de rendimento.

“Eu não sou da violência, eu sou da paz. Nós negros não vamos chegar a lado nenhum com guerra. A única arma que nós temos é a educação, incentivar [nossos] filhos a estudar. É a luta do saber, para falar de igual para igual”, explicou Zoraide Vidal.

Deize Carvalho acrescentou: “Uma vez [que tenha] passado pelo sistema prisional, é bandido para sempre. Em vez de oferecerem curso profissional, atividades socioculturais… Temos uma sociedade, da elite burguesa, que banaliza e desvaloriza a violência. O Estado não está nem aí para o favelado ou o policial que manda para a favela”. Deize concluiu: “Nenhuma mãe gera filho para ser bandido, nenhum filho é gerado com um fuzil dentro do seu ventre. É o Estado que coloca essa arma de violência.”

Assista ao Debate Aqui:


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