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Famílias que Ocuparam Sobrado para Sobreviver à Pandemia São Removidas no Centro do Rio

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A pilha de móveis na calçada começou a se formar por volta das 8h30, quando a Polícia Militar chegou para fazer uma ação de reintegração de posse em um sobrado próximo ao Largo do São Francisco, no Centro do Rio de Janeiro. Dentro do imóvel, enquanto as famílias retiravam seus pertences em caixas de papelão, as crianças menores brincavam de bicicleta e pique no meio do cerco policial que se formou na entrada do prédio. O espaço, ocupado em janeiro desse ano, abrigava cerca de 30 famílias, entre elas 40 crianças. Nesta quarta-feira, 9 de setembro, o sobrado que amanheceu cheio, anoiteceu vazio.

Quando a ocupação começou, no início do ano, poucas pessoas moravam no local. Porém, depois de março, com a chegada da pandemia e necessidade de adoção do isolamento social, muitas famílias perderam o emprego. Sem trabalho, foram obrigados a deixar suas casas, sendo acolhidos na ocupação. Nos últimos meses, o grupo que morava no sobrado da Rua Ramalho Ortigão mais do que dobrou.

Essa é a história de Thais Nascimento, que foi morar na ocupação com os sete filhos após perder a fonte de renda. “Eu sou camelô de porta de evento, eu não morava em ocupação, nunca morei. Eu pagava o meu aluguel, tinha uma casa grande, sendo que hoje eu me encontro assim. Eu não tenho como trabalhar, não tem evento em lugar nenhum”, desabafou Thais. Essa é a segunda remoção enfrentada pela família em 15 dias. Antes de chegar ao sobrado no Centro, ela e os filhos estavam morando em outra ocupação em Laranjeiras, Zona Sul, que foi removida há duas semanas.

Dessa vez, além de perder a casa, Thais vê seus filhos perdendo também o acesso à educação, cultura e lazer, por meio de atividades que eram oferecidas dentro da ocupação por voluntários. “Eles não estão estudando por causa da pandemia, mas aqui eles têm aula de alfabetização, tem ballet, tem tudo aqui dentro. O professor de música chegou para dar aula, ele está lá fora”, contou Thais. Com o filho mais novo no colo, que completou dois meses nesta quarta, ela conta que o mais velho tem 15 anos. 

Remoção no Largo de São Francisco, no Centro. Foto por Jaqueline Suarez

“Eu não sei, a ficha ainda nem caiu. A polícia está aqui, eles querendo que a gente tire as coisas, mas as minhas coisas estão lá em cima ainda. Meus filhos são muito pequenos, eu não sei o que vou fazer”. Com muito medo de perder a guarda das crianças, Thais prefere não ter o abrigo como opção. “A Prefeitura quer oferecer abrigo para a gente, um lugar onde nossos filhos ficam largados e nem tem o que comer direito. Eu não vou não”. 

A falta de um tratamento digno e condições básicas de alimentação e moradia nos abrigos públicos são relatados por muitas famílias que viviam no sobrado. Algumas ficaram em situação de rua e passaram por abrigos antes de chegarem à ocupação. Quem conhece essa realidade de perto, prefere não voltar. “Abrigo? Nem se pronunciaram sobre qual abrigo, nem falaram. Nossa intenção não é ir para abrigo, eu já passei por abrigo e eu sei o que é”, explicou Queli Ambrósio, responsável pela ocupação no sobrado. 

Ela contou sua história enquanto encaixotava suas coisas, ainda sem saber para onde ir. Antes de chegar ao sobrado, ela morava com os cinco filhos em outra ocupação, também no Centro da cidade. Porém, quando parte do prédio começou a desabar, ela ficou com medo de continuar com as crianças no local. Ainda em 2017 ela começou, com um grupo de mulheres, a trabalhar na limpeza do sobrado. Foram pouco mais de dois anos até conseguirem transformar o espaço insalubre em um ambiente com condições mínimas de habitação. 

No prédio, o segundo andar foi dividido em áreas pequenas, cercadas por tapumes, cordas e madeiras. Cada quadrado representa a casa de uma família. Já no primeiro andar, onde há um pátio grande, muitos usavam para guardar seus carrinhos e carroças de trabalho. Também é o espaço onde funcionava a escola das crianças e onde elas brincavam. 

“Aqui não tem ninguém abaixo da linha da pobreza, todos estão abaixo da linha da miséria. Vieram ocupar um imóvel dividindo com ratos e baratas, sem luz e sem água”, ressaltou Léo Motta. Ele, que já viveu nas ruas, hoje coordena um projeto que atende cerca de 300 pessoas em situação de rua. Na porta da ocupação, impedido de entrar pela polícia, ele tentava conseguir ajuda pelo celular. “Aqui ninguém precisa de fuzil, aqui a gente precisa de assistência”, destacou ele, referindo-se à ausência dos órgãos públicos de assistência e a presença de policiais com armas de grosso calibre

 

“O Estado só veio pela polícia para botar a gente pra fora, tirando isso nada”, reforçou Queli, minutos antes da chegada do Núcleo de Assistência Social da Prefeitura. Já era quase 11h30 quando a equipe chegou ao local. Em nota à reportagem, a própria Secretaria Municipal de Assistência Social de Direitos Humanos (SMASDH) informou que só soube da ação de reintegração de posse no dia, porque “não foi comunicada pelos órgãos responsáveis pela ação”. Também informou que a alternativa apresentada pelo município, o acolhimento nos abrigos da prefeitura, não foi aceita por nenhuma das 28 famílias que residiam no sobrado. 

“Precisamos que o poder público ofereça a essas famílias um lugar de moradia, não abrigos familiares como o da Apoteose, que semana passada sofreu um corte de energia e ficou no escuro”, explicou Léo Motta. Ele conta que mesmo durante a pandemia, as remoções continuam acontecendo no Rio. Além disso, como muitas famílias estão perdendo seus empregos e, consequentemente suas casas, por conta da pandemia, a população em situação de rua tem crescido bastante, especialmente na capital. A poucos metros do sobrado, uma grande fila atravessava o Largo da Carioca à espera de uma marmita solidária. Essas pessoas precisam de uma solução. “Quem está aqui precisa ser visto, não precisa ser varrido”, reclamou Léo.

As famílias retiradas do sobrado foram comunicadas sobre a ordem de despejo no dia 3 desse mês, menos de uma semana antes da ação de reintegração de posse. “Só deu a ordem de despejo, toma aqui o papel e vocês serão despejados”, explicou a responsável pela ocupação, Queli Ambrósio. Ela relatou que o grupo conseguiu um mandado de segurança na justiça, que ainda seria avaliado, para saber se a ordem de despejo seria ou não concretizada. A ordem de desocupação, no entanto, foi cumprida. 

Os moradores que não estavam no espaço quando a desocupação começou tiveram seus móveis e pertences colocados em caminhões e enviados para depósitos públicos. Segundo Queli, não foi informado o local exato para onde as coisas seriam enviadas ou como essas famílias poderiam recuperá-las.

A reportagem procurou o Tribunal de Justiça do Rio para comentar o caso, mas até a publicação desta matéria, não houve retorno do órgão. Já a Polícia Militar informou, em nota, que “o armamento utilizado pelos policiais é o previsto em regulamento e pela legislação vigente”. A posse de armas de grosso calibre “faz parte da rotina do efetivo da Polícia Militar, independentemente das ocorrências”. Informou ainda que não houve registro de ocorrências no local.

Vídeo por Queli Ambrósio.

Jaqueline Suarez é jornalista e estudante de mestrado na UFF. É também comunicadora popular e vídeo-documentarista independente. Vive na comunidade do Fallet, em Santa TeresaZona Central do Rio.


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