A Vitoriosa Presença Negra de Atletas do Brasil nas Olimpíadas de Tóquio #OQueDizemAsRedes

Arte original por Raquel Batista

Esta matéria faz parte da série #OQueDizemAsRedes que traz pontos de vista publicados nas redes sociais, de moradores e ativistas de favela, sobre eventos e temas urgentes, e faz parte da série de matérias do projeto antirracista do RioOnWatch. Conheça o nosso projeto que traz conteúdos midiáticos semanais ao longo de 2021: Enraizando o Antirracismo nas Favelas. Para contribuir com essa pauta, clique aqui.

Quando um atleta negro do Brasil marca seu nome na história de qualquer edição dos Jogos Olímpicos, ali tem uma conquista que foi construída a partir de muita superação, de enfretamento as muitas barreiras que ficam como obstáculo ao longo do caminho.

1964 foi a primeira vez que Tóquio, no Japão, foi sede dos Jogos Olímpicos. Naquele momento, a delegação brasileira contava com 68 atletas. Aída dos Santos, então com 27 anos, era a única mulher do grupo. Negra, Aída nunca teve o devido apoio. Em casa, sofria com o descrédito dos pais que perguntavam se o atletismo enchia barriga. 

Nas pistas, o técnico ainda lhe dava certo apoio. Mas os dirigentes a tratavam de maneira diferente. Chegou ao país asiático sem roupas adequadas, sem apoio técnico, sem intérprete e sem ver seu nome inscrito nas provas. Teve que contar com o apoio de atletas de Cuba e do Peru até para conseguir um tênis para competir. Quando precisou de um médico, foi a empatia dos atletas da ilha latina que mediaram a situação. Mesmo assim, Aída saltou acima de toda estrutura racista e conquistou o quarto lugar no salto em altura, o melhor resultado de uma brasileira até a edição olímpica, de 1996, em Atlanta, nos EUA.

A atleta que fez história em Tóquio, quando o Brasil entrava nos anos sombrios da ditadura militar, revela muito mais do que o legado de um recorde Olímpico. Deixa à vista o descaso, fruto do racismo, de quem dirige os investimentos nas mais diversas modalidades olímpicas praticadas no Brasil. Em recente entrevista ao portal UOL, Aída desabafou: “O atletismo ainda é o primo pobre do esporte nacional, imagine então como foi naqueles tempos. Eu, uma mulher, pobre e negra”.

Infelizmente, a história de Aída ainda ecoa nas vidas de negras e negros que decidem seguir esse caminho. Mas é essa capacidade de resistência e resiliência que faz essa luta diária nem sempre terminar de modo previsível.

Quase 60 anos separam Aída e Rebeca Andrade. Mas a falta de recurso, o pensamento de desistência e a exclusão sentida pela população periférica ainda permanecem as mesmas. No entanto, desta vez a favela chegou ao ponto mais alto do pódio. Rebeca escreveu mais um capítulo dessa história, no mesmo país que consagrou Aída, Rebeca sendo a primeira mulher negra do Brasil a conquistar uma medalha na modalidade individual da ginástica olímpica.

Rebeca Andrade. Foto: Lindsey Wasson / Reuters

Toda vez que vemos a conquista de uma pessoa preta, devemos ter a certeza que esse resultado foi a soma de esforços coletivos e de muitos enfrentamentos a um sistema racista. Rebeca é cria da periferia de Guarulhos, em São Paulo. Desde criança viu sua mãe, trabalhadora doméstica, dar duro para sustentar oito filhos em uma casa com um cômodo. Também enfrentou muitas vezes a falta de dinheiro para passagem para ir aos treinos. E isso tudo antes de completar dez anos de idade.

Para dar mais peso a essa conquista, a apresentação que garantiu a medalha de prata levou o funk, com a música Baile de Favela, do MC João, para dentro de uma modalidade marcada pelo domínio branco. O ouro de Rebeca veio durante a apresentação no salto. O MC agradeceu em sua página no Instagram.

Marcelle Decothe, cria do Favelas nas Lutas e coordenadora do Instituto Marielle Franco, usou as redes para mostrar a importância do feito.

E essa conquista, que vai muito além da representatividade, teve no depoimento da precursora da ginástica artística no Brasil, Daiane dos Santos, um dos momentos mais emocionantes dos Jogos Olímpicos de 2020. Durante a transmissão ao vivo, a ex-ginasta destacou o fato de ser uma mulher preta a primeira a chegar a esse lugar. A página, no Instagram, Influência Negra, postou o vídeo com a fala de Daiane no SporTV.

O que fica cada vez mais evidente no mundo é a ruptura do silenciamento dos atletas em relação ao racismo enfrentado em cada passo. Em entrevista à revista Marie Claire, Daiane revelou que sofria com ataques racistas nos clubes e na seleção brasileira ao ponto de não usarem o mesmo banheiro que ela, por conta de sua cor e da origem periférica.

Mesmo quando rolou o embranquecimento através de uma ilustração da skatista Rayssa Leal, as redes sociais não ficaram em silêncio e logo aconteceu uma enxurrada de críticas. Após a atleta acertar uma manobra que a maioria das competidoras erraram, ser a integrante mais nova do Brasil a subir no pódio olímpico, aos 13 anos, e ser também a primeira medalhista no ano em que a competição passou a fazer parte dos Jogos, desenhos polêmicos começaram a circular. O perfil de Twitter @dapenha, fez um fio preciso para questionar a prática racista.

O perfil da Turma da Mônica no Twitter, publicou uma imagem da personagem, branca e ruiva, Denise, para representar a skatista Rayssa Leal, e não passou despercebido.

Comitê Olímpico Permite Expressões Políticas

Em meio aos impactos gerados pela pandemia da Covid-19, quase 60 anos depois, Tóquio volta a ser palco do maior evento esportivo do mundo. E desta vez, o próprio país teve que encarar o debate racial durante os jogos por causa de uma de suas principais atletas. A tenista Naomi Osaka, de 23 anos, filha de pai hatiano e mãe nipônica, foi a primeira japonesa a conquistar um torneio internacional da modalidade. E isso abriu o caminho para ela usar a visibilidade mundial para tocar num assunto invisível ao mundo: existem afrodescentes japoneses. Ela foi a atleta escolhida pela delegação japonesa para acender a pira olímpica.

Em 2020, Naomi boicotou uma partida de tênis que aconteceria em Nova Iorque, em protesto pela morte de Jacob Blake, 29. O jovem negro foi brutalmente assassinado por policial branco. Isso aconteceu meses depois da também violenta morte de George Floyd, após ter tido o pescoço pressionado pelo joelho numa abordagem policial. 

Vale destacar que esta é a primeira edição olímpica pós a morte de George FloydAída, Rebeca, Daiane e tantas outras atletas negras Brasil afora fazem parte de uma luta que ultrapassa qualquer modalidade olímpica. Talvez as Olimpíadas de Tóquio sejam um marco na posição política do esporte. Certamente, não é a primeira vez que os embates políticos ganham terreno no esporte. Mas essa pressão fez com que, pela primeira vez, o Comitê Olímpico Internacional permitiu oficialmente que atletas se expressem antes e depois das provas.

Muitos Outros Também Ganharam Espaço

A questão racial não foi a única pauta que entrou com força na agenda política dos Jogos. A edição olímpica do Japão também marca a maior participação de atletas que se autodeclararam da comunidade LGBTQIA+. E a quarta medalha de ouro conquistada pelo Brasil foi da maratonista aquática negra Ana Marcela, que dedicou o lugar mais alto do pódio à namorada dela.

A vereadora e cria da favela da Maré, Mônica Benício, correu para as redes celebrar que o amor entre mulheres é revolucionário.

Mas a primeira manifestação política nos jogos do Japão aconteceu no futebol feminino, quando atletas se ajoelharam em protesto contra o racismo antes das partidas. No dia 25, Luciana Alvarado, atleta da Costa Rica, terminou uma prova com o punho cerrado e ajoelhada em referência à pauta antirracista. O gol do atacante da seleção brasileira de futebol, Paulinho, foi dedicado ao Orixá Oxóssi, e foi certeiro no racismo religioso que impera no esporte. Habituados a sempre vermos manifestações de tradição cristã ao final das partidas, o jovem jogador deu o primeiro passo para que esse tema possa ganhar repercussão dentro da modalidade, o que foi notado nas redes.

E sacramentou a quinta medalha de ouro brasileira nas Olimpíadas de Tóquio, o canoísta negro, Isaquias Queiros, de Ubaitaba, na Bahia (Ubaitaba em Tupi significa Terra das Canoas). Isaquias se torna o 3º maior medalhista do Brasil na história dos Jogos Olímpicos. Minutos após a vitória de Isaquias, a primeira advogada travesti preta do Norte-Nordeste e Codeputada Estadual em Pernambuco pela Juntas, Robeyonce Lima postou:

Ainda na madrugada de sábado (7/8), a sexta medalha de ouro do Brasil foi conquistada pelo Baiano, Hebert Conceição, que comemorou dizendo: “Nobre Guerreiro”. A expressão é parte da música Madiba, que o Oludum cantou pela libertação de Mandela. Hebert já havia cantado um trecho da música após a luta anterior que o levou a final da Olimpíada de Tóquio: “Nobre guerreiro negro de alma leve, nobre guerreiro negro lutador, que os bons ventos calmo assim te leve aonde você for…”

Seu canto repercutiu nas redes. O correspondente comunitário da Agência Mural de Jornalismo das Periferias, Kaique Dalapola, postou quando ele cantou a música no dia 01 de agosto.


No dia 07 de agosto os ventos levaram o “nobre guerreiro negro lutador”, Hebert, ao lugar mais alto do pódio Olímpico. A doutoranda em Política Social-UnB, Luiza Carvalho, comemorou no Twitter:

Sobre o autor: Rafael Lopes é um jornalista negro e mestre em Comunicação Social pela UFRJ. É pesquisador da obra do jornalista e escritor Lima Barreto.

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